Lobo em pele de Cordeiro
6 Infância
Eu sabia que, mesmo sendo muito melhor do que minha infância anterior, para mim, essa nova vida era diferente do que para as demais crianças da aldeia.
Todas frequentavam, pela manhã, o círculo dos Anciões, onde os mais velhos tiravam turnos para ensinar as histórias, hábitos e tradições da tribo para os mais novos.
A cada nova lua (meio que o fim de semana), elas podiam esquecer os deveres diários e tirar um “dia livre”. Podiam ir nadar no riacho, brincar de roda, enfim, fazer coisas de criança.
Para mim, a rotina era um pouco mais, como dizer, mais dura, mais espartana!
Acordar, limpar a casa, varrer o pátio, dar água e alimento para os animais. Nem pensar em ordenhar, pois era só chegar perto e as cabras já ficavam nervosas...
Cuidar do fogo e rachar lenha: dia sim com o machado (para treinar os músculos) e dia não, com a telecinese (para treinar a habilidade). Ainda bem que o Mestre acorda tarde!!!
Fazer o café da manhã, acordar o Mestre, limpar tudo.
Sessão de estudo da manhã: história de Eurethia, história dos grandes sacerdotes, filosofia e preceitos Do Um, ervas, magia sagrada, enfim, tudo que poderia me ajudar a me transformar em um aprendiz de sacerdote.
Fazer o almoço para mim e para o mestre (no início, era mais para ajudar a picar e lavar tudo), mas as habilidades culinárias do Mestre eram meio restritas, então assumi essa tarefa assim que tive altura para poder trabalhar na pia da cozinha. Quem aguenta mingau de aveia e ensopado todo dia?
À tarde – enquanto o Mestre fazia a ronda pela aldeia — eu faço meu treino físico, banho e, fechamento o dia, uma meditação para manter minha relação com O Um e seu mundo sempre afinada, terminando quando o Mestre voltava da aldeia (trazendo víveres e feno para os animais).
Foi com essa combinação de corpo e espírito que vi minhas habilidades ligadas à classe sacerdote evoluírem, entendendo que força e mente têm que evoluir juntas.
Parece que ser sacerdote Do Um é meio como treinar como os monges Shaolin, monges guerreiros. Quando será que começará meu treino marcial? Pensava eu...
Tão logo finalizávamos a saudação à primeira Lua a subir (das três que ficam no firmamento), já era hora de uma refeição noturna leve (sopa ou pão com queijo) e ir para a cama, preparando-se para o dia seguinte.
Depois que passei pela cerimônia de nomeação (afinal, agora faço parte da tribo!), comecei a explorar meus arredores, me esgueirando para descobrir como era a vida no resto da aldeia (daí que aprendi como era para as outras crianças).
Assim que o Mestre notou que eu já sabia não me perder, ele me colocou para recolher ervas nos campos ao redor da casa e perto do riacho (nunca perto da aldeia!).
Se você está se perguntando o que eu fazia nos dias de Lua Nova, eu tinha o dia livre para fazer tudo de novo, afinal, estava em treinamento e não tinha vindo ao mundo por diversão...
Com o passar do tempo, as cabras começaram a se acostumar ao meu cheiro (ou será que ele mudou?), eu consegui começar uma horta. Nossa vida estava melhorando!!
Assim, passei a levar as cabras para pastar, e meus horizontes começaram a se expandir.
Passei a encontrar outros moradores – pastores com seus rebanhos – e entender melhor a situação da Aldeia, que consistia em ocupar o morro, levar os animais para pastar no alto e deixar o baixio para o cultivo.
Usando meu conhecimento acumulado da minha vida passada, domando as ribanceiras, morro acima — porque além do asfalto não podemos ir — passei a pensar em formas de melhorar a nossa pequena comunidade.
Tudo no morro começa domando a água!
Conforme levava as cabras pelo pasto, ia recolhendo pedras na minha caixa de itens, assim teríamos mais terra exposta e mais grama crescendo.
Levando nossas cabras o mais alto possível, sem perdê-las para a parede de rochas, lembrando que elas sabem escalar muito bem e eu não. Se as deixasse soltas, tinha que ir trazendo-as uma a uma com a telecinese... Um trabalhão!
Usava esses dias calmos para começar a fazer muros de pedra, não só para conter a água, mas também para segurar o solo. Como os muros de pedra seca que se veem na Irlanda (não será a primeira vez que os vídeos do YouTube me salvaram nessa minha segunda vida)!!
Parecia mesmo um poder muito apelão. Digo, eu coletava as pedras no caminho – colocando na caixa de itens – e depois, pensando no tipo de pedra que precisava, tirava automaticamente a pedra mais parecida do armazenamento e, assim, ia erguendo os muros.
Não demorou muito para nossa encosta começar a ficar terraceada, com linhas de pedras marcando o terreno na horizontal. Daí era só mesmo levar todo o material que varria, e da limpeza dos estábulos para preencher os espaços e ir construindo um solo mais profundo e fértil para nossos rebanhos.
