Lobo em pele de Cordeiro
10 Traçando um Plano
Meu mundo estava mudado; um novo horizonte havia se aberto e um desafio se colocava à minha frente.
Perguntei ao Mestre se ele sabia do Moinho e de quem morava lá. Ele me explicou que era um assunto delicado, pois, como eles não pertenciam a nenhuma tribo e havia humanos entre eles, assim que a aldeia não poderia se envolver diretamente.
Vendo minha cara de quem não entendeu, ele explicou:
- Garn, eu, Barall, sacerdote Do Um, sei que todas as criaturas são irmãs, filhas do mesmo Deus verdadeiro que ama a todas de igual forma, indiferente de como elas se pareçam, pois aos seus olhos somos todos seus filhos queridos, sem distinção!
- Porém, o mesmo não se aplica para a liderança dessa vila, que está responsável por manter vivos e saudáveis os seus moradores. Pois deles é a responsabilidade de saber o que é “o melhor para todos”, e sobre seus ombros pesa a nossa sobrevivência. Como você viu no nosso “comércio” de peles e carne dos nossos rebanhos, não tem sido uma tarefa fácil.
- Eu sei que O Um lhe enviou com uma missão, que era uma pessoa diferente, a qual ele pediu a mim para que cuidasse de você; tudo o mais eu não sei dizer.
Que dia, que noite, quantas revelações. Então o Mestre sabia de tudo isso desde o início!!!
- O que eu também sei é que você tem uma visão diferente de todos aqui na vila e que muito tem feito para melhorar nossa qualidade de vida, dando um novo alento para a nossa juventude, conforto para os velhos e alegria para o olhar de nossas crianças. Algo que dificilmente poderemos retribuir.
- Isso posto, eu lhe pergunto: o que você quer fazer com relação ao Moinho, à cidade, enfim, à sua vida? Afinal, você já não é mais uma criança e o tempo de decidir o que você deseja fazer com a sua vida está chegando, e rápido!
Não sabia o quanto deveria contar ao Mestre sobre meu acordo com O Um, mas ele aceitou bem meu desejo de ajudar ao Moinho e a todos os que seguiam os ensinamentos Do Um na cidade, deixando o resto para depois (foi o que ele falou, batendo os seus cascos no chão, afirmando que o assunto estava resolvido).
Foi decidido que eu, como aprendiz de sacerdote, iria periodicamente ao moinho e à cidade como parte do meu treinamento, para divulgar a doutrina Do Um junto à população mais vulnerável da cidade, na periferia.
Para facilitar minhas idas e vindas, construí uma pequena cabana de caça, junto ao penhasco, com um quarto secreto fechado por uma parede falsa de pedra que somente com minha telecinese poderia ser aberta.
Usaria a cabana para me trocar antes de entrar na cidade.
Meu plano era começar a ter uma vida dupla, indo para a cidade ora como Sacerdote em treinamento, ora como aventureiro.
Minha primeira parada seria no Moinho, que seria minha nova base operacional, perto da cidade, mas não tão próxima a ponto de causar problemas.
Para ter algum poder de barganha junto à comunidade do Moinho, pedi permissão ao conselho da aldeia para plantar um lote de trigo e aveia. Assim, o Mestre teria seu sustento garantido (mesmo que eu não pudesse ajudar nas tarefas como antes) e eu teria algo para levar quando fosse ao Moinho.
Nunca convém chegar de mãos vazias; um bom presente – como comida — é sempre bem-vindo! Era algo que minha mãe sempre dizia quando íamos visitar alguém!
As folhas amarelas do outono estavam começando a cair quando coloquei pela primeira vez minhas novas roupas de aprendiz de sacerdote, peguei meu cajado e desci o morro em direção à cidade.
Meu Mestre e eu nos despedimos junto ao portão de pedra, agora permanentemente guardado por um vigia com o chifre de cabra, pronto a soar chamando reforços.
Com um manto de lã crua, fechado com um broche de ferro (ainda era aprendiz, né?), e um cajado escolhido pelo Mestre, dei meu primeiro passo na nova fase da minha vida, avançando em direção ao Moinho!
