Lobo em pele de Cordeiro
7 Mocidade
Diferentemente do que acontecia com os demais jovens da aldeia, no meu caso, com o meu crescimento precoce e meu desenvolvimento, parece que as coisas seriam mais rápidas.
Foi mais ou menos nessa época que comecei a entender um pouco mais a relação da nossa aldeia com o entorno.
Para os itens de que necessitámos de fora (como sal para nós e para os animais, e ferro para as ferramentas), nós trocávamos parte de nosso rebanho com as comunidades vizinhas. Só que, para isso, era necessário matar, limpar, esfolar e salgar os animais. Algo que ninguém da aldeia gostava de fazer, afinal, eram seus irmãos de chifre!!!
Assim, como “lobo”, descendente da tribo dos Caninos Longos, tão logo permitido, o Conselho dos Anciões me forçou a assumir essa tarefa.
Nada de complicado. Afinal, mesmo que nesta encarnação eu nunca tivesse tirado uma vida, matar era quase uma segunda natureza para mim, nada de novo, e quase uma rotina (afinal, degolar membros das gangues inimigas era uma arte que até competição tínhamos na minha vida anterior).
Acho que o Mestre até ficou meio chocado com a minha não resistência em aceitar a tarefa. Do meu ponto de vista, seria uma forma de também ter acesso ao poder de absorver vitalidade e magia. Atualmente, tanto eu quanto o Mestre éramos os mais fortes da vila, embora eu não soubesse se ele tinha consciência disso.
Ainda que de uma forma relutante, o Mestre me deu o que viria a ser o meu tesouro, símbolo da minha maioridade: uma faca de caça, que eu orgulhosamente ostentava na cintura!
Assim, a cada 30 ou 60 dias, os anciões mandavam uma mensagem, eu ia para a aldeia e levava os animais que iam ser sacrificados para longe dos demais, para o local de matança. Longe da aldeia, perto do rio (para poder lavar as carcaças), longe dos olhos, ouvidos e – mais importante – narizes dos aldeões.
E aí, eu executava esse meu novo ofício.
Fazendo como aprendi com meu avô no Nordeste: batia na cabeça do animal com um porrete pesado para nocautear, pendurava o animal e, cortando a garganta, o animal sangrava pela jugular e eu deixava escorrer numa bacia!
O que eu não esperava eram os efeitos colaterais. O cheiro do sangue começou a despertar algo em mim, mesmo no meu próprio sangue, como se o Lobo interno — após um longo inverno de jejum de aveia, queijo e pão — sentisse o calor da matança!
No começo, um aldeão vinha comigo para explicar como era a tarefa, mas ele parrou de vir quando viu que eu já tinha o domínio da tarefa. Assim, pela primeira vez em minha nova vida, passei a ter um momento para mim mesmo, longe de tudo e de todos.
Aproveitando, eu já ia cortando e colando a vitalidade e magia das cabras e bodes mortos. Sim, pois todos os filhos Do Um tinham um pouco de magia, mesmo os pequeninos.
Esse isolamento fez com que eu me visse pensando em lidar com esses sentimentos crescentes de sede de sangue! Sim, a dúvida era: era se eu, Garn, que sentia o desejo pela carne, ou seria o Lobo – que agora eu também era – que ansiava pela caça? Ou seria somente o desejo assassino do meu antigo modo de vida aflorando de novo?
Passei a ansiar pela matança! Ainda que sem o prazer da caça. Sentir o calor do sangue escorrendo começou a ser algo desejado...
Como as vísceras não davam para conservar no sal, elas costumavam ser enterradas em respeito aos irmãos que deram sua vida pela aldeia. Assim, pouco a pouco, comecei a nutrir esse desejo pelo sangue, pela carne, por matar e retalhar.
Além de poder beber o sangue! Sim, como um lobo, tomando aos goles, descendo ainda quente pela minha garganta! Que delícia, que êxtase! Sim, poder absorver o vigor da presa!
Depois, comecei mesmo a olhar para a carne...
Primeiro, foi discreto: um coração aqui, um fígado ali.Quando me senti mais seguro, tomava cada gota do sangue, mastigava avidamente cada parte comestível que eu conseguia preparar das vísceras, colocando o resto (não que fosse muito) na minha caixa de artigos para enterrar junto às muralhas de pedra da encosta (afinal, era adubo).
