Lobos de Veneza
9 Conte seus segredos
Notas iniciais
Encarou a porta marrom por longos minutos.
Uma parte de si não queria ouvir o ranger da madeira enquanto a porta se abria, não queria ouvir o que parecia ser a marcha fúnebre de suas manhãs. E tardes. E, muitas vezes, até noites. Mas havia aquela outra parte, a que ela dava mais ouvidos, a parte curiosa e inquieta do seu ser. A parte que ansiava por descobrir o que aquela garota fazia ali.
Desde que recebera a ligação, mais que inesperada, de Daenerys Targaryen, sua mente não parara um segundo sequer. Em anos estudando naquela escola a menina nunca a havia procurado. Para nada. Parecia muito bem resolvida consigo mesma, com seu status de popularidade, com seu namorado... Namorado esse, que se fosse alguns anos mais velho a própria Cersei faria questão de tê-lo para si. Era um pensamento um tanto cruel, absurdo e talvez até doentio, mas ela não conseguia evita-lo.
– Querida. – Fez seu melhor sorriso ao abrir a porta para a loira. – Como vai? Entre, fique à vontade.
– Cersei. – Respondeu entrando na sala. Respirou fundo e sentou perto da loira inquieta, não sabia o motivo, mas sentia que aquele dia seria um tanto longo. – Devo dizer que fico muito agradecida por você me atender em plenas férias.
– Tudo bem, Daenerys. Não me agradeça.
– Bem... – A garota se balançava para frente e para trás freneticamente, Cersei nunca a tinha visto daquela forma. – Eu precisava conversar. Mais exatamente preciso contar um segredo, como não tenho nenhuma amiga a quem possa confia-lo...
– Veio até mim. Não contarei seus problemas para ninguém, mesmo que eu queira muito. – E sim, ela iria querer– Pode prosseguir...
– Acho que eu tenho que contar algumas coisas antes de contar o real problema. Como você sabe, eu namor... Namorava o Drogo. – Namorava? Então o atleta bonito estava solteiro? Deveria mesmo ser mais velho... – Eu sempre tive certeza do meu amor por ele, assim como eu sempre tive certeza de quem eu era de verdade.
– Mas?
– Algum tempo atrás eu conversei com um garoto, que me pôs em dúvida. Quer dizer, ser popular, bonita, rica... É só isso que tem pra mim? – Só isso? Cersei quase revirou os olhos. Definitivamente aquela garota não estava bem. – Eu quero mais, quero ser mais. E esse garoto me fez enxergar que eu posso isso.
– E?
– E que eu não sei. Não sei se estou somente me deixando levar por alguém que eu mal conheço, exatamente como eu já fiz antes...
– Antes?
– Festa de dia das bruxas, ano retrasado. Antes de eu começar a namorar o Drogo, conheci um Cavaleiro Mascarado. Um garoto fantasiado assim... Ele tinha olhos incrivelmente lindos... Lembro que eu estava chorando, por algo sem importância. Esse garoto chegou, sentou-se ao meu lado e me abraçou. Um abraço quente e forte, que me fez sentir protegida. Então ele me olhou de uma forma tão doce, que quase derreti. O garoto não disse uma palavra se quer durante toda noite, nem mesmo quando acabamos no armário de vassouras.
– Uh! – Foi tudo o que conseguiu falar. – E foi esse tal garoto que te fez terminar com o seu namoradinho atleta, malhado e lindo?
– Não. Quer dizer, mais ou menos. – Esperou. – É um garoto, mas não o garoto do armário. O garoto de agora não é nada doce, gentil, ou delicado... Ele é um bruto, não tem nada a ver com o meu Cavaleiro. Nada.
– Eu posso saber que é o novo garoto?
– Jon Stark. – Jon Stark? Um de seus “pacientes”. Um que não falava nada da sua vida, apesar das insistências de Cersei. – Eu não o conheço direito, Cersei. Mas ele me perturba.
– Jon Stark perturba qualquer um, minha querida. – Disse-lhe — Bem sabemos que o pai dele morre de medo que ele se meta em uma encrenca da qual não possa ser tirado.