Como aprendiz de sacerdote, era reconhecido pelo meu manto de sacerdote, preso com um broche penannular (ou fíbula celta ou viking) de ferro.
A peça era um semicírculo de metal, com as extremidades mais largas (normalmente achatadas) para não deixar escapar o alfinete, que tinha uma das extremidades presa no anel.
Assim, você enfia o alfinete no tecido da túnica, agrupa o tecido e gira o anel para que a ponta do alfinete passe pela abertura do semicírculo, mas fique preso depois que o anel gira, prendendo a túnica.
No caso do Mestre, o dele era de ouro, pois já era um sacerdote completo, e eu, como aprendiz, tinha um de ferro mesmo.
Chegando ao Moinho durante o dia, tive uma ideia mais real da situação, pois a noite foi bastante generosa em esconder detalhes. Preferi obter as informações diretamente da fonte, sem fazer um reconhecimento adicional depois de encontrar Belial.
O Moinho, como era chamado, foi, há muito tempo, o local onde os habitantes transformavam grãos em farinha. Com uma represa feita junto ao rio, fornecia uma pequena queda d’água de cerca de 2 metros que movimentava as pás do moinho, girando as pedras que moíam os grãos.
Do que restou, havia a represa, importante também por ser uma ligação entre os dois lados do rio (para mim, a maior importância estratégica), o prédio principal, os silos de grãos e algumas casas quase em ruínas, onde se escondiam aqueles que não eram bem-vindos na cidade: escravos fugidos (principalmente por dívidas), órfãos, mães solteiras, aleijados, velhos, pessoas sem família, sem dinheiro ou esperança.
Perto do prédio em ruínas, escolhi uma árvore com uma pedra na sombra para me sentar e esperar que viessem até mim.
Não tardou para perceber rostinhos aqui e ali escondidos entre os tufos de relva, me observando, querendo saber quem eu era, o que estava fazendo ali, se era amigo ou inimigo, a curiosidade lutando contra o medo!
Lá pelo meio da manhã, e eu achei que eles aguentaram bem a ansiedade, o maior deles saiu de trás de uma moita e gritou, o mais alto que pôde:
- Eu sou Fineas, chefe dos Batedores Avançados do Moinho! Diga seu nome e quais são suas intenções!
Com pouco mais de 1,2 m, tentando desesperadamente parecer ter toda a autoridade possível, esse garoto parecia mesmo ser humano; se não fossem suas orelhas felpudas como as do Mestre e suas pernas que também entregavam sua origem não humana. Pela pouca idade, os chifres ainda não eram proeminentes.
Como ainda não me sentia motivado a responder, ele, novamente, perguntou meu nome e o que queria por aquelas bandas, acrescentando uma ameaça de que – se eu não falasse – ele e o seu time de batedores avançados arrancariam essa informação de mim, custe o que custar.
Erguendo a mão bem devagar, removi meu capuz, deixando revelar meu rosto de fera, filho da tribo dos caninos longos.
Parecia um daqueles momentos em que alguém, na mesa de pôquer, dobra a aposta e cada jogador pensa se deve fugir ou aumentar a aposta e pedir para ver as cartas.
O silêncio estava quase sólido, com o vento movendo as folhas dos arbustos e mostrando as carinhas assustadas e curiosas dos Batedores Avançados do Moinho.
Se Fineas teve medo, ele conseguiu disfarçar bem, mantendo sua posição e deixando escapar um "Oh"! Como um atestado de quão inusitada era a situação.
Graças aO Um, lá de trás veio uma voz crescente que gritava:
- Fineas, seu malandro, onde está você quando eu preciso de você e desses seus moleques? Já é quase meio-dia e vocês ainda não voltaram com a água que eu pedi para vocês trazerem do rio.
Levantando-me, falei:
- Então, batedor Fineias, onde estão esses baldes para irmos buscar a água no rio, antes que todos nós fiquemos em maiores problemas?
Não sei se foi meu tamanho ou o fato de eu me mexer, mas todos os demais membros da Brigada Avançada, “avançaram” aos pulos para a retaguarda, buscando a segurança da voz que ficava cada vez mais alta.
