Lobo em pele de Cordeiro
9 Conhecendo o inimigo
Já era noite quando entrei na cidade. Eu já sabia o que esperar das vezes que acompanhei a troca de peles e carne por ferro e sal. Só que agora, vestindo a pele de um humano, estava livre para entrar nos lugares que antes eram proibidos para mim.
Primeiro, fui até a Guilda para confirmar as informações que obtive com Greg, e sim, o painel de missões estava mesmo minguado, com apenas pedidos de caça para trazer carne para a cidade.
Nem mesmo o painel de cotação dos preços de núcleos de monstros estava em alta. Afinal, esses núcleos são usados como combustível para equipamentos mágicos que as pessoas ricas, de famílias abastadas, possuíam.
Se você não tem mágica, como os humanos, você precisa usar a magia armazenada nos núcleos dos monstros para fazer funcionar equipamentos mágicos, como um lustre que pode iluminar sua sala (sem precisar ter velas queimando) ou um fogão mágico para manter o chá aquecido na mesa.
Assim, aqueles que tinham grana podiam comprar esses equipamentos mágicos e usar os núcleos inseridos neles para realizar essas funções. Como a cidade estava meio mal das pernas, nem aos ricos estava sobrando dinheiro para esse tipo de luxo, por isso a procura estava baixa e, consequentemente, os preços estavam caindo (lei da oferta e da demanda).
Aproveitei para fazer um reconhecimento e aplicar uma avaliação nos aventureiros que estavam por ali, para saber o que esperar caso a situação ficasse complicada e eu precisasse lutar para sair...
Nada preocupante, basicamente caçadores e um ou outro aventureiro de passagem, em busca de algum ganha-pão entre cidades de maior relevância. Nenhum acima do rank C, que era o rank de Greg. Nossa, se esse era o melhor que a cidade tinha a oferecer, eles estavam mesmo com problemas!
Em seguida, fiz uma visita aos silos da cidade, junto à prefeitura, para confirmar o que Christoffer temia. E sim, a fome estava mordendo os calcanhares das pessoas, fazendo-as saltar de medo e acordar à noite pensando em como seria duro o próximo inverno.
Próxima parada: a igreja, meu grande objetivo a ser conquistado, ou melhor, destruído!
Ela estava num local meio afastado, não no centro da cidade, mas bastante proeminente, com suas paredes altas e cúpulas de pedra. No interior, a figura do primeiro Herói em seu momento de sacrifício para derrotar o Lorde Demônio, ladeado por seus dois companheiros. Era uma apropriação de um pseudo-cristianismo, onde o Herói assume o lugar de enviado de Deus, e o Lorde Demônio representa todo o mal que existe.
Como o Herói era humano, ficou para os não humanos o lugar de enviados do demônio. Uma narrativa bem simples que qualquer um poderia entender e se relacionar.
As paredes eram sólidas e de pedra; desmontar esse lugar daria trabalho!
Ao final da tarde, início da noite, nas horas mortas do dia, com o baixar do sol e coberto pelo crescimento das sombras, pude explorar a Catedral e seus prédios anexos com mais calma. Afinal, dava muito na cara um total estranho – Greg – ir entrando nos locais, certo?
Então, usando a habilidade de furtividade, escalei o muro e fui entrando para conhecer melhor o terreno de caça do inimigo!
Passando pelos muros para dentro do pátio lateral da Catedral, onde – do lado oposto à Catedral — estava o prédio dos aposentos dos sacerdotes, encontrei a maioria das pessoas dormindo.
Usando avaliação, percebi que, fora o pessoal que trabalhava nas tarefas diárias, havia poucas pessoas com habilidades, e nenhuma com poder mágico.
Se de um lado o pátio dava para a rua, ao fundo deste jardim (como um pátio de colégio ou jardim de uma abadia) ficava a residência do Monsenhor, ou o chefe – se quiser chamar assim.
No jardim, coberto pelas sombras, tinha uma mulher jovem aparentemente dormindo num banco de pedra sob uma árvore. Para minha sorte, ela era justamente uma clérica com uma habilidade de cura, sorte grande!
