Minha nova vida começou de forma pacífica, calma, quase bucólica, uma infância que eu achei com cheiro de inocência e coisas de criança, uma experiência nova para mim.

Mestre era bom para mim, e eu tentava ser bom para o Mestre.

Se ele falasse:

“Limpe a casa”, eu varria também o pátio.

Na certeza de não buscar seu olhar vingativo, pois ao som daqueles cascos batendo nervosos no chão da nossa cabana, sabia que algo bom não viria!

Sempre me preocupava em manter o Mestre do meu lado, na esperança de sempre poder contar com ele. Que O Um o mantenha próximo de mim!

Até porque parece que ele é o único que não me quer o mais longe possível. É bom sempre ter o Mestre ao meu lado, afinal, sem ele certamente seria expulso!!

Para ser franco, esse Mundo é mesmo um outro Mundo!

Desde que abri os olhos, foi uma surpresa atrás de outra.

Minhas mãos são bastante parecidas com as que eu lembrava, mas da cintura para baixo, é tudo diferente!

Deixe-me explicar. Nesse mundo, todos que são filhos Do Um, que têm sua bênção e levam sua marca, possuem um forte vínculo com seus irmãos menores, os animais, ou, se preferir: a fauna local.

Ok, falei, mas não disse nada. É como o caso das sereias: metade peixe, metade mulher.

Estou numa aldeia do povo pastor, a tribo dos Chifres. Meio que metade ovelhas, com seus chifres encaracolados, e meio humanos. Pense neles como uma grande aldeia de Pãns, os mitológicos seres da floresta da antiga Grécia, com suas flautas correndo atrás das ninfas. Só que, neste caso, estamos no campo, junto à encosta de uma cadeia de montanhas, e não tem ninfa nenhuma, somente prados e uma floresta onde ninguém se atreve a ir.

Ou detalhe é que – na Grécia — os pãns eram meio homem meio cabras e aqui são meio ovelhas, igual de chifrudos, só que mais peludos, pastoreando cabras. Não conseguia deixar de achar isso irônico...

Embora o corpo da cintura para cima seja bastante humano, a cabeça é meio animal, com algumas características humanas, como os dois olhos na frente. No entanto, as pupilas são como as das cabras e ovelhas, ou seja, um traço na vertical, e não um furo no meio.

A vida é bem bucólica. Todos andam vestidos com roupas parecidas com quimonos ou roupões, que facilitam bastante a mobilidade (afinal, nossas pernas são grandes), com uma capa ou echarpe (para as mulheres) no inverno.

O senso de moda fica mais por conta dos arranjos de cabelo e penteados daqueles que conseguem manter o pelo mais comprido. Pois no verão, temos a tosa, e aproveitamos a nossa própria lã para fazer tecido, que será utilizado no inverno por aqueles que não conseguem limpar e tratar o pelo (o que muitas vezes significa ficar longe do trabalho duro do dia a dia).

Assim, não tenho mais pernas humanas; agora tenho um par de fortes pernas de lobo. Meu rosto é meio que de lobo, com uma boca maior do que seria de esperar (afinal, é meu focinho), o que me dá um sentido de olfato bem mais apurado. Tenho orelhas de lobo, que sempre acabam entregando meu humor quando o Mestre faz uma pergunta que eu quero tentar disfarçar...

Sim, agora eu sou um representante da tribo dos Caninos Longos, um semi-lobo cinzento. Como não sou “puro” – mas um híbrido humano/homem-fera – tenho algumas manchas aqui e ali, no entanto, uma se destaca: uma branca em volta do meu olho esquerdo, os quais são cinzas. Olhando no geral, eu sou menor que meus irmãos do povo-fera “puros”, mas um pouco maior que os humanos, caso eu estenda as minhas pernas. De forma geral, sou um baixinho para quem ninguém dá nada...

Por aqui, tudo gira em torno de tribo, família. “Você é filho de quem mesmo?” Que até no corpo isso fica refletido, como cada família tem um penteado, trança ou aplique que a identifica – tipo as trancinhas do Padawan Jedi ou os cachinhos laterais (os chamados Peiot) dos judeus ortodoxos. Até o Mestre mantém os seus, mesmo que sua família nem seja desta aldeia. Muito louco!

Não que isso me aflija, pois tenho pelo curto, né?

Além do mais, como não sou filho de ninguém da aldeia (e todos parecem querer me lembrar sempre disso), todos agem como se aqui não fosse meu lugar, assim, minha única ideia de família é o Mestre...

Perece que meu nascimento foi meio traumático. Ninguém — por mais que eu tente perguntar – sabe como foi ou quer me dizer como é que eu vim parar aqui.

Não que eu me importe muito, pois eu tenho uma missão e sei que – cedo ou tarde – ela irá me levar para longe deste lugar. Assim, é bom fazer uso do pouco tempo que disponho.

É claro que vocês já devem estar imaginando que minha vida é diferente da vida das outras crianças da aldeia. Afinal, que mãe permitiria que elas brincassem comigo, o lobo em meio às ovelhas?

