Lobos da Alvorada
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Pude sentir 3 coisas em igual sintonia.
Primeiro meu corpo se encheu de raiva, tanta que eu não sabia mais de quem era, se de Erick, por estar com aquela garota, se dá garota por estar com o meu parceiro, ou se de mim, por ter fugido dele pra começar. E isso me deu vontade de invadir aquele baile idiota e atacar os dois com toda a minha fúria.
Também me deu uma tristeza profunda, maior do que qualquer coisa do que eu já tenha sentido antes, maior até que a raiva que me consumia. E isso me deu vontade de fugir, ir correndo de volta pra casa e me esconder embaixo das cobertas e não sair por uma década.
E também algo, lá no fundo, me deixou estática vendo a cena. E nisso eu pude perceber uma coisa: Os portões abertos, a quantidade de carros estacionados no quintal. O próprio baile em si, todo cheio de garotas betas em suas melhores roupas. O fato de que nenhuma ômega ficou sabendo da festa. Ele estava procurando por mim. Entre as betas, mas era a mim que ele queria. E isso me revelou duas coisas: primeiro que algo dentro de mim sentia uma profunda satisfação ao saber que ele estava me procurando. A outra é que Erick ainda era o mesmo garoto desprezível que havia sido no primeiro ano do ensino médio. O fato de ele fazer um baile, procurando sua parceira somente entre as betas provava isso.
Então eu decidi seguir com meu plano. Eu ficaria ali, vigiando Erick de perto, sem que ele soubesse de minha presença, e torceria para que fosse perto o suficiente para ele estar forte amanhã durante a lua cheia.
Ele rodopiou com a garota pelo salão, o olhar de todos sobre eles. Eu estava tão envolvida em controlar minhas emoções que não percebi quando dois guardas se aproximaram de mim e me derrubaram no chão.
—Tudo sob controle. A invasora está detida -um deles falou, no que eu supus ser um rádio comunicador.
Minutos depois eu estava numa salinha com 5 betas diferentes, um mais mal encarado do que o outro.
Eles jogaram o conteúdo da minha mochila sobre a mesa. Luvas, algumas maquiagens, e uma corda. E então minha carteirinha da biblioteca da parte humana da cidade caiu de dentro da bolsa também, nela tinha apenas o meu nome e a data de validade. Eles avaliaram os itens em silêncio.
—Devemos chamar seus pais? -começou um deles, negro e por volta dos 35 anos.
—Talvez ela seja maior de idade, nesse caso ela mesma deve responder pelo seu crime — falou o mais velho deles, que tinha pelo menos uns 60 anos — Quantos anos tem, Alyssa? — Ele leu meu nome da carteirinha.
—Fiz 18 há pouco mais de um mês, senhor -respondi. Eu precisava criar rápido uma história consistente para poder escapar dessa situação.
—E porque uma jovem ômega estaria invadindo a casa do Alpha?
—Senhor, essa ômega já tem uma violação. Eu mesmo a vi ontem dentro da floresta na parte humana da cidade, treinando arremesso de facas com outro ômega — Então reconheci o beta mais velho que havia visto meu pai e eu na floresta.
—Isso é verdade, senhor — não havia como negar, agora só poderia usar a história a meu favor — eu estava na floresta porque treino desde pequena pois meu maior desejo é me tornar uma beta como vocês. E eu vim aqui hoje porque soube do baile e quis ver com meus próprios olhos como seria minha vida se eu fosse uma beta. — falei do jeito mais apaixonado e sonhador possível, e eu sabia que um pouco do que eu disse era verdade.
Alguns deles me olharam com pena. Por fim o mais velho deles disse:
—Amanhã vou conferir a lista do teste de aptidão, e posso ter a certeza de que seu nome está lá, porque se não estiver… — ele me lançou um olhar, com aqueles olhos cor de âmbar que fez minha espinha estremecer e eu engoli em seco — Bem, é bom que esteja. E saiba que isso não é desculpa para invasão. No mais, se você for pega novamente em locais inadequados, não vai ter explicação que a salve. Joffrey, leve-a até a saída.
Nisso o maior dos cinco, um cara de mais de dois metros de altura e cheio de músculos, agarrou meu braço e praticamente me arrastou porta afora.
Quando ele me deixou do lado de fora dos portões, que ainda estavam abertos e sem nenhum guarda por perto foi que eu percebi: câmeras de segurança apontando diretamente para a entrada. Como eu fui burra! Presumir que não havia nenhum tipo de segurança e entrar direto pelo portão da frente!
Voltei caminhando lentamente para casa, o que significa que cheguei quase meia noite.
—Tudo bem que você já tem 18 anos, mas não custa avisar onde você vai e a que horas volta Alyssa — Minha mãe esperava por mim na sala de estar — E por que eu só fui sentir o seu cheiro agora? E por que você está cheirando como se tivesse andado em um pântano menina?-ela me segurou pelos ombros e começou a farejar a minha cabeça.
