Se a minha face “boazinha” já estava se estabelecendo, agora era hora de trabalhar no outro extremo: fazer minha infiltração junto à cidade dos humanos.

Usando a pele de Greg, e sempre à noite para encontrar menos gente possível, comecei a vender os cristais de guinchadores e monstros que vinha caçando ao longo do tempo.

Com a economia em crise e muitos aventureiros sem trabalho (muito por minha culpa), essa movimentação não passou despercebida.Algumas cabeças começaram a se virar para mim sempre que eu entrava no Grêmio para vender peles, dentes e outros materiais; tudo o que eles não tinham.

Nada como fomentar alguma inveja e ganância, né? Despertar o que os humanos têm de melhor e mais confiável; a vontade de culpar alguém por seus infortúnios e achar que há alguma forma de ter algo, ou mesmo uma vantagem que seja, que os outros não têm. Sempre se pode contar com o pior dos humanos, um material farto e fácil de trabalhar.

Nessas idas e vindas, em que eu saía balançando, para cima e para baixo, a bolsa de moedas depois de mais uma venda (que barulhinho bom!), achei que já era hora de lançar o anzol...

Decidi que naquela noite pararia para beber uma caneca de cerveja e ver quem se aproximaria.

Dito e feito: mal pousei a caneca na mesa após o primeiro gole, com o saco de moedas à vista, senti uma presença atrás de mim.

- Greg, seu bastardo! Por onde andou? Já faz 4 meses que não temos notícias tuas e agora volta todo fanfarrão? Nem vai cumprimentar os amigos?

Era Gino. Pelas memórias de Greg, ele era o tipo de pessoa que eu sempre odiei na minha vida passada: um vira-casaca, um traidor sujo, um ser que usa quem está à mão, sem escrúpulos. Hoje amigo, amanhã te vende pela maior oferta.

Sempre pronto a “ajudar” os iniciantes e os mais novos, ele os colocava para fazer o trabalho sujo, ficando com os louros. Ajudava hoje para cobrar um favor três vezes maior amanhã. Ele usava tudo e todos para seu próprio benefício, sem escrúpulos. Certamente alguém para se manter distante, o mais distante possível.

Sem me virar, respondi:

- Ora, ora! Se não é quem me abandonou como isca para goblins, só para poder fugir mais facilmente. Está triste por eu ter sobrevivido?Veio verificar se fiquei sem algum braço ou perna por ter lutado sozinho pela minha vida?

Sim, aqui entre os humanos, muito por conta da influência dos “heróis", os Guinchadores eram chamados de Goblins, uma simplificação e apropriação cultural, se me perguntarem...

- Eita, isso são águas passadas, amigo! Agora parece que você usou bem esse tempo fora para encontrar outros campos de caça. Não gostaria de compartilhar essa informação com os seus antigos colegas de caça?

Na verdade, eu sabia que tanto Greg quando Gino tinham fugido dos Goblins, despistando seus perseguidores. Mas era bom fazê-lo pensar que me devia uma, e grande!!!

Nessa altura do campeonato, Gino já estava sentado à mesa e me convidando a pagar uma cerveja para ele, chamando a garçonete e falando para colocar na minha conta. Muito folgado mesmo...

Assim que a cerveja chegou, levantei-me da mesa, joguei uma moeda na mão da garçonete e falei:

- Devia ter tomado um banho melhor antes de vir, deve estar mesmo fedido, pois estou atraindo todas as moscas para perto de mim. Fui!

Antes que alguém pudesse responder, saí do Grêmio. Queria ver quem faria o quê, e quando. Não tardou e senti que, pelo menos, duas pessoas estavam me seguindo.

Hora de balançar a isca e fazer o peixe engolir até o anzol.

Toda semana, eu fazia dessa forma: ia como Greg, trocava núcleos, peles e outros materiais, esperava ser notado, ser seguido e desaparecia (usando as habilidades de ocultação e trocando a pele de Greg pela de Christoffer, por exemplo). Ora perto da Catedral, ora da Prefeitura, para que os que me seguiam alimentassem a ideia de que eu estava mancomunados um desses dois grupos. Afinal, nenhum outro caçador na Guilda estava se dando tão bem quanto eu, toda semana com coisas para vender? Havia algo suspeito ali!!!

A desconfiança entre os caçadores, a Catedral e a Prefeitura estava sendo semeada, adubada e irrigada!

Lá pelas tantas, até mesmo o Gino não aguentava mais a ansiedade. No momento em que eu estava vendendo os meus materiais no balcão, ele encostou-se ali, de costas para o salão, e com um tom de ameaça, súplica e desafio, olhando com os olhos gordos para tudo que estava no balcão, disse para Lucia, a recepcionista da Guilda:

- Nossa, Luci, não parece uma injustiça que só um caçador esteja se dando bem nesses tempos de vacas magras? Você não acha que uma pessoa assim deveria repartir a informação com seus colegas? Digo, pelo bem da Guilda, né?

Lucia ia retrucar, mas eu levantei a mão, impedindo-a, e respondi ao sem noção em alto e bom som:

- Sério, Gino? Você acha mesmo que, se eu encontrasse uma masmorra, diria para você onde é a entrada? Sério, mesmo? E se fosse o contrário? Você contaria a alguém aqui? Ou mandaria que me seguissem para saber para onde eu vou cada vez que saio da Guilda?

- Não que eu ache que você esteja tendo algum sucesso com esse tipo de atitude, né? Ou está? Até onde seus paus-mandados conseguiram me seguir?

