Livro II: O Eco dos Nossos Passos

20 O Retorno do Irmão e a Luz de West Valley



​A manhã de sábado nasceu com um céu azul límpido e o sol brilhando sobre o asfalto da interestadual. No banco do motorista do SUV escuro, James segurava o volante com uma mão, enquanto a outra estava firmemente entrelaçada com os dedos de Hope sobre o console central.

​A viagem de Manhattan até West Valley parecia ter ganhado uma atmosfera completamente nova. Não havia o peso da culpa ou a sombra do exílio; havia apenas a leveza do recomeço. Pelo caminho, eles ligaram o rádio em uma estação de rock clássico, cantando alto e rindo das próprias gafes musicais.

​No meio da manhã, James pegou um desvio na rota e estacionou o carro em um mirante na encosta de uma montanha verdejante. Eles desceram para respirar o ar puro e lanchar os sanduíches que Hope havia comprado em uma conveniência.

​— Olha para cá, Lâfrer! Sorri! — Hope exclamou, erguendo o celular para tirar uma selfie dos dois.

​James, que passou os últimos anos ostentando uma pose rígida nos jornais de finanças, simplesmente abraçou Hope por trás, colando o rosto ao dela e dando um sorriso largo, genuíno e descontraído.

​— Sabe, Styles... — James comentou, olhando a foto na tela do celular e ajeitando uma mecha do cabelo loiro dela. — Eu tenho quarenta e dois anos, sou dono de uma holding, mas do seu lado... eu me sinto um adolescente de dezoito anos pegando a estrada pela primeira vez.

​Hope virou-se nos braços dele, os olhos azuis brilhando de uma forma que ele não via há muito tempo. Ela envolveu o pescoço dele com os braços, sentindo-se a mulher mais feliz do mundo.

— É porque o seu coração finalmente saiu daquela geladeira de Manhattan, James. Agora vamos voltar para o carro, o comitê de boas-vindas nos espera.

​Na tradicional casa dos Styles, o silêncio da manhã foi quebrado pelo ronco grave e compassado de um motor potente que estacionava na cascalho da entrada. O som do escapamento era inconfundível.

​Na cozinha, Garret paralisou com a caneca de café na mão. Sofia, que estava guardando os pratos, virou-se abruptamente, os olhos castanhos arregalando-se. Eles se olharam e, em uníssono, proferiram o mesmo nome:

​— James.

​Garret largou a caneca no balcão e caminhou a passos largos em direção à sala de estar, com Sofia logo atrás. Quando chegaram ao centro do cômodo, a porta da frente se abriu. Hope entrou primeiro, trazendo sua mochila de lona, e logo atrás dela, com a postura firme, mas os olhos carregados de expectativa, James cruzou o batente.

​O ambiente congelou por cinco segundos. Lucian e Elise, que liam o jornal na varanda, entraram na sala logo em seguida, atraídos pelo silêncio repentino.

​— Oi, pai. Oi, mãe — Hope quebrou o gelo, a voz saindo madura e firme. — Nós viemos conversar.

​Garret indicou os sofás com um aceno de cabeça denso, o olhar fixo no ex-melhor amigo.

— Sentem-se. Acho que essa conversa já está atrasada em alguns anos.

​Todos se acomodaram na sala de estar de madeira. James sentou-se ao lado de Hope, mantendo a postura ereta, as mãos apoiadas nos joelhos. Ele olhou diretamente nos olhos de Garret, despindo-se de qualquer arrogância.

​— Garret, Sofia... eu vim aqui para dar as caras — James começou, a voz grave e sincera ecoando pelo espaço. — A verdade é que tudo isso começou no aniversário de dezoito anos da Hope. Foi naquela noite que eu olhei para ela e percebi que o sentimento de tutor havia se transformado em algo diferente. Algo avassalador. Eu me assustei, passei anos lutando contra isso, tentando me convencer de que era uma loucura da minha cabeça. E quando a Sofia me confrontou na cobertura... eu entrei em pânico. Achei que contar a verdade destruiria você, Garret. Achei que o certo era sumir, ser um monstro de gelo e fazer vocês me odiarem. Fui um idiota orgulhoso.

​— Você foi um completo imbecil, James! — Garret explodiu, levantando-se e apontando o dedo para ele, a voz embargada de mágoa. — Você rasgou a nossa amizade de vinte anos por causa de um segredo! Você achou o quê? Que eu ia caçar você com uma espingarda? A Hope já era uma mulher, Lâfrer! Se você tivesse vindo falar comigo, se tivesse jogado limpo... o impacto teria sido gigante, sim, mas nós daríamos um jeito! Nós éramos irmãos, droga!

​— Garret, se acalme! — Sofia interveio, segurando o braço do marido. — O James tentou proteger a família do jeito que ele achou que sabia fazer.

​— Proteger nos afastando por dois anos?! Fazendo a nossa filha chorar todas as noites no quarto?! — Garret rebateu, o peito subindo e descendo com força.

​A discussão ameaçou subir de tom. Hope ia intervir, mas uma voz firme e carregada de autoridade ancestral ecoou do canto da sala. Elise, sentada em sua poltrona, bateu a mão levemente no braço de madeira, calando a todos com seu olhar sábio.