Foi nessa época que comecei a encontrar novos usos para minhas habilidades. Nossos animais tinham vermes, pulgas e carrapatos, nada diferente do esperado. Porém, notei que, envolvendo os animais na minha habilidade, eu podia cortar e copiar a energia vital (o HP) de todos os parasitas, tornando nossos animais livres de pulgas, carrapatos, moscas e bernes. Um rebanho saudável, é um rebanho que produz mais e melhor.
Com o uso dessa habilidade, pude isolar os vermes intestinais e mesmo o próprio curral, tornando nossa criação bastante limpa e saudável.
Nessa época, estávamos próximos da estação das chuvas e perguntei ao Mestre que tipo de árvore o povo da aldeia gostava, pois notei que tínhamos poucas frutas em nossa dieta.
Ele me respondeu com um brilho diferente nos olhos:
- Alfonsineu, com certeza Alfonsineu!!
Eu perguntei que tipo de árvore era essa, pois nunca tinha ouvido falar, muito menos provado. . Parece que é como a marula, aquela fruta africana que, quando fermentada, produz um forte e doce licor.
Perguntei se o Mestre tinha alguma semente, pois queria ver se conseguia plantar algumas na nossa horta, e ele imediatamente se levantou, com uma agilidade muito suspeitosa, para trazer um saquinho de couro com algumas sementes dentro.
É que notei um outro uso para a minha habilidade: se posso “matar” vermes e parasitas dos animais transferindo vitalidade (HP), então posso também acelerar o crescimento das plantas, transferindo mais vitalidade a elas.
Assim, antes da estação das chuvas, usando a minha caixa de itens para trazer água do poço, semeei e fiz brotar mudas das tão amadas Alfonsineu do Mestre e algumas mudas de Toc-toc, uma árvore de crescimento rápido que é plantada ao redor das casas para fazer cerca viva e fornecer lenha para a cozinha e combater o frio do inverno. Daí o nome: Toc-toc, toca cortar esses troncos para colocar no fogo...
Foi mais ou menos nessa época que minha relação com os demais moradores começou a mudar. Afinal, agora os rebanhos poderiam ficar mais saudáveis e nossos pastos mais vigorosos (com o esterco dos currais que eu ia espalhando nos campos).
Ainda mais depois que, assim como fiz com os currais, aprendi a matar todos os carunchos e brocas dos celeiros, protegendo nossas colheitas de grãos e garantindo um inverno mais bem alimentado.
Nessa toada, vi chegar minha décima noite do renascimento, e minha infância foi declarada terminada! Sim o mestre deixou escapar que me encontrou na cabana depois que voltou da comemoração de uma das noites de Renovação, assim que ela passou a ser adotada como a minha data de nascimento.
Já nessa época, consegui me enturmar melhor com a mocidade da tribo, a galera mais jovem, que tinha menos medo de se aproximar de um membro da tribo dos Caninos Longos.
Para isso, aproveitei o sucesso dos muros de pedra nos pastos para poder ter uma área mais plana para eles e para os animais, ensinando-os a trabalhar com pedra. Foi aí que a habilidade de copiar e colar veio a calhar, permitindo a passagem instantânea do conhecimento e facilitando também a criação de abrigos com muros de pedra nas montanhas, onde poderiam se proteger nos dias de chuva e no inverno.
Com a melhoria do gado, pude me aproximar mais das mulheres mais jovens, que eram responsáveis pelo cultivo dos campos de grãos como trigo, aveia e de feno para o inverno. Nesse grupo, a aproximação foi mais difícil, afinal, elas eram bem receosas de se aproximar de um macho e de um lobo, né? Natural...
Nessa dinâmica, ter pedido para acompanhar o Mestre nas rondas foi crucial. Ao ajudar a cuidar dos habitantes ao lado do Mestre, passei a ter a confiança deles. Ao mesmo tempo, pude ver como eram dentro das casas de madeira que eram o padrão na aldeia.
Aproveitava para ir limpando os pátios e arredores das casas enquanto o Mestre fazia parte do atendimento. Era o momento para poder remover os carunchos dos silos, me prontificar para consertar o que estivesse quebrado e, até mesmo, ajudar na debulha das espigas e processamento dos grãos.
Graças a isso, pude me aproximar e sugerir o uso das cinzas para adubar as hortas (a horta do Mestre era o meu grande trunfo e carro-chefe), assim como propor melhores práticas no campo. Nesse aspecto, lembrei dos vídeos sobre consórcio de gramínea e leguminosa, as "três irmãs": milho (que eles tinham algo semelhante, porém mais parecido com o sorgo), feijão e abóbora, uma prática que já era tradicional na América Central e do Norte, um sucesso para melhorar a alimentação de todos (obrigado novamente, YouTube).
Com tudo isso, comecei a me tornar um membro valioso da comunidade e pude assegurar um pouco mais de segurança para não ser expulso num futuro próximo. Ainda assim, andava com o capuz puxado para não assustar as crianças quando caminhava pela aldeia.
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