Livro II: O Eco dos Nossos Passos
21 Sementes de um Novo Tempo
A manhã de domingo em West Valley começou com o cantar manso dos pássaros no jardim e o aroma inconfundível de café fresco passando na cozinha. A luz dourada do sol cortava as frestas da janela, iluminando James Lâfrer, que vestia apenas uma calça de moletom cinza. Com os cabelos levemente bagunçados e o semblante relaxado, ele operava a cafeteira e, com uma faca de chefe, cortava com precisão cubos de morango e manga em uma tigela de vidro.
Passos leves ecoaram pelo piso de madeira. Hope surgiu vestindo um camisão de linho branco dele, que ficava largo e cobria metade de suas coxas. Ela caminhou mansamente por trás dele, enlaçou seus braços ao redor da cintura marcada de James e colou o rosto em suas costas nuas.
— Bom dia, meu quarterback — ela sussurrou, a voz rouca de sono.
James sorriu, largando a faca na tábua e virando-se dentro do abraço dela. Ele segurou o queixo de Hope com delicadeza, erguendo o rosto dela para iniciar um beijo lento, quente e profundo, daqueles que carregavam a certeza de que não precisavam mais se esconder do mundo.
— Bom dia, Styles — James respondeu contra os lábios dela, os olhos escuros brilhando de paixão. — Dormiu bem?
— Maravilhosamente bem — ela deu um sorriso travesso, pegando um pedaço de morango com os dedos e levando à boca. — Deixa eu te ajudar com isso. O meu pai já deve estar descendo e eu não quero que ele reclame que o genro dele está roubando as frutas da casa.
James soltou uma risada limpa, entregando a ela uma colher. Eles terminaram de preparar a mesa juntos, trocando carícias espontâneas, risadas e pequenos beijos a cada movimento, imersos em uma cumplicidade apaixonada que parecia recuperar cada segundo perdido nos anos de separação.
Dias depois, a rotina corporativa de Manhattan havia sido retomada, mas a atmosfera dentro da Lâfrer & Capital Media estava completamente transformada.
No início do expediente de quarta-feira, a porta do elevador privativo se abriu no vigésimo quinto andar. James e Hope cruzaram o corredor de vidro fosco. Para a surpresa e o choque sutil dos analistas e secretárias que passavam com suas pastas, o grande presidente e a estagiária de jornalismo caminhavam abertamente de mãos dadas, com os dedos entrelaçados.
Ao pararem em frente à porta do cubículo de redação de Hope, James virou-se para ela. Sem se importar com os olhares ao redor, ele segurou a nuca dela e lhe deu um beijo carinhoso na boca, rápido mas cheio de significado.
— Bom trabalho hoje, Styles. Te vejo no almoço — James disse, com a voz suave.
— Bom trabalho, Senhor Presidente. Vê se não me dá nenhuma bronca por memorando hoje — ela piscou, os olhos azuis cheios de graça, antes de entrar em sua sala.
James ajeitou o paletó de seu terno escuro, deu um sorriso discreto e caminhou a passos firmes até a sua sala da presidência. Ao empurrar a porta de jacarandá, Ricardo Andrade já o esperava sentado em uma das cadeiras de couro, com um tablet na mão e um sorriso largo e bem-humorado no rosto.
— Rapaz do céu, James... — Ricardo começou, soltando uma risada e balançando a cabeça. — Eu acabei de ver vocês dois entrando de mãos dadas pelo corredor. O mercado financeiro de Nova York não estava preparado para ver o "homem de gelo" derreter desse jeito em pleno horário comercial.
James sentou-se em sua cadeira executiva, abrindo a pasta de relatórios com uma leveza que Ricardo nunca vira nele antes.
— O mercado vai ter que se acostumar, Ricardo. A vida é curta demais para se viver trancado em uma armadura. Agora, me mostre os números da campanha de Londres. Temos trabalho a fazer.
— É assim que se fala, chefe! Vamos aos negócios — Ricardo celebrou, feliz pelo amigo, sabendo que a calmaria finalmente havia se instalado naquela empresa. Tudo agora seguia um curso sossegado, maduro e feliz.
Enquanto a vida em Manhattan corria em perfeita harmonia, em West Valley o ritmo era de pacífica calmaria doméstica. Era o final da tarde e a casa estava silenciosa. Sofia estava na área de serviço, pegando um cesto de vime cheio de roupas limpas para colocar na máquina de lavar.
