Lobos de Veneza
4 Aposta ruiva
Notas iniciais
– Hey – Foi tudo o que saiu de sua boca ao sentar-se ao lado da ruiva misteriosa.
Por um momento achou que tinha tomado a decisão errada, quanto a como começar aquela conversa. Ela continuou olhando para o mar pelo que pareceram longos minutos. Depois, para completo alivio de seu ego, ela o olhou e sorriu. Seus dentes eram ligeiramente tortos, mas exerciam uma espécie de encanto, que tornava complicada a tarefa de desviar o olhar.
– Você fala português.
– Mais ou menos. — Respondeu-lhe.
– Não foi uma pergunta. – A ruiva deu de ombros.
Ela voltou o olhar para o mar. Jon limitou-se a observa-la. Os cabelos ruivos caiam levemente sobre os ombros. As sardas se destacavam na pele branca, que contrastava com os enormes olhos claros, cujos ele ainda não havia decifrado a cor. Olhou para o mar e ficou encantado com a beleza que se seguia a sua frente. O sol começava sua trajetória preguiçosa do leste para o oeste, dando inicio a mais um dia. O primeiro dia, do novo ano.
– Sou Jon, da Itália – Disse estendo-lhe a mão.
– Olá Jon da Itália. – Ela sorriu novamente.
– Essa é a parte em que você se apresenta.
– Você é apressado. – Gargalhou. – O apressado come cru, Jon.
– Eu acho que não entendi muito bem o que você...
– Você não sabe nada, João da Itália.
– É Jon.
– Você está no Brasil. Meu país, meus ditos populares, minha pronuncia.
– Eu só queria desejar feliz ano novo. – Tentou uma abordagem diferente. Talvez aquela ruiva não fosse como as garotas da Itália, que ele conquistava facilmente. Ela era mais selvagem, mais livre. Não era do tipo que se impressionava facilmente.
A mão que ele lhe oferecera, e que ela rejeitara, ainda estava lá. Parada, e causando uma espécie de câimbra a Jon. Não só uma dor física, mas também uma emocional, seu ego estava gravemente ferido. E muito provavelmente, a alguns metros deles, Arya estaria assistindo a tudo. Divertindo-se com toda aquela situação.
– Eu conheço caras como você Jon. – Apertou sua mão por fim. Talvez tivesse ficado com pena dele. – Você é do tipo bonito, que sabe que é bonito o que é um perigo se você quer saber. E você ainda se vale de todo esse sotaque italiano, como se já não fosse sexy o suficiente você ter esses cachinhos e essa pinta de bad boy.
Jon não conseguiu conter a gargalhada. Aquela situação toda havia o deixado tenso o suficiente, para se surpreender com o som do próprio riso. Ela, a ruiva misteriosa também riu, mostrando os dentes que eram ligeiramente tortos, e, ainda assim, ou exatamente por isso, encantadores. Uma brisa leve soprou, fazendo com que a cascata de cabelos ruivos, que lhe caia sobre os ombros, se agitasse um pouco.
– Eu não sou um bad boy – Retrucou.
– Você não sabe nem quem é? Então você não sabe de nada mesmo, Jon. – Amarrou o cabelo em um coque frouxo, de modo que alguns fios ficaram soltos. – Eu sempre fico atraída pelo bandido. É como um ímã. Não sei explicar. – Deu de ombros. – Sabe, eu já tinha te visto lá na festa. Algumas horas atrás. Você, com seus irmãos. Acho bonito isso de ser unido com a família.
– Viu, eu sou um cara de família, não um bandido – Brincou. Suas mãos ainda estavam entrelaçadas, ele apertou-as um pouco mais.
– Não, você tem que ser o bandido. É bom de mais, pra ser bom de mais.
– Oi?
– Você não sabe, nem entende nada, João? – Ela pegou em sua outra mão – É só uma forma educada de dizer “Oi, menino, você é gostoso”.
– Todo mundo por aqui é assim? – Jon perguntou. Esforçando-se para não corar.
Sentia-se completamente idiota por estar com aquele constrangimento tamanho, mas era uma tarefa quase impossível não sentir-se assim perto daquela garota misteriosa.
– Por aqui pelo Brasil? Acho que não. – Respondeu calmamente, como se a pergunta tivesse uma complexidade, que a forçava a pensar sobre o assunto. – E pelo resto do mundo também não. Acho que existem poucos ruivos.
– Qual é – Cutucou-a – Você entendeu a pergunta, não me referia a cor dos seus cabelos. E sim a sua falta de...
– Educação? – Interrompeu-o.
– Desinibição. – Completou.
– Não fui que tentei dar em cima de você.
– Eu não tentei dar em cima de você? – Protestou.
– E veio fazer o que aqui? Além de desejar feliz ano novo? – Ela tinha um sorriso sardônico nos lábios.
Olhou-a por longos minutos. O coque frouxo soltara mais fios de cabelos, o que dava a garota um aspecto selvagem. Os raios de sol batiam em sua pele branca, e, de algum modo, suas sardas pareciam se iluminar. Os olhos claros fitavam Jon com tal intensidade, que ele seria capaz de jurar que aquele olhar seria capaz de matar qualquer um. Senão de medo, de encantamento. Sorriu para ela. Um daqueles sorrisos que ele dava a Arya quando perdia uma aposta. Sorriso esse que daria a ela em breve. A nova a aposta, sem nome, apenas com cabelos ruivos e um sorriso encantador, era impossível de ser vencida. Pelo menos para ele.
– Bem, eu tenho que ir. – Disse levantando-se. – Preciso enfrentar um italiano furioso agora, que vai me encher de perguntas, do tipo “você estava se drogando, Jon?”. Foi um prazer não conhecê-la, ruiva.
Ela sorriu. Mas não era o sorriso sardônico que vira antes.
– Você vai precisar de sorte, Jon da Itália.
– É, vou. Isso você pode me dizer? “Boa sorte”?
– Sabe – Levantou-se lentamente – Existe toda uma mitologia por trás de cabelos ruivos – Aproximou-se de Jon, de modo que as pontas dos pés de ambos se tocaram. Era mais baixa do que ele pensara. – Dizem que somos sortudos – Ela sussurrava – Beijados pelo fogo.
– Você é beijada pelo fogo. – Foi tudo o que conseguiu dizer.
– E eu acredito que, podemos passar nossa sorte pra alguém. Então, Jon da Itália, esta é a minha maneira de desejar sorte.
Dizendo isso, a garota ruiva, sem nome, sem identidade, completamente misteriosa, grudou seus lábios nos dele.
O beijo é flor no canteiro ou desejo na boca?
Tanto beijo nascendo e colhido na calma do jardim nenhum beijo beijado (como beijar o beijo?) na boca das meninas e é lá que eles estão suspensos invisíveis.
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