Eu sabia que isso ia dar problemas, pois definitivamente, era o despertar do meu instinto assassino. Eu tinha que encontrar uma forma de canalizar esse chamado para agir como o assassino que tinha dentro de mim, de uma forma mais construtiva, e isso tinha que ser feito urgentemente!
Graças a O Um, a resposta veio na forma do início do meu treinamento marcial, quando o Mestre começou a me ensinar as técnicas de combate com cajado e faca, uma para perto e outra para longe. Acrescentei o treino com a funda como opção de ataque à distância (afinal, David era um pastor, não é?).
Assim que adquiri alguma proficiência, pude ir para a floresta caçar os monstros locais que, vez ou outra – especialmente no inverno – subiam as colinas para atacar o gado e roubar nossos celeiros de grãos.
E como comecei a gostar do jogo da caça!
Correr, pular em cima da presa, sentir o medo, ver o olhar do desespero, sentir o poder de estar acima na cadeia alimentar!!!
Sim, o lobo dentro de mim estava feliz! Queria mesmo que a presa tentasse fugir, só para poder caçá-la de novo, e de novo, e de novo!!!
Aqui na região, tínhamos dois principais tipos de “monstros” cuja população tinha que ser controlada. Não eram exatamente animais, mas também não eram considerados como irmãos do povo-fera. De uma forma pejorativa, eram chamados de “os sem a bênção Do Um”, ou simplesmente: "os sem bênção", claramente delimitando um Nós e Eles!
Os mais comuns eu diria que eram esses ratos bípedes e miseráveis! Medrosos quando sozinhos, rápidos, astutos e muito perigosos quando em grupo.
Eram algo no meio: não agiam só por instinto, mas também não tinham o intelecto que permitisse conversar ou mesmo raciocinar. No entanto, tinham uma postura bípede (que lhes dava mais agilidade e velocidade), assim como as mãos para poder usar armas que encontrassem.
Pense em um canguru, mais alto e rápido, só que cinza, cheirando mal, com um rabo mais fino (portanto, melhor para bater com o girar do corpo), bigodes enormes e aqueles dentes prontos para morder, estraçalhar e roer tudo ao redor!!!
Assim, esses demônios tinham que ser atacados de surpresa, de uma forma rápida e, se possível, finalizados com um só golpe.
Em hipótese alguma, poderia deixar que emitissem aquele guincho agudo de ratazana acuada, que avisava todos os demais da região. Quando isso acontecia, todos vinham correndo... e aí, a coisa toda podia mesmo ficar feia.
E para piorar, havia uma versão "plus size" deles: ratazanas tão altas quanto um avestruz, igualmente rápidas, peludas e sempre com fome, fome do seu sangue...
Em termos de ecossistema, eram os carniceiros, que acabavam com as carcaças dos animais mortos, impedindo a proliferação de pragas e reciclando os nutrientes na floresta. Mas, na falta de carne, comiam e roíam de tudo!!!
Aqui na aldeia, eram chamados de Guinchadores, e as mães brincavam de ameaçar seus filhos, falando que os guinchadores iriam pegá-los se não se comportassem ou se fossem para a floresta, reproduzindo o guincho e colocando as mãos como garras fingindo pegar as crianças.
Porém, na prática, a coisa era bem mais assustadora!
De igual forma, tínhamos os Minotauros, que mantinham a população dos Guinchadores em equilíbrio, já que dividiam o território com eles. Sim, os Minotauros eram carnívoros!
Maiores, mais fortes, mas mais lerdos e muito perigosos, com seus porretes sempre prontos para esmagar e depois ver o que era. Na dúvida, se a presa sobrevivesse, ainda podiam avançar com seus chifres e estraçalhar até mesmo o melhor dos escudos.
Com os Guinchadores, comecei a colecionar novas habilidades, ferro das armas e núcleos de cristais dos monstros abatidos. Mas não fiquei somente com os Guinchadores, pois eles eram ruins de comer. Assim, “tive” que recorrer à caça de javalis e cerdos, cuja carne era bem mais saborosa.
Passava uns 15 dias na floresta e depois voltava para a aldeia, colocando tudo o que podia na minha caixa de artigos. Aos poucos, comecei a ter mesmo um estoque de pele, chifres, núcleos e peças de metal de baixa qualidade (afinal, eram Guinchadores, certo?).