​— Já chega de gritaria de homens orgulhosos — Elise sentenciou, olhando fixamente para Garret e depois para James. — Garret, pare de agir como se o James tivesse cometido um crime. E você, James, pare de se culpar por ter se apaixonado. A verdade nua e crua aqui é que ninguém, absolutamente ninguém, manda no amor. O amor não lê certidões de nascimento, não quer saber de títulos de amizade e não pede permissão para entrar. Esses dois passaram dois anos sofrendo separados, tentando cumprir as regras estúpidas de vocês, e olhem para eles agora. Eles se amam. Dá para ver nos olhos da minha neta que o brilho voltou por causa desse homem. E dá para ver no James que ele finalmente voltou a ser humano. Vocês vão continuar brigando com o inevitável?

​O silêncio caiu sobre a sala como uma benção. As palavras da matriarca Styles cortaram o orgulho de todos. Lucian assentiu sutilmente ao lado da esposa, e Sofia limpou uma lágrima do rosto.

​Garret olhou para a mãe, depois para Hope — que segurava a mão de James com uma determinação inabalável —, e finalmente fixou os olhos em James. O irmão de consideração estava ali, vulnerável, pronto para aceitar qualquer punição para ficar com a mulher que amava.

​Garret soltou um suspiro longo, o peso de dois anos de amargura deixando seus ombros de uma vez só. Ele deu dois passos largos na direção de James. James levantou-se do sofá, preparando-se para o pior.

​Em vez de um soco, Garret avançou e puxou James pelo pescoço, envolvendo-o em um abraço forte, viril e esmagador, daqueles que eles davam nos tempos de futebol americano. James travou por um segundo, chocado, antes de retribuir o abraço com a mesma força, os olhos marejando.

​— Você é um desgraçado, Lâfrer... — Garret disse com a voz embargada, dando três tapas pesados nas costas de James antes de se afastar, com um sorriso de canto e os olhos vermelhos. — Você não tinha um jeito mais fácil de entrar para a família de vez, não? Tinha que inventar de virar meu genro?

​James soltou uma risada limpa, limpando o canto do olho de forma discreta. — Foi o único jeito que encontrei de aguentar você pelo resto da vida, Styles.

​A sala explodiu em risadas e alívio. Hope pulou do sofá e abraçou o pai e James juntos, as lágrimas de felicidade lavando todas as mágoas do passado.

​O resto do dia passou em uma atmosfera festiva. O jantar de sábado foi o mais alegre que a casa de West Valley testemunhou em anos. Lucian abriu um vinho especial, Garret e James voltaram a brincar sobre futebol, e a presença daquela ausência crônica que assombrava as festas finalmente havia sumido.

​À noite, a casa silenciou. No quarto de Hope, as luzes estavam apagadas, exceto pelo brilho do luar. A porta da sacada abriu-se com um clique suave; James, usando apenas uma calça de moletom, invadiu o quarto dela, vindo do quarto de hóspedes ao lado.

​Hope, que já estava deitada de camisola, sentou-se na cama com um sorriso travesso.

— James! Você enlouqueceu? O meu pai está no quarto ao lado. Se ele te pegar aqui depois de toda a cena de hoje, ele revoga o abraço na hora!

​James jogou-se na cama por cima dela, rindo baixo, cobrindo a boca dela com a mão de forma brincalhona antes de beijá-la com paixão.

— Eu passei dois anos sendo o homem maduro e controlado, Styles. Hoje eu quero ser o garoto que invade o quarto da namorada no meio da noite. Deixa o seu pai reclamar.

​Eles rolaram pelo colchão, trocando cócegas, beijos estalados e risadas abafadas contra os travesseiros, comportando-se exatamente como dois adolescentes bobos e apaixonados.

​No quarto principal, do outro lado da parede de madeira, Garret e Sofia estavam deitados de casal. O som abafado das risadas leves e da descontração vindo do quarto de Hope atravessava a estrutura antiga.

​Garret, deitado de costas com os braços atrás da cabeça, soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.

— Eu juro que se o Lâfrer quebrar alguma coisa no quarto da minha filha, eu cobro o conserto na segunda-feira com juros da holding.

​Sofia virou-se de lado, apoiando o queixo no peito de Garret. Ela sorriu, inclinando-se para dar um beijo carinhoso nos lábios do marido.

​— Deixa eles, Garret — Sofia sussurrou, o coração finalmente em paz. — Você percebeu o semblante do James hoje? Aquele homem frio de terno sumiu. A Hope trouxe de volta o brilho que ela mesma tinha levado dele há dois anos. Eles merecem essa felicidade.

​Garret olhou para o teto, puxando a esposa para mais perto e dando um suspiro satisfeito.

— É... ela trouxe. O meu irmão voltou para casa, Sofi. E a nossa menina está feliz. Isso é tudo o que importa.

​Na escuridão da noite de West Valley, as risadas no quarto ao lado continuaram, celebrando o fim do exílio e o início de uma história onde o amor, finalmente, havia vencido todas as linhas do tabuleiro.