Lobos de Veneza
5 A psicóloga
Notas iniciais
– Eu sei que términos são difíceis de superar, mas com o tempo tudo passa. Até uva passa. – Riu sozinha da própria piada. Os adolescentes que ela auxiliava não pareciam acompanhar o seu ritmo de humor. – Carie, momentos difíceis são necessários, para darmos valor aos bons momentos.
– Como o sexo? – A garota ruiva indagou, tinha a cara amarrada. Estava visitando o “consultório” de Cersei há semanas, e ainda não havia superado o término com seu ex-namorado. O fim do relacionamento parecia ser algo impensável para ela. E quando acontecera, bem, já se dá pra imaginar. O motivo do fim? Ela não contara. E mesmo que deixasse claro que ela só precisaria contar quando se sentisse segura, não podia deixar de sentir curiosidade.
A mãe sempre falara “Você, Cersei, é uma fofoqueira nata”. Deveria ter feito faculdade de jornalismo e ter ido trabalhar no ItaliaOggi, pois agora concordava com a mãe. Era difícil aguentar os segredos de tantos adolescentes. Às vezes, tinha vontade de olhar para Annie, uma das garotas atormentadas pela pressão de ainda ser virgem e dizer: “Você quer alegria? Então dê, pois só dando que se recebe”. Mas não ousava dizer aquilo, não enquanto estava trabalhado, ou perderia seu emprego. E seu marido, Robert, a mataria.
– O sexo é um bom momento em um relacionamento.
– Então... – A ruiva juntou os lábios, como se pensasse no que diria a seguir – Se um relacionamento não tem sexo ele acaba?
Cersei olhou para o relógio e sorriu feliz.
– Mas é claro que não! –O rosto da menina se iluminou. – Eu tenho um bom relacionamento com minha mãe, e nunca fizemos sexo. – Gargalhou. Entretanto, novamente, não foi acompanhada.
– Você não deveria me dar conselhos ou algo do tipo? – Carie fazia uma careta.
– Sim, quando sou sua psicóloga. Mas seu tempo acabou, e agora sou apenas uma mulher bonita, conversando com uma garota... Que certamente é uma garota.
– Sério você não bate bem.
– Há controversas. – Segurou o riso, proveniente da piada despudorada que veio em sua mente.
– Como te deixam trabalhar nesse colégio? – Carie caminhou em direção à saída.
– Simples, meu marido é o dono do colégio. – Sorriu para a ruiva que fez uma careta – Até a próxima terça. Ah! Carrie?
– Sim?
– Diga ao Loras que ele já pode entrar, por favor.
Estava novamente sozinha em sua sala. Respirou fundo. Era a época das férias, mas ela ainda trabalhava no colégio. Caminhou até o espelhou e observou o próprio reflexo. Tivera três filhos. Mas ainda parecia com a Cersei jovem que conhecera antes. O corpo ainda era esguio. E parecia chamar a atenção de muitos homens. De todas as idades, fossem alunos, fossem pais de alunos... Ela atrairia seus olhares. Não fazia por mal, mas não tinha culpa de ser quem era.
– Senhora Cersei? – Ouviu uma voz tímida vinda da porta.
–Já disse para não me chamar de senhora, Loras! Sinto-me velha. – Fez sinal para que entrasse. – Agora diga, gosta do vê. – Virou-se para o jovem que estava a sua frente.
– Gosto. – Ela sorriu – Qual o nome mesmo desse esmalte?
Esmalte? Seu sorriso murchou. Olhou para as unhas. Eram bonitas também. Mas que raio de homem olharia somente para suas unhas?
– Escarlate. Não sabia que se interessava por esmaltes.
– Pintar as unhas é legal – Cersei franziu o cenho. “Pintar as unhas é legal”?- Eu... Bem...- Ele começou a coçar a cabeça freneticamente – Não... Quer dizer, minha irmã que acha. Ela ia adorar esse esmalte.
– Não acho que a Marg vá gostar dessa cor. – Não acho que algum dia eu vá gostar da Marg, acrescentou só em seus pensamentos. – Entretanto, está aqui para conversar e desabafar, não para falar sobre esmaltes, imagino.