Barall, o Mestre, parece não se importar ou disfarça muito bem e me aceita como seu discípulo: ensinando, treinando, vigiando e cuidando daquele que ele chama, ocasionalmente, de:

- O que me foi enviado pelo O Um.

Parece que ele sabe que eu tenho uma missão a cumprir...

Até o momento, consegui entender um pouco da mecânica deste novo Mundo, e consigo acompanhar minha evolução.

Posso sentir meus níveis de vitalidade (ou HP) ou mesmo de magia (ou MP). Treinando, posso aumentar minha estamina ou mesmo desenvolver novas habilidades. De vez em quando, eu recebo avisos do “sistema”, como chamo as mensagens que acredito serem enviadas pelo O Um para me alertar, guiar ou, simplesmente, me vigiar.

A primeira habilidade que busquei me tornar proficiente foi a caixa de artigos, ou o armazenamento dimensional. Muito útil para varrer e colocar a sujeira na caixa de artigos, em vez de ficar andando por aí com uma pazinha de lixo...

Perece profano, mas me ajuda a treinar e aprimorar o seu uso.

Em seguida, veio a avaliação. Penso que já “avaliei” tudo que temos em casa!

Foi assim que descobri que o Mestre é da classe Sacerdote, com várias habilidades de cura e suporte, incluindo a habilidade de ouvir a voz Do Um (oráculo), e que ele já é um dos mais velhos da vila, só perdendo para os velhos de verdade, que formam o conselho de anciões da aldeia.

Ele é mais alto que os demais aldeões; seus chifres são mais altos e bem simétricos, mais do que os da maioria do pessoal (o que é visto como um sinal de beleza por aqui). Quando está em casa, trabalhando na horta e cuidando dos animais, ele usa a mesma roupa que os demais, esses roupões de lã crua (tingir, ele diz, é caro e seria um sinal de vaidade).

Porém, quando vai para a aldeia, ele arruma o cabelo (na verdade, arruma os pelos do corpo todo.), coloca o seu manto de sacerdote que ele prende com o seu broche de ouro. Símbolo de sua posição na aldeia! E lá vamos nós; ele fica ainda mais solene! Com as costas retas, o manto e os chifres, fica parecendo mesmo um pilar! Além disso, ele tem esse hábito de bater os cascos no chão quando quer ser enfático ou dizer que a discussão acabou.

Bam, bam, fazem os cascos no piso, sua cara se fecha, e ele começa a descer a mão envolvendo a barbicha no queixo (como um mestre chinês). Aí, já era! Nem adianta mais tentar argumentar, pois o Mestre já definiu a sua posição, e nem chuva, nem granizo, nem geada o farão voltar atrás...

Sim, por aqui, tudo é organizado por clãs e sua posição na aldeia, como o Mestre, que é da classe Sacerdote e, por isso, tem sempre a última palavra nos assuntos de festival e nas Leis Do Um. De resto, o poder de decisão fica nas mãos do conselho dos anciãos, que, se pudessem, já teriam me expulsado da vila há muito tempo. Mas parece que eles não podem se opor a uma ordem do Sacerdote, desde que ele diga que é uma palavra vinda Do Um.

Ainda bem, se não, eu não teria casa para morar nem o meu Mestre para me guiar.

Em seguida, veio o treino com a habilidade de cortar, copiar e colar, chave para a minha sobrevivência.

Comecei com as plantas, copiando seus HPs, e depois com os animais; primeiro copiando seus HPs e estamina – o que levou ao aumento dos meus status, vigor e força – e, por último, cortando... Retirando essas características, tornando-os mais frágeis e fracos.

Parece que necessito tocar o alvo para poder usar essa habilidade, mas creio que – com o tempo e a prática — se eu tiver uma ligação física contínua com o alvo (pelo chão, por exemplo), poderei expandir os usos dessa habilidade.

Venho treinando essas habilidades desde que reencarnei, sei lá quanto tempo tenho, mas quase um ano depois de chegar a este mundo, já tenho algum domínio sobre elas e creio que posso dizer que sei como usá-las em meu proveito.

Por último, a telecinese, meu maior desejo realizado! Sempre às escondidas, buscava uma pedra, um graveto, e fazia-o dançar no ar.

Com um pouco mais de prática, comecei a manter sempre uma pedra pousada acima do meu ombro, como um exercício de controle, movendo-a conforme eu me movia e parando-a quando eu paro.

Graças a O Um, o Mestre era fraco da visão e não conseguia distinguir a pedra de uma sujeira no meu ombro.

Depois, varri o pátio sem o uso da vassoura, e depois a própria casa. E, finalmente, treinei força, levantando pedras e trazendo a água do poço (lá de baixo até em cima).

Aos poucos, fui dominando minhas habilidades, meu corpo e minha nova vida. Quem poderia imaginar que uma cauda seria tão difícil de dominar? Às vezes, ela até entra no meu caminho, mas aos poucos comecei a usá-la para melhorar meu equilíbrio.