O que me surpreendeu foi que ela usava a própria vitalidade (ou HP) e não tinha poder mágico para sanar as pessoas. Era como se passasse sua saúde para os outros, e depois precisasse se recuperar dos ferimentos e mazelas. Muito ineficiente!
Não importa, habilidade é habilidade, e a dela já era, pois que eu já — usando cortar e colar — retirei dela essa possibilidade!
Será que ela vai perceber? E se perceber, como será que vai reagir? Sentirá medo de se sentir abandonada pelo seu “deus”? Afinal, é somente uma habilidade, como outra qualquer...
Deixando o restante para mais tarde, agora faltava reconhecer as pessoas que eu deveria proteger, se é que elas existiam naquele vilarejo.
Usando minha habilidade de oráculo, dei uma geral na aldeia buscando por crentes Do Um, que poderiam representar um novo começo para aquele lugar que cheirava a decadência e dor.
Parecia mesmo as vielas dos morros da minha vida passada, com paredes finas que pouco escondiam o sofrimento e a dor de seus habitantes. Aqui e ali, a luz de um crente, alguma esperança nesse caos de trevas e angústia. A cidade estava mesmo enfrentando uma crise.
Como seria a "classe governante"? Coberto pelo véu da noite que caía de forma apressada, usando o corpo e as habilidades de Greg, me dirigi ao “bairro rico”, onde moravam os comerciantes e o “prefeito” da cidade, o tal barão!
Numa cidade pobre, onde as ruas ficam desertas e perigosas à noite, foi uma surpresa encontrar um vigia — não para se estranhar, guardando a entrada para o quarteirão dos ricos, né? Um indício de que eles também estavam com medo, mas tinham mais recursos para tentar se proteger. Nenhum grande problema, um guarda sonolento e mal pago, encolhido no fundo de sua guarita, enrolado no cobertor, claramente dormindo, com um ronco tão alto que se ouvia a quase meia quadra de distância no silêncio da noite.
Se esse era o exemplo a se esperar da guarda da cidade, eu não teria problemas.
Me esgueirando entre os prédios, sempre do lado escuro, fugindo da pouca luz das luas, não encontrei fiéis a serem protegidos.
Já deixando o quarteirão para trás, captei algo, num subterrâneo atrás da prefeitura: um calabouço preenchido pelo som surdo de lágrimas caindo, vindo de um choro abafado pelo medo de ser descoberto.
Escravos!
Meu povo estava sendo escravizado por esses humanos malditos!!
Da minha vida passada, lembro da vergonha que sentia de ser preto, pobre e analfabeto, de como essas pessoas que se achavam as mais (mais brancas, mais ricas, mais “espertas”) usavam isso para me julgar como uma pessoa inferior a elas, como se tivessem o direito de se sentirem superiores, de fazer o que quisessem comigo, com todos na verdade.
Como eu gostava de – depois que a situação se invertia – colocar essas pessoas “especiais” para dentro do meu território, de ver como aquela espécie toda descolada – que se dizia poderosa e que mandava e desmandava – iniciava uma jornada de medo e terror. Quando a casa caía, as máscaras se iam, e a verdadeira natureza das pessoas aparecia.
Eram filhinhos usando o nome do pai para conseguir o que queriam, filhas usando o corpo para obter alguma vantagem. Sempre a mesma história de alguém querendo levar vantagem sobre os outros.
Tolos, pois no morro, é a minha palavra que manda. E essa cidade iria descobrir isso um dia, e esse dia não tardaria a chegar!
Saindo da área central, fui em espiral percorrendo as ruas em direção à periferia, a chamada cidade baixa. As casas foram diminuindo para um andar, de pedra passaram a ser de madeira, e agora pareciam mesmo os meus barracos de outrora. Aqui, a luz Do Um ainda brilhava em casas onde os seus valores ainda eram observados. Ainda havia esperança para essa cidade.
Já quase feliz, voltando para a floresta e para a minha montanha, vi a oeste um prédio bem antigo, meio em ruínas, mas que brilhava de uma forma singular. Tinha que verificar!!!