– É o meu cavalo. – Bufou sentando-se.
E lá vamos nós para mais uma das crônicas de Nárnia, agora, o Menino e seu cavalo. Profissão maravilhosa, Cersei. Era o que passava em sua cabeça enquanto sorria para Loras.
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– Mãe, que bom que chegou. – Myrcella a cumprimentou assim que chegou a sua casa.
– Olá meu bem. – Acariciou o rosto da filha de 15 anos. Parecia-se com ela quando tinha a mesma idade. Só que, tinha de admitir, era mais bonita. — Onde estão seus irmãos?
– Tommen ainda está no quarto, chorando pelo cachorro que o Joffrey matou. – Deu de ombros.
– Joffrey não matou o cachorro de seu irmão, estava passeando com ele e acidentalmente o cachorro caiu da ponte. Apenas isso.
– Pena que ele não caiu acidentalmente. – Cersei repreendeu a filha com um olhar. Vivia implicando com o Joffrey. Tanto ela, quanto Tommen. – Desculpe-me. Bem, por falar nele, saiu e disse que não voltava hoje.
– Como assim, quer dizer que não verei mais meu filho esse ano? – Gargalhou.
– Mãe – Myrecella levantou-se do sofá em que estava esparramada e pôs a mão em seu ombro – Essa piada não tem mais graça.
– FELIZ ANO NOVO, FAMÍLIA! – Jaime apareceu na sala, carregando uma sacola vermelha.
– Tio, a gente já conversou que ano novo é diferente de natal.
– Eu não sou “Tio”, sou Jaimenoel. E você, mocinha – O irmão gêmeo apertou o nariz de sua filha – Trate de se comportar melhor, ou ganhará um carvão de presente.
– Ou uma pizza da pizzaria dos Starks, que é quase a mesma coisa. – A porta da frente foi escancarada. Todos riram do comentário. Menos Myrcella.
– Meu filho – Cercei correu para abraça-lo – Não disse que voltaria só amanhã? O que houve?
– Eu pensando que meu 31 de dezembro ia ser feliz...
– Relaxa, maninha – Joffrey pôs o braço em torno da irmã – Vou sair mesmo, e você não me verá mais esse ano. – Riu da própria piada. Adorava aquele filho que tinha o humor parecido com o seu. – Só vim aqui deixar meu terno e pegar a jaqueta.
– Onde você estava? – Cersei perguntou ao filho.
– Na festa da branquelinha, mãe. Mas tava um porre. Gente esnobe, metida a besta. Sabe que eu não gosto disso.
– Claro que não. Você gosta mesmo de esnobar, não de ser esnobado. – Disse Myrcella, e correu, antes que Cersei pudesse brigar com a filha.
– Fui. – Joffrey deu um beijo rápido na bochecha da mãe e sumiu pelo corredor.
Cersei sentou-se no sofá. Havia trabalhado até muito tarde. Por exigência do marido, não queriam que pensasse que ela era uma acomodada, só por ser esposa do dono do colégio. Entretanto, qualquer um era acomodado perto de Robert Baratheon, seu marido vivia única e exclusivamente para o trabalho.
– Então... – Sentiu a mão forte em seu ombro – Que tal relaxarmos um pouco?
– O que tem em mente? – Sorriu antevendo a resposta.
– Eu. Você. E os brinquedinhos do Jaimenoel. – Gargalharam.
– Já disse que adoro o Natal? – Levantou-se e Jaime a agarrou pela cintura.
– Já disse que você daria uma ótima mamãe Noel? – Roçou seus lábios de leve. Mas não chegou a beija-la. Seu telefone tocou bem na hora. – Robert. – Seu irmão adivinhou e revirou os olhos.
– Olá, querido. – Atendeu animadamente.
– Vou chegar um pouco atrasado para as comemorações de ano novo, está bem? – A voz do outro lado da linha perguntou
– Sim, Robert. Está bem. Mas não demore.
– Não demorarei. Te amo.
– Também te amo. – Disse desligando o telefone e colando seus lábios ao de Jaime.
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