Ao se abaixar para recolher uma peça, uma tontura súbita e violenta atingiu sua cabeça. O teto pareceu girar de uma vez só e o ar sumiu de seus pulmões. Sofia levou a mão à testa, tentando se apoiar na borda da máquina, mas suas pernas vacilaram por completo. O cesto caiu no chão e Sofia desmaiou, caindo desfalecida sobre o piso de cerâmica.
Minutos depois, Garret entrou em casa vindo da construtora. — Sofia? Meu amor, cheguei!
Sem receber resposta, ele caminhou pela casa até os fundos. Ao cruzar o batente da lavanderia, seu coração disparou de pavor.
— Sofia! — Garret gritou, jogando as chaves no chão e correndo até a esposa. Ele a pegou nos braços, batendo levemente em seu rosto pálido. — Sofi, acorda! Por favor, fala comigo!
Desesperado, percebendo que ela não reagia, Garret a pegou no colo de uma vez só, correu até a caminhonete e dirigiu em alta velocidade até o hospital municipal de West Valley.
A espera na sala de atendimento parecia uma eternidade para Garret. Ele andava de um lado para o outro, com as mãos na cabeça, o suor frio escorrendo pela nuca. Sofia já havia sido levada para a ala de exames emergenciais.
Após quarenta minutos de agonia, as portas duplas de metal se abriram. Uma médica de meia-idade, vestindo um jaleco branco e segurando um prontuário, caminhou até ele com uma expressão tranquila e um sorriso sereno nos lábios.
— Senhor Garret Styles? — a médica chamou.
— Sou eu, Dra.! Pelo amor de Deus, como está a minha esposa? O que ela tem? Por que ela desmaiou daquele jeito? — Garret disparou, as palavras atropelando-se de puro nervosismo.
A médica colocou a mão de forma reconfortante no ombro dele, soltando uma risada baixa.
— Respire fundo, Senhor Styles. A sua esposa está perfeitamente bem. Nós fizemos os exames de sangue, checamos os sinais vitais e aplicamos um soro para estabilizar a pressão dela, que teve uma queda brusca. O desmaio foi apenas um sintoma clássico.
Garret franziu o cenho, o coração desacelerando aos poucos. — Sintoma clássico de quê, Dra.? Ela está com alguma anemia?
O sorriso da médica se expandiu. — Não, senhor. Parabéns, Senhor Styles. O desmaio e o mal-estar são decorrentes do primeiro trimestre de gestação. O casal está esperando um bebê.
Garret paralisou no meio do corredor do hospital. Suas pupilas dilataram e ele piscou os olhos repetidamente, como se estivesse tentando processar uma informação em outra língua.
— Um... um bebê? A Sofia está... grávida?
— Sim, grávida de aproximadamente sete semanas. Pode entrar no quarto, ela já acordou e está esperando pelo senhor.
Garret nem soube como mover as pernas. Ele empurrou a porta do quarto de observação devagar. Sofia estava sentada na maca, com o acesso do soro no braço, os cabelos um pouco bagunçados, mas com um brilho misterioso e emocionado nos olhos castanhos. Ao ver o marido entrar com aquela cara de choque, ela soltou uma risada chorosa e abriu os braços.
— Um bebê, Garret... — ela sussurrou, as lágrimas transbordando e escorrendo pelo rosto. — Nós vamos ser pais de novo.
Garret correu até a maca, ajoelhando-se no chão ao lado do leito e envolvendo Sofia em um abraço absurdamente apertado, escondendo o rosto no pescoço dela enquanto seus próprios soluços de felicidade explodiam. Ele chorava como uma criança, beijando o rosto, a testa e as mãos dela com uma devoção sem limites.
— Um bebê, meu amor... Deus, eu não consigo acreditar! — Garret dizia, a voz embargada, rindo e chorando ao mesmo tempo. Ele afastou-se um pouco, colando a palma da mão grande e trêmula contra a barriga ainda lisa de Sofia, por cima do lençol do hospital. — Um irmãozinho ou irmãzinha para a Hope... Nós vamos começar tudo de novo, Sofi.
— Nós estamos radiantes, meu amor — Sofia sorriu, cobrindo a mão dele com a sua, o peito explodindo de amor. — A nossa família está completa, o James e a Hope estão bem, e agora essa benção... A vida é realmente maravilhosa.
Eles se selaram em um beijo terno, longo e cheio de promessas para o futuro. Naquela sala de hospital, a certeza de uma nova vida trazia a renovação definitiva para a história dos Styles, provando que, após as tempestades do passado, o futuro reservava apenas frutos de pura felicidade.
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