– Ele já veio aqui? Na sua sala? – A garota perguntou e sua mente vagou para um tempo atrás, quando um rebelde de cabelos negros e cacheados foi enviado até ela.
– Jon Stark, não é? – Perguntou tentando quebrar o silêncio da sala.
– É o que dizem.
– Então Jon, qual o seu problema?
– Atualmente? Você. Essa sala. Essas perguntas. – Cersei sorriu, aquele garoto não seria nada fácil. Mas ela adorava um desafio. Jon Stark parecia um desafio dos bons.
– Não acha que podemos ser amigos Jon?
– Não.
– Por quê?
– Você fala de mais, odeio isso.
– Por quê?
– Hã? – O garoto franziu o cenho. – Tudo tem que ter um motivo? Às vezes as coisas só são o que tem que ser. Simplesmente. Não gosto de pessoas me fazendo perguntas, fuçando na minha vida. Quero privacidade, é pedir de mais?
– Acho que o fato de sua família ser enorme influiu nesse seu comportamento, você só está tentando chamar atenção.
– Ah, muito obrigada Cersei. – Ele disse e levantou de onde estava. Indo para porta. –Acho que você tem razão. – Maldito garoto irônico. Pensou — Agora que eu já sei meu problema, prometo trabalha-lo e me esforçar. Valeu, tchau.
– Jon Stark, espere. – Tentou correr atrás dele, mas o garoto já havia sumido.
– Sim, querida. Ele já veio aqui algumas vezes. – Respondeu.
– O que você sabe sobre ele?
– Eu não posso falar Dany.
– Oh! Eu entendo, desculpe.
– Tudo bem. No fim eu acho que sei tanto sobre ele quanto você sabe.
– Bem, acho que tenho mesmo que ir. Obrigada por me escutar. Obrigada por guardar esse segredo. Me sinto bem mais leve depois da nossa conversa, colocar tudo pra fora ajuda mesmo. Enfim, boa sorte com Jon Stark. Se você é mesmo psicóloga dele vai precisar de toda força e ajuda do mundo.
– Eu sei querida. Obrigada e volte sempre.
Acompanhou Daenerys até a porta, desejando que ela não voltasse ali nunca mais. Aquela conversa de “estou apaixonada pelo cara misterioso” era nauseante. Quantas garotas já não estiveram apaixonadinhas por Jon Stark? Quantas delas não chegaram ao seu consultório falando como ele as havia deixado de lado? No fim Daenerys era como todas elas. Bonita, ou não. Rica, ou não. Popular, ou não. Daenerys Targaryen era uma garota como qualquer outra.
******
– Boa noite, mãe. – Ouviu assim que abriu a porta.
– Joffrey. – Sorriu, era raro ver o filho em casa. – Onde estão seus irmãos?
– Saíram com o papai. Foram ver um filme chato, não estou afim. – Sentou-se ao lado dele no sofá e beijou sua testa. Ele prosseguiu: — Meu dia hoje foi um saco, não vejo a hora das aulas voltarem. Pelo menos eu poderei ver meus amigos novamente. E seu dia mãe, como foi?
– O de sempre meu filho. Adolescentes, problemas, choro – Suspirou longamente. – Estou cansada.
– Não sei por que o papai te obriga a trabalhar. Ele é tão idiota, mãe.
– Pode ser meu filho.
– Algum caso em especial hoje?
– Daenerys Targaryen. – Falou já sabendo qual seria a reação do filho. Ele era apaixonado pela Targaryen há anos. E mesmo tendo namorado uma Stark era com Daeny que ele sonhava a noite. Cersei sabia disso porque todas as vezes que ia observar o sono do filho, lá estava ele chamando pelo nome da garota que estava em seu consultório horas antes. Garota que parecia não corresponder em nada os sentimentos do jovem Joffrey. Era uma longa, confusa e clichê história de romance adolescente.
E algo dentro de Cersei desconfiava que aquilo não iria terminar bem.
Fale com o autor