Foi na primeira noite com o alinhamento das três luas altas no céu noturno, minha primeira Noite da Renovação, minha primeira noite sozinho (o Mestre estava na aldeia participando do ritual de renovação), que vi tudo o que tinha juntado ao longo deste tempo se perder. Foi quando senti o quão pequeno é meu poder e quão próximo de perder tudo eu posso ficar.

Assim, desde essa primeira noite, tudo o que consigo de MP, HP, estamina, eu divido com o Mestre. Dessa forma, perco somente metade do que consegui, e o Mestre também se beneficia da minha habilidade! Uma verdadeira relação ganha-ganha!

Será que ele percebe que está ficando cada vez mais forte e com uma vitalidade crescente?

Tudo ia bem até minha terceira renovação — ou três “anos”, se preferir, só que demoram menos tempo que na terra — quando ocorreu a cerimônia da minha nomeação, onde ganhei o direito de usar o meu nome e o direito de viver na aldeia.

Essa foi a primeira vez que pude participar desse festival da aldeia!

Ele marca o fim e – ao memo tempo – o início de um novo ciclo das três luas, quando todas elas se alinham no céu noturno, simbolizando o início do novo ciclo anual (um ano novo lunar e não solar, como no Planeta Terra).

Não se engane, essa noite da Renovação é um acontecimento tanto religioso quanto político, feito no centro da aldeia, no campo sagrado, junto ao Menir (ou obelisco), que representa a união daquele povo com O Um, e inicia quando a última noite do ano começa a cair, sem hora para acabar.

Esse campo, normalmente tem, de um lado, a cabana comunal (onde se reúne o conselho de Anciões), o Menir ou obelisco no centro, e uma grande árvore no outro extremo, que representa a celebração da vida com a dádiva Do Um, uma árvore sagrada.

Primeiro, o conselho dos anciões, ou seu representante (quando eles não conseguem falar tão alto), fica em frente à casa comunal, anuncia o relatório do ano que se finda e apresenta os objetivos do ano que se inicia para a comunidade.

Honras e presentes são dados aos que se destacaram ao longo do ano, seja por salvar alguém ou por algum feito de maior monta para o bem da aldeia.

Essa parte, que vamos denominar de administrativa, termina com o conselho de anciões chamando as novas crianças que irão ganhar seus nomes e, assim, se tornarem os novos membros da comunidade.

Elas saem da casa comunal e vão ao centro do espaço, onde a comunidade faz uma grande roda em volta do menir, e se reúnem em frente ao Sacerdote da Aldeia, que lhes dá uma benção Do Um e formalmente lhes atribui o nome (meio que um batismo).

Tudo parecia correr bem, mas não imaginava quanto medo e desconforto eu causaria na aldeia inteira.

Foi só sair da casa comunal, entrar no círculo junto com as outras crianças sendo apresentadas e descobrir o meu rosto, que o silêncio e a pressão de todos desceram sobre mim, como se um balde de água fria fosse despejado sobre todos.

Se não fosse pelo Mestre lembrar que ele estava responsável por mim e que eu estava sendo treinado para ser um sacerdote, acho que teria sido expulso naquela mesma hora!

Serviu de lembrete de quão frágil era minha posição e de quanto eu dependia do Mestre para poder me manter ali.

Nota mental: Nunca desagradar ao Mestre!!!

Depois da nomeação, agora com a comunidade toda reunida, incluindo os novos membros, o Mestre, como sacerdote daquela comunidade, lança uma bênção Do Um sobre todos, para que tenham um novo período de boa fortuna e bonanças. Quebrando um graveto, que simboliza o fim do ciclo e começo do novo, ele dá início à festa!

Quase dava para sentir o silêncio até o "crack" do galho, a ansiedade de todos, com o grito guardado na garganta, libertado ao som da primeira batida dos tambores e som das flautas. Como uma torrente represada, finalmente libertada para correr livre morro abaixo, inundando e renovando tudo em seu caminho.

Enfim, agora sou um morador da aldeia da tribo dos Chifres e posso continuar meu treinamento.

Depois, os moradores fazem danças de roda em torno do Menir, demonstrando sua alegria e devoção a O Um. Há fogueiras e barracas de comida ao redor do círculo, e, após a bênção da população, o sacerdote vai para debaixo do carvalho e, com a habilidade de oráculo, recebe os que o procuram, dando uma orientação Do Um, um conselho, uma previsão, etc...

Enfim, a vida por aqui se resume a cuidar dos rebanhos, plantar feno para ter comida para os animais no inverno, assim como aveia e trigo para o gado e para nós mesmos. Menos nessa noite, com danças, comida e muita bebida!

Imagine que, depois das danças de roda em volta da fogueira, de comer e beber, e de tantos encontros às escuras nas sombras projetadas pelas labaredas, podemos esperar uma nova geração de crianças para o ano que se inicia.

Uma vida tranquila e pacata, bem diferente da minha última existência.