Penso que foi o suficiente. A cara do Gino estava ficando vermelha de raiva e Lucia já estava nervosa. Era a hora de fazer a minha saída.

Eu ficaria um bom tempo sem aparecer como Greg.

Como Greg eu disse, né? Porque eu já havia iniciado minha carreira de caçador semanas antes.

Sim, eu mesmo, simplesmente Garn, sem ser o sacerdote, já havia – há várias semanas – me apresentado na Guilda e me registrado como caçador, buscando com a mesma Lucia informações sobre como sobreviver nessa profissão.

Pensei em usar um disfarce, a pele de algum incauto, mas percebi que – mesmo vestindo a pele dos humanos — os meus olhos permaneciam os mesmos (um cinza claro, afinal, são o espelho da alma). Isso poderia dar margem a desconfianças caso encontrasse alguém que conhecesse a pessoa cuja pele eu estivesse usando.

Olhando em retrospectiva, o Mestre falou que meus olhos eram da mesma cor dos da minha mãe, o pouco que eu sabia sobre ela... Por mais que eu tentasse extrair do Mestre mais alguma informação sobre ela.

Assim, decidi por conta própria conhecer a sociedade dos humanos, juntando-me aos demais membros iniciantes nas tarefas de baixo nível, buscando um meio de sustento para uma vida honesta.

Basicamente, éramos uma força-tarefa de baixo custo, prontos para fazer o que a cidade necessitasse: carregar e descarregar carroças, limpar as ruas, patrulhar o perímetro.

Era uma espécie de terceirização dos serviços públicos e uma precarização das relações trabalhistas. Afinal, ali tudo era incerto. Nem a uberizaçao seria tão predatória quanto a Guilda, já que até morrer no trabalho era uma possibilidade né? Mas era uma forma de dar ocupação aos muitos jovens sem emprego que, de outra forma, poderiam se tornar um problema para a cidade.

Foi nessas primeiras semanas que conheci o Sr. Fred, o chefe da Guilda. Um velho representante do povo dos chifres, ainda mais alto que o Mestre (como isso era possível?), com o pelo sempre cortado rente, o que deixava visíveis as cicatrizes espalhadas pelo corpo.

Garças Ao Um, pude ver nele a luz de um crente, e, assim, essas primeiras semanas foram também de esperança.

Junto com os demais jovens da aldeia, revezávamos nas tarefas: coletar ervas, limpar as ruas, patrulhar o perímetro. Aos poucos, fui entendendo aquela sociedade, identificando quem era quem, marcando meus alvos, decidindo de quem me aproximar e de quem me afastar. Sobretudo, tentava entender como o povo-fera havia sido escravizado e como essa situação havia se tornado meio que aceita na sociedade.

O Sr. Fred era mesmo uma boa pessoa. Uma vez a cada Lua Velha (quase uma vez por mês), ele reunia os novatos da Guilda para um chá da tarde com biscoitos, tirava dúvidas, perguntava como todos estavam, enfim, geria a próxima geração de caçadores. Um verdadeiro bom chefe de Guilda.

Para mim, esses encontros eram uma oportunidade única de tirar todas as minhas dúvidas, indo devagar para não levantar suspeitas, e aprendendo mais sobre aquele mundo, e, em especial, sobrea sociedade dos humanos.

Gostava da forma como ele abria as reuniões, com o mesmo gesto de manter os braços junto ao corpo, palmas voltadas para dentro, e então abria os braços, mostrando as palmas para frente, dizendo:

- Que O Um ilumine o seu caminho.

Eu sempre respondia, abrindo os braços com as palmas para cima e fechando-os para terminar cruzado no peito (embora muitas vezes sozinho), replicando:

- Que todos os caminhos levem Ao Um.

Um verdadeiro devoto!!!

Era, de fato, como numa bênção Do Um de um para outro, exatamente como o Mestre havia me ensinado. Fazíamos esse mesmo gesto ao visitar a casa comunal da aldeia para falar com o conselho dos anciões. Já estava começando a me sentir em casa na Guilda...

Foi numa dessas reuniões que entendi a estranha pergunta que a Lucia me fez na hora do meu registro na Guilda. Ela perguntou se eu morava na cidade, como se isso fosse fazer diferença no meu registro. Lucia perguntou duas vezes e queria saber mesmo onde eu estava ficando.

Pelo que entendi, para os não humanos (diferente dos humanos, chamado de “puros”) poderem morar na cidade, é necessário ter uma espécie de passaporte ou salvo-conduto, que deve ser renovado a cada noite sem luas (anualmente).

Ou seja, os não humanos têm que assinar um termo (um contrato mágico) e recebem uma marca no corpo, que muda de cor se não for renovada a cada ano na prefeitura, ou seja, se os impostos não forem pagos...

Estava aí a origem de como o meu povo estava sendo transformado em escravo!

Se a igreja os enganava sobre o Deus verdadeiro, a cidade era uma armadilha em que eles entravam incautos e se tornavam escravos – mesmo pagando as taxas – pois, se não fosse renovada, e você tentasse entrar na cidade, logo seria preso e vendido.

Foi assim que surgiu a comunidade do Moinho, fora da cidade, formada por aqueles que não podiam mais voltar para a segurança dos muros.

Ainda que a situação fosse incerta, a qualquer momento, alguém poderia se interessar em capturá-los para transformá-los em escravos (mesmos os velhos e as crianças), e tudo poderia mudar! Afinal, eles viviam sob constante ameaça de serem caçados pela guarda da cidade.