- Aqui está você, seu arteiro, cadê a minha água? Por que ainda não voltou do rio?
E, finalmente, ela me viu!
Muda, agarrou Fineas e o colocou atrás de si, quase enfiando-o nas suas saias, e perguntou:
- E o Sr. quem é, e o que o traz para essas bandas?
Cruzando os braços no peito, palmas voltadas para dentro, fazendo uma leve vênia, mostrando as palmas das mãos abertas à medida que me inclinava em sinal de não agressão, falei como o Mestre me ensinou:
- Que O Um ilumine o seu caminho.
Como oferecendo a bênção Do Um a todos que quisessem recebê-la.
- Meu nome é Garn, sou aprendiz de sacerdote na aldeia nas montanhas, e estou aqui para buscar água com o Sr. Fineas, só não sei onde estão os baldes...
- Penso que já nos encontramos antes, Belial e eu, ele está bem?
Essas pareceram ser as palavras mágicas!
Como dizia Maquiavel: Seja humilde com os pequenos, e eles irão se aproximar e ficar ao seu lado, sem temê-lo. Seja forte com os grandes, e eles irão se aproximar, buscando a sua proteção.
A senhora puxou um dos pequenos para perto e deu a ordem:
- Michael, vá buscar aquele bode velho, e rápido!
Ficamos ali esperando, passarinhos cantando, posições mantidas como num tabuleiro de xadrez, sem ninguém avançar ou retroceder, somente analisando as posições.
Não deu nem para começar a suar e lá veio o velho lanceiro correndo com a lança ponta ao alto, pronto a intervir.
Quando me viu, sim, ele me viu, as coisas passaram a transcorrer com mais tranquilidade.
Parece que a habilidade curativa que roubei da Clériga demora para atuar, mas agora o Sr. Belial já era capaz de enxergar novamente.
Uma vez confirmada minha identidade, assim como as possibilidades de me ter como aliado, a Sra. Estela, que era responsável por cuidar das crianças maiores, se aproximou pedindo algumas desculpas:
- Sr. Sacerdote, peço desculpas, é que nessas bandas, nem sempre as pessoas têm boas intenções e nunca é demais ser cauteloso, né?
- Venha, venha, vamos lhe apresentar o resto do pessoal. Fineas, vá buscar água para podermos fazer um chá.
Aproveitei e peguei um saco de frutas secas que já havia separado e ofereci para a matrona:
- Acho que um chá ficaria muito bom com essas frutas secas que eu trouxe. Boa ideia!
Daí foram só sorrisos. Minha infiltração havia sido um sucesso!
A comunidade era basicamente de rejeitados da cidade: aventureiros com feridas incuráveis, velhos fracos e sem família, órfãos, mães solteiras enganados pelos amantes e rejeitadas pela família, enfim, só gente sem rumo ou direção. Justo o que eu necessitava.
Expliquei que, como parte da minha formação como sacerdote, deveria sair da aldeia e espalhar a doutrina Do Um (um arranjo que já havia combinado com o Mestre e informado ao conselho da aldeia). Assim, gostaria de permissão do Moinho para poder, uma vez a cada lua nova (algo como uma semana), vir e ensinar a quem quisesse ouvir.
Em contrapartida, poderia fazer pequenos trabalhos de cura, assim como garantir um lanche a todos que se dispusessem a me ouvir.
Elegemos uma clareira ao Norte, a montante do rio que antigamente alimentava as pás do moinho e fazia o trabalho de converter os grãos em farinha.
No canto Norte, havia uma velha castanheira que daria uma boa marcação do futuro campo sagrado (além de castanhas para assar no inverno). No futuro, poderia colocar no meio da clareira um obelisco como ponto de adoração aO Um, e o campo santo ficaria delimitado.
Usando a bênção Do Um, telecinese e força bruta, formei um círculo de árvores ao redor e coloquei mesas, cadeiras, pedra e troncos para criar um espaço de convivência e fazer minhas “Aulas Dominicais”, além do atendimento aos doentes e sessões de consultas com O Um (usando a habilidade de oráculo).
Por aqui, parecia que o plano ia bem!
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