—Calma mamãe — Empurrei delicadamente ela para trás, para que parasse de me cheirar — eu só estava testando umas poções, mas já vou tomar um banho quente.
—Poções? O que você anda aprontando ultimamente?
Respirei fundo, pois o que eu diria iria mudar o rumo da minha vida:
-Parece que eu vou fazer o teste de aptidão, afinal.
Todo mundo ficou animado quando soube que eu iria fazer o teste. Mas no momento eu estava mais interessada na lua cheia desta noite. Eu havia acordado descansada e sem olheiras, isso indicava que meu plano tinha funcionado, e eu esperava que tenha tido o mesmo resultado para Erick também. Apesar disso, ainda seria a minha primeira lua cheia desde que eu encontrara meu parceiro, e eu estava nervosa.
Nós lobisomens podemos nos transformar livremente com treino e concentração desde a puberdade, mas durante a lua cheia a transformação é obrigatória. Lobisomens experientes conseguem controlar sua forma de lobo durante essa fase da lua, mas isso não é nem de longe o meu caso.
Não tinha como eu saber aonde eu iria ou com quem me encontraria. Nas maioria das vezes desde os meus 13 anos eu acordei próxima ao quintal de casa. Meu pai dizia que era sinal de que era uma loba responsável, embora eu me achasse mais cautelosa do que responsável. Das vezes em que acordei longe… Bom, pra isso servia o serviço da matilha, que deixa roupas limpas disponíveis em locais estratégicos, mas era realmente desagradavel acordar nua em um local desconhecido da floresta, principalmente podendo ter alguém por perto.
O dia passou rápido, apesar de eu ter acordado junto com a aurora para colocar meu nome na lista do teste de aptidão — o que se revelou estupidez minha já que o lugar, que era o galpão de uma floricultura, só abria as 9h.
Quando já estava anoitecendo minha família e eu estávamos no quintal atrás de casa, prontos para mais uma lua cheia.
Entrei na floresta atrás de casa, meus pais viriam minutos depois. Andei por uns dez minutos antes de tirar as roupas e guardá-las no meu esconderijo usual. A brisa da noite lambeu meu corpo e me deixou arrepiada. Faltava pouco agora. Olhei para cima, além das árvores, onde o dossel de estrelas aguardava comigo, impaciente, a rainha da noite. Meus pés sentiam as folhas mortas e essa sempre foi uma parte que eu não gosto: a espera descalça. Sempre imagino que algum bicho vai passar no meu pé. E eu sei que é ridículo da minha parte pensar em algo assim numa hora dessas, mas não consigo controlar. E então começou. A luz da lua irradiou por entre as árvores e me alcançou. Meu corpo começou a tremer em espasmos descontrolados, e então eu caí no chão com um grunhido. Senti meus ossos se partirem como se eu fosse uma bolinha de papel sendo amassada de dentro para fora, para em seguida se unirem novamente, mais fortes do que antes, como se nada jamais tivesse sido partido. Meus pelos ficaram maiores e mais grossos, meus olhos mais intensos, as orelhas maiores e mais altas na cabeça, que agora possuía um formato animalesco. Minhas mãos e pés agora já não sentiam aversão à aspereza do terreno; eram patas poderosas, prontas para me levar a qualquer lugar. A transformação não demorou mais que um minuto. Quando terminou eu estava uivando para a lua.
A noite foi como um borrão. Uma intensidade de cores, sabores e cheiros me invadiram como sempre acontece quando estou em forma de loba. É tudo tão, mas tão vívido. Minhas patas sentem melhor o chão e meu corpo adora a sensação dos músculos se flexionando para correr, cada vez mais rápido, apostando corrida com o vento, sentindo ele passar gelado entre minha pelagem densa cor de café com leite. Os sons quando eu estou em forma de loba eram tão claros que parecia que eu ouvia pela primeira vez assim que me transformava. Eu podia ouvir tudo. O rio que passava a quilômetros de distância, as batidas dos corações de pequenos animais e suas respirações curtas e rápidas, o barulho que faziam os animais maiores, a caça, um grupo de veados ao noroeste. Eu me desviava de troncos de árvores cada vez maiores, entrando mais e mais fundo na mata.
O vento trazia o cheiro da chuva, dos animais da floresta e mil outros perfumes, mas era só um que me interessava.
E então eu acordei. Momentos antes do sol nascer. Dolorida. Os músculos reclamando depois de tanto correr e… Aí! Sentei-me, cada parte minha se retesando com dor, e retirei o bolo de nós que era o meu cabelo da frente do rosto. Hematomas semi cicatrizados se espalhavam pelo meu corpo e… sangue? Manchas enormes de sangue estavam tanto em mim quanto ao meu redor. O cheiro não era de sangue animal. Por Deus, o que eu fiz noite passada?!
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