Lobos de Veneza

20 A rainha da imprudência


Notas iniciais
Pov. Dany

Não estava com ânimo para nada, ainda assim, ligou a TV que tinha no quarto. Aquele eletrônico quase nunca era usado, apenas em momentos como o que vivia – quando seu irmão estava aos berros na porta, dizendo-lhe que seu comportamento era inadequado.

Inadequado...

Tinha vontade de rir ao pensar em tal palavra. Inadequado? Então era inadequado demonstrar seus sentimentos? Era inadequado se permitir ficar triste? Era inadequado desejar que as pessoas gostassem dela – de verdade? Inadequado? O que havia de tão inadequado nisso?

Aquele dia estava indo de mal a pior e Dany tinha medo que pudesse piorar. Sempre vivera fazendo as coisas que Viserys lhe ordenava — sorria se lhe dizia para sorrir, falava o que lhe dizia para falar, comia o que lhe dizia para comer e se relacionava com aqueles que lhe permitia relacionar. A primeira – e única — vez que desacatou, diretamente, uma ordem do mais velho foi por Drogo.

Sentia que se abrisse a porta, como ele lhe gritava para que fizesse, teriam mais uma discussão. Uma discussão pior do que quando ela levou o namorado – indigno demais as vistas de seu irmão – para casa, pior do que quando fora descoberta sua gravidez...

Porque, desta vez, ela não estaria disposta a abaixar a cabeça. De jeito algum.

Encarou a televisão com tédio, enquanto apertava fortemente o controle, como se o pobre objeto fosse o responsável por toda sua desventura, mudando de canais incontáveis vezes por segundo. E assim teria feito mais uma vez, se aquele nome não tivesse soado em seus ouvidos. Aquele maldito nome: Stark...

Os Starks apareciam nas notícias com certa frequência, eram do alto escalão da cidade e, odiava admitir, tinham mais prestígio do que a sua, quase extinta, família. Seria normal ouvir tal nome saindo da boca de um apresentador. Seria. Se não fosse aquele um programa famoso por anunciar tragédias.

Aumentou ainda mais o volume, devotando sua atenção às palavras que o homem de olhos claros dizia.

Nós recebemos esta informação com exclusividade. Repito, exclusividade. Além de Brandon Stark, mais duas pessoas da família estavam no carro. Não foi o motorista dos Starks quem estava dirigindo o automóvel, no momento do acidente ele estava em sua casa, pois tinha recebido o direito de deixar o trabalho mais cedo...”

Acidente? Três pessoas da família Stark haviam sofrido um acidente? Será que era Jon quem estava dirigindo? Será que os acontecimentos de mais cedo o atordoaram tanto a ponto de... Não. Com certeza não seria isso. Não podia ser. Ele não seria tão idiota para sofrer um acidente de carro, seria?

Dany sentiu o coração ser esmagado dentro do peito ao pensar na possibilidade de Jon estar machucado, ou, pior ainda, morto. Antes que sua mente pensasse em mais alguma coisa, desligou a televisão, pegou sua mochila – que havia jogado no chão no quarto – e abriu a porta. Não seria fácil desacatar o irmão novamente, mas estava decidia a ir ao hospital.

– Onde você pensa que vai, Daenerys? – Como esperado, o interrogatório teve início assim que disparou porta a fora.

– Respirar. – Disse apenas, descendo as escadas para evitar mais alguma pergunta.

Ouviu os berros de Viserys , mas continuou a ignora-lo. Tinha uma coisa mais importante para fazer, precisava – e desejava — confirmar que suas suspeitas eram infundadas. Talvez houvesse escutado errado e a família das notícias não fosse a Stark. Esse tipo de coisa não acontecia na vida real, acidentes assim... Não aconteciam. Não podiam acontecem.

Não...

– Vai sair Dany?

– Você está aqui? – A pergunta retórica escapou sem que pudesse controlar. Jorah sempre estava ali, junto dela e de seu irmão. Como se fosse o melhor amigo da família, mas ela sabia a verdade, ele estava longe de ser isso – ou qualquer coisa parecida. – Meu irmão está lá em cima, não acho que ele esteja com um bom humor. Então...

– Você deveria confiar mais em mim, sabia? – Jorah segurou seu braço impedindo que fosse embora. Encarou-o furiosa, por que ele estava ali? Por que tinha que impedi-la de fazer o que tinha de fazer? Queria dar-lhe um soco no meio da face, mas sua mão ainda doía de mais cedo (quando socara Jon). – Eu sei para onde você vai e sei por que seu irmão está irritado...

– Se já sabe, eu não preciso lhe contar.

– A notícia sobre você e o garoto Stark se espalhou... O que seu irmão trabalhou tão arduamente para esconder, agora todos sabem...

– Vá consola-lo, Jorah

– Estou mais preocupado com você...

– E eu estou preocupada com outra pessoa, tenho que ir. – Cortou-o e soltou o aperto que ele mantinha em seu braço. – Tchau.

– Se Jon Stark está acidentado? O mundo caindo sobre sua cabeça e é nisso que...