Na casa do Mestre, retirava os itens e, à noite, colocava-os no fogo para, usando a telecinese, moldar o ferro como um ferreiro na forja, só que sem bigorna ou martelo, somente com a minha habilidade. Parecia como brincar de massinha de modelar!
Na maioria das vezes, o ferro era ruim, enferrujado e com muitas impurezas. Então, fui esticando e dobrando até que a maioria das impurezas fosse derretida ou removida. Acrescentando um pouco de carbono (do carvão), e pronto, tinha um aço de melhor qualidade.
Assim, pude começar a fabricar ferramentas de melhor qualidade, como facas, pás, picaretas ou mesmo pontas de lança, pois um plano começou a se formar na minha mente.
De acompanhar os moradores no comércio com as comunidades vizinhas (tentando chamar o mínimo de atenção, com o rosto coberto pelo capuz do meu manto), eu aprendi que nossa situação não era tão boa quanto, no início, eu imaginava.
O que, para mim e para os demais aldeões, parecia ser uma forma de obter produtos de fora da aldeia, na verdade era mais um tributo para que a aldeia dos humanos nos deixasse “em paz”.
Sim, tínhamos uma aldeia humana próxima ao nosso território...
E, com base na minha experiência em ler a ambição e o desejo humanos, sabia que eles estavam cientes de algo havia mudado e que a cobiça estava crescendo entre eles. Não tardaria a haver derramamento de sangue. Algo que eu não poderia permitir!!!
Voltando para a aldeia, comecei a executar o meu plano.
Agora, urgia coletar pedras e pensar na defesa do território. A cada saída com as cabras, trazia uma nova leva de pedras.
Na aldeia grande parte das casas eram de madeira, com os núcleos erguidos de toras fincadas no chão e pranchas de madeira para fazer as laterais. Em alguns casos, havia áreas de trabalho externas, como varandas abertas nos lados, cobertas por um tecido, algo como tendas de lona impermeabilizadas com o sebo dos animais.
Achei que começar por aí seria uma boa pedida. Bora construir casas mais resistentes!
Numa noite em que a primeira safra de Alfonsineus foi repartida entre os moradores, pedi licença ao Mestre para ampliar a casa. Ele não entendeu muito bem, mas aceitou, afinal eu estava crescendo, e o espaço estava mesmo ficando apertado para nós dois.
No dia seguinte, comecei meu plano. Usando as pedras da minha caixa de itens, construí as paredes de uma casa circular de pedras, típica dos celtas. Mais uma vez, obrigado, YouTube, pelo conhecimento!
Quando acordou, o Mestre se deparou com um muro de 1,50 m de altura em formato de um círculo de 6 m de diâmetro, com a nossa pequena casa no centro.
Agora, era cortar os ramos de Toc-toc, que já haviam crescido, para fazer a estrutura do telhado cônico e cobrir com a palha do trigo para proteger da chuva. Com a telecinese e a caixa de artigos, foi fácil, quase uma trapaça em relação ao trabalho que seria levantar o telhado sem esses recursos.
Em menos de uma semana, tínhamos uma nova casa e muito mais espaço. Aí, foi só desfazer a cabana de madeira antiga que já tinha uma nova ao seu redor.
Depois de uma semana no novo espaço, eu já me sentia como morando na cabana do Druida Panoramix, com ramos e ervas pendurados na estrutura do telhado, um fogo no meio da cabana dominando o ambiente e sendo o centro da casa, onde se cozinhava, comia, conversava, etc...
O próximo passo foi participar pessoalmente das rondas de cuidados médicos com o Mestre junto à população da aldeia, afinal, tinha que espalhar minhas novas habilidades se quisesse mantê-las na próxima noite da Renovação, que estava próxima!!!
Assim, pouco a pouco, os moradores foram adquirindo mais vitalidade, mais magia, habilidades que nunca tinham imaginado ter, e eu e o Mestre no centro de tudo.
O plano mostrou os primeiros resultados quando o chefe do conselho de anciões veio até nossa casa, que, por motivos óbvios, era afastada dos demais, perguntando se esse tipo de casa poderia ser erguida no centro da aldeia, como uma nova casa comunal, para passar as noites de inverno, realizar os festejos e reuniões do conselho, etc...
E assim, a pedra tomou o lugar da madeira como material de construção na aldeia, tal como eu queria que acontecesse.
Até então, tínhamos somente os muros de contenção de encostas nos pastos nas montanhas, e agora as casas dos moradores estavam sendo construídas em pedra.
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