Ainda usando Greg, me aproximei cautelosamente e notei que era uma antiga instalação para moer grãos, à beira do rio, agora abandonada. Prova de que essa cidade já havia conhecido dias melhores.
No silêncio, com uma fogueira crepitando contra o céu noturno, um dos nossos montava guarda!
Um membro da Tribo dos Chifres!! Estou em casa, quase indo de encontro ao colega, esquecendo que estava no modo Greg...
Hora de uma mudança de guarda-roupa. Aproveitando o manto de escuridão da noite, saí da pele de Greg e voltei ao meu ser normal. Como é bom sentir minhas pernas de volta! Esses humanos têm mesmo corpos bem inferiores aos nossos!
De volta ao corpo e vestes do povo dos caninos longos, aprendiz de sacerdote, me aproximei da fogueira, um pouco mais confiante, porém ainda temeroso, afinal, esse seria meu primeiro contato fora da aldeia. Como seria recebido?
Já mais próximo, uma voz cansada, porém forte, me acordou do devaneio:
- Quem vem lá?
Estanquei ao perceber que ele era da tribo dos Chifres, mas não da minha aldeia. Sua pelagem era mais rala e seus orgulhosos chifres não cresciam de forma simétrica, com o da direita apresentando uma curvatura imperfeita, como se quisesse romper a simetria daquele rosto.
Aproximando-me mais, notei que sua lã era mais escura e, como eu, com manhas aqui e ali – não inteiramente branca como a do Mestre e dos demais membros da aldeia.
Ainda sem se levantar, ele puxou a sua lança para mais perto do corpo, apontando para a direção de onde eu vinha e perguntou novamente:
- Quem vem lá?
Sua visão não parecia estar boa, ele tentava olhar para os lados, sem saber muito bem para onde se dirigir, penso que na verdade estava guiando-se apenas pelo som dos meus passos... Foi aí que eu decidi me arriscar:
- Que O Um ilumine o seu caminho.
- E que todos os caminhos levem Ao Um.
Seus ombros relaxaram, e eu pude ver o fundo daquele olhar vazio, onde a luz não penetrava mais.
Pedi permissão para me aproximar do fogo e perguntar se ele estaria disposto a dividir uma refeição.
Seu nome era Belial, e ele viera do Leste buscando oportunidades como caçador filiado à Gilda. Acabou ficando por ali depois que um acidente numa subjugação de Guinchadores deu errado e lhe tirou a visão.
Agora ele estava no velho moinho (como eles chamavam o lugar), junto com todos os demais enjeitados, órfãos, sem família, perdidos e meio-sangues como ele (que não encontravam seu lugar em nenhuma das comunidades).
Em silêncio, agradeci ao Mestre por me acolher, sabendo que minha vida teria sido bem diferente – mesmo com todos os meus poderes – se ele não tivesse me recebido e cuidado de mim por todos esses anos. Abençoado seja O Um por me colocar no seu caminho!
Pelo que ele explicou, eram mais de 30 pessoas ali, entre humanos, não-humanos e meio-sangues (que não eram nem um nem outro), vivendo à parte da sociedade. Colhiam frutas e pequenas caças nas redondezas do moinho para poder sobreviver.
Como na sua grande maioria são rejeitados pela sociedade, todos ali só contam com o que conseguem coletar da floresta próxima e da gentileza dos amigos da cidade, vivendo escondidos e dependendo da bondade das pessoas.
Como a noite já estava avançada e eu tinha que voltar para as montanhas, me despedi de Belial, não sem antes copiar sua habilidade com a lança e experimentar a habilidade de cura que obtive com a clérica. Apesar de ter gasto uma quantidade significativa de vitalidade curando seus olhos, era quase nada comparado ao exército de cabras e bodes que eu já havia sacrificado — um balde no oceano!
Ou seja, havia uma clara diferença entre eu usar a habilidade que roubei da clérica e ela usá-la; estabeleceria – com a mesma ferramenta — níveis muito diferentes de resultados.
Infelizmente, para a minha decepção em entender a total abrangência da nova habilidade, parecia que os resultados demorariam a aparecer. Assim, despedi-me de Belial e segui meu caminho de volta para casa.
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