– Apenas cale a boca... – Ela não precisava de ninguém lhe dizendo o que já sabia. Porque, mais do que qualquer outra pessoa, ela sabia. Fora ela quem ouviu as palavras cruéis e venenosas que ele cuspiu na manhã daquele dia, fora ela a usada... Ela sabia. E, mesmo assim, queria ir lá. Mesmo Jon sendo quem era, Dany se preocupava com ele. – Se você veio falar de mim para meu irmão, dê meia volta Jorah, cuide de sua própria vida uma vez...

Não deixou que ele rebatesse ou que continuasse a conversa. Abriu a porta do carro vermelho, que quase nunca dirigia (odiava dirigir), e deu partida. Sabia exatamente para onde ir. Os Starks, assim como toda pessoa do “alto escalão”, iam apenas aquele hospital. O lugar era uma referência em tecnologia e alguns dos melhores médicos do mundo eram encontrados ali. Ignorou todos os sinais vermelhos, atitude que a fez rir descontroladamente. Estava indo visitar possíveis vítimas de um acidente de automóvel e, no entanto, ali estava, dirigindo de forma tão imprudente...

Desviou o olhar para o banco do passageiro por um segundo, quando seu celular apitou (anunciando uma nova mensagem), e quase atropelou alguém. Inspirou e expirou, tentando acalmar os ânimos. Não poderia morrer, não antes de ter a certeza. Concentrou-se no caminho e em não matar ninguém – principalmente a si mesma – e chegou no hospital em 20 minutos.

Estacionou.

Saiu do carro.

E, antes que pudesse correr para tomar o elevador, o viu.

Andando, despreocupadamente, até sua moto.

De início, pensou que era uma miragem. Talvez o desejo de vê-lo fosse tão grande que fez algo assim acontecer. Porém, teve a certeza de que era ali, quando seus olhares se encontraram. Ele estava vivo. Vivo! Sem pensar duas vezes, correu para ele e só parou quando os corpos chocaram-se, um contra o outro. Tão forte que o barulho ecoou pelo estacionamento antes silencioso. Envolveu-o com os braços, desejando não ter que soltar nunca mais.

Sim, certamente poderia (e gostaria) de permanecer daquela maneira para sempre. Como se todos os problemas entre eles não existissem.

– Você está louca? – Ele quebrou o momento, completamente. Daenerys quase pôde ver o clima rachando-se. Sim, ele estava vivo e era o mesmo de sempre. – Por que você está aqui?

– Eu... Hã... – O que diria? Vim aqui por que estava preocupada com você? O quão idiota isso soaria?

– Você o quê? – Jon segurou em seus pulsos para se soltar do abraço – Bateu a cabeça, Daenerys? Já esqueceu o que aconteceu hoje de manhã?

– Nem que eu quisesse, Jon. – O nome dele saiu amargo. A excitação que a levara até ali estava se dissipando, o arrependimento começava a bater... – Eu não sei mesmo por que vim aqui. Acho que... Acho que... – Inevitavelmente as lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. – Não sei mesmo...

– Ei... – Algo na expressão dele mudou. – Daeny, ei. – Sentiu as mão dele envolverem seu rosto e os polegares secarem suas lágrimas. – Você sabe que não deveria ter vindo, não sabe? Assim como eu sei que não deveria ter gostado de ver você aqui. Mas você veio e eu gostei... Eu gostei de verdade, é só que... – Ele suspirou pesadamente. – É só que... – Uma pausa. – É... – Mais outra. — Me desculpa... Por ter mentido pra você, por ter te tratado daquela maneira, por ser assim... Me desculpa por tudo. E obrigado. Obrigado por, apesar de tudo, estar aqui agora.

– Você bateu a cabeça? – Perguntou e ele gargalhou. A risada dele era mesmo muito bonita.

– Você precisa voltar pra casa, Daeny. Minha família está toda aí e bem...

– Eles me odeiam. – Concluiu. – Isso não é novidade.

– Não mesmo. – Jon abriu mais um sorriso.

– Você está bem, não está?

– Nós conversamos depois, acho que temos muita coisa pra falar.

– Tudo bem, as coisas não devem estar fáceis agora. Sabe, Jon, mesmo que sua família me odeie muito, por um motivo que eu nem sei qual é, espero que tudo se resolva, de verdade. Boa sorte.

– Sabe, Daeny... Mesmo que minha família te odeie, por um motivo que eu nem sei qual é, eu não me importo. Porque eu não te odeio e, diferente deles, eu sei exatamente o motivo.

Tais palavras foram capazes de fazê-la sorrir, verdadeiramente, pela primeira vez naquele dia. Talvez, só talvez, eles tivessem uma chance...

Notas finais
Por que demorei dessa vez? Porque quis escrever a fanfic inteira antes de postar mais um capítulo. Se eu consegui escrever tudo? Sim, ela está terminada. Temos, mais ou menos, mais 20 capítulos até o fim. Os próximos 5 capítulos serão todos pequenos assim, porque sim. E depois só terão os de 3000 palavras - ou mais. Quem curte mais os capítulos pequenos, aproveite. Já pra quem gosta dos maiores, aguarde hahaha. Jorah apareceu e, no próximo capítulo, alguém vai desaparecer (tipo assim, forever). ~ Passei duas semanas reestudando meu roteiro pra fanfic e modificando-o, porque o universo que o tio Martin criou é - quase - infinito. Sério mesmo. Tô tão cansada ultimamente e é isso aí. até os comentários ou não, se você for leitor fantasma (umas beijas pros leitores fantasmas)