Lobos da Alvorada
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Após ter passado o dia andando pela cidade para comprar tudo o que precisava eu cheguei em casa com bolhas nos pés, bolhas estas que não cicatrizaram assim que eu retirei meus tênis, como deveria acontecer com um lobisomem tão próximo da lua cheia. Isso era mais um sinal que fez com que eu me sentisse aliviada por ter pensado em um plano com antecedência. Me sentia aliviada também por meus pais terem comprado todos os livros que eu precisaria caso tivesse continuado na escola de elite da matilha, incluindo um com poções próprias para lobisomens, do qual eu extraíra a lista de ingredientes que havia comprado. E também por eu ter lido todos esses livros e me lembrar que existiam essas poções para me ajudar.
Se meus pais ficaram desconfiados com a quantidade de sacolas que eu trouxe, não demonstraram. Mesmo assim eu tratei de levá-las logo para o meu quarto, para caso um deles resolvessem bisbilhotar e encontrassem algo que levasse a um monte de perguntas que eu não saberia como responder.
No dia seguinte eu estava com tudo preparado.
A banheira fedia a floresta num dia de chuva, e era isso que eu pretendia exalar: cheiro de floresta. Para ser mais específica, seria o cheiro de alguém na floresta. Tinha comigo também uma segunda poção, uma que esconderia meu cheiro de lobisomem para quem estivesse uma distância maior de mim, ou seja, desde que eu não me transformasse, estaria cheirando como uma humana. Esperava que essas duas poções combinadas apagassem temporariamente o meu cheiro como parceira de Erick, assim eu poderia estar perto dele sem precisar ter contato com ele. Ele jamais saberia que eu estivera ali, pertinho dele e que ele não reparara em minha presença.
Tomei a poção que esconderia meu cheiro de lobisomem primeiro, e foi uma experiência a parte. Primeiro porque o gosto parecia plástico, embora a receita só levasse ervas naturais e orgânicas, e segundo porque me deixou com tontura e dor de cabeça, que passaram logo que eu terminei de tomar a poção, restando apenas um latejar nas minhas têmporas.
Em seguida retirei minhas roupas e entrei nua na banheira. Após ter mergulhado completamente na água lodosa peguei um dos amuletos que havia comprado ontem, e cujo a vendedora me garantiu que manteria os efeitos da poção após eu enxaguá-la completamente com água fria, e o coloquei em volta do pescoço. O amuleto parecia um pequeno cisne de asas abertas feito de metal pesado, que repousou sobre meu coração. Abri o ralo — torcendo para o encanamento não entupir — e enxaguei meu corpo e meus cabelos com a água gelada. Por fim lavei a banheira para que meus pais não desconfiassem de nada.
De volta ao quarto vesti roupas pretas: blusa de mangas longas, calças compridas e botas confortáveis. Todo o resto que eu precisava estava dentro de uma mochila preta que eu levaria comigo.
Antes de sair ainda passei maquiagem, com mais cuidado dessa vez.
Eu pretendia chegar por volta do horário do jantar, então saí de casa antes do pôr do sol. Atravessei a cidade a pé, até a casa do Alpha.
A residência era cercada e vigiada por betas, mas o portão estava aberto, e não havia nenhum guarda vigiando-o, logo eu passei correndo por ele torcendo para que ninguém me visse. O cheiro de meu parceiro estava por toda parte. Agora eu sabia. Não era café nem floresta na chuva, amêndoas, lenha queimando ou amoras. Era um cheiro único, só dele. Nada nesse mundo podia se comparar, nada era mais agradável, mais inebriante. Meu coração palpitava forte, cheio de expectativa. Agora eu só precisava saber o quão perto de Erick eu precisaria ficar para que amanhã ele não parecesse mais fraco.
A "casa" era na verdade uma mansão imensa, com enormes janelas que iam do chão até quase a altura do teto. As do lado oeste estavam todas iluminadas, então fui naquela direção, imaginando estar indo para a sala de jantar, e consequentemente para perto de Erick.
Eu estava tanto certa quanto errada. Sim, Erick estava lá. Mas não era uma sala de jantar. Mil luzes iluminavam o salão de baile decorado ricamente de branco e dourado. E lá, no centro da pista de dança, estava Erick, com uma garota nos braços.
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