​A terça-feira que antecedia a partida de Hope para o campus universitário amanheceu sob um céu cinzento e uma névoa baixa que cobria as ruas de West Valley. A casa dos Styles estava imersa em uma calmaria melancólica, o tipo de silêncio que precede as grandes mudanças. Caixas de papelão lacradas com fita adesiva acumulavam-se perto da porta da frente, cada uma etiquetada com a caligrafia firme de Hope.

​Na cozinha, Sofia encarava uma caneca de café intocada. O coração de mãe apertava-se ao perceber que o ninho estava prestes a esvaziar. Ela olhou para o corredor quando ouviu passos pesados e lentos descendo as escadas.

​James passou pelo arco da porta. Ele vestia uma calça escura e uma camiseta preta simples, com as mãos enterradas nos bolsos do moletom cinza. Seus olhos escuros carregavam olheiras profundas, denunciando que ele não havia pregado o olho desde a discussão acalorada que tivera com a afilhada no quarto de hóspedes.

​— Bom dia, Sofia — James disse, a voz saindo mais rouca que o habitual. Ele caminhou até o balcão, servindo-se de café sem olhar diretamente para ela.

​— Bom dia, James — Sofia respondeu, observando a rigidez nos ombros do amigo. Ela suspirou, apoiando os cotovelos na mesa. — Você e a Hope mal se olharam no café da manhã de ontem. James, ela vai embora amanhã cedo. Você realmente quer que a última memória dela com você aqui seja aquela discussão sobre o Ethan?

​James travou com a caneca perto dos lábios. O maxilar dele se contraiu, e ele soltou o ar pesadamente pelo nariz antes de se sentar à mesa, de frente para Sofia.

​— Eu só estou tentando proteger ela, Sofia — ele justificou-se, a voz baixa, mas carregada de uma frustração intensa. — Aquela universidade é enorme. O curso de jornalismo vai exigir tudo dela. Ela não precisa de um namorado de colégio agindo como uma âncora, prendendo-a em jantares e crises de ciúmes bobas enquanto ela devia estar construindo um futuro.

​Sofia deu um sorriso triste, cobrindo a mão grande de James com a sua.

— James, você lembra de como nós éramos com dezoito anos? Lembra do Garret comigo? E... lembra de você com a Elara? Nós achávamos que sabíamos tudo sobre o mundo. Se alguém tentasse nos dizer o que fazer, nós fazíamos o oposto. A Hope tem o sangue dos Styles; quanto mais você pressionar, mais ela vai se agarrar ao Ethan só para te provar que está certa.

​James desviou o olhar para a janela, onde a chuva fina começava a molhar o vidro. As palavras de Sofia ecoavam como uma verdade amarga. Ele não conseguia explicar, nem para si mesmo, o motivo de aquela proximidade de Ethan com Hope causar-lhe uma repulsa tão física e dolorosa. Parecia um roubo do tempo.

​— Eu sei... — ele murmurou por fim, os nós dos dedos brancos ao redor da caneca. — Eu só não quero ver ela quebrar a cara. Eu prometi que cuidaria dela, Sofia.

​— E você está cuidando — Sofia apertou os dedos dele com carinho. — Mas cuidar também significa deixar ir. Sabe onde ela está agora? Subiu até o antigo quarto da Elara. Ela disse que queria um tempo sozinha antes de terminar de fechar a última mala de mão. Vai lá conversar com ela, James. Conserta as coisas.

​James permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois, assentiu lentamente, levantou-se da cadeira e deixou a caneca na pia. Ele subiu os degraus de madeira da casa antiga com passos calmos, sentindo o peito apertar a cada degrau.

​A porta do antigo quarto de Elara — que agora servia como o escritório e santuário de memórias da família — estava apenas encostada.

​James empurrou-a devagar. A luz suave do meio-dia entrava pela janela, iluminando Hope. Ela estava sentada no chão, de pernas cruzadas, bem em frente à estante onde as fotos e os livros da tia ficavam guardados. Em seu colo, ela segurava o clássico livro de bolso O Tempo que Me Resta. Ao ouvir o som da porta, ela não se virou imediatamente; apenas passou os dedos longos pela capa gasta.

​— Eu sempre achei essa capa linda — Hope disse baixinho, a voz sem a habitual armadura de deboche. — A mamãe me contou que a tia Elara lia isso aqui no hospital quando sentia muita dor. Ela disse que a leitura fazia o tempo passar mais rápido.

​James deu dois passos para dentro do quarto, mantendo uma distância respeitável. Ver Hope ali, cercada pelas memórias do passado e prestes a dar o passo em direção ao próprio futuro, fez sua garganta dar um nó insuportável.

​— Fazia sim — James respondeu, a voz suave. Ele caminhou até a escrivaninha e encostou-se nela, cruzando os braços. — Ela dizia que cada página era uma linha de chegada que ela vencia.

​Hope finalmente ergueu o rosto, fixando aqueles olhos azuis intensos em James. Não havia raiva no olhar dela hoje, apenas a vulnerabilidade de uma jovem de dezoito anos que estava prestes a deixar a segurança do lar pela primeira vez.

​— Desculpa por ter entrado no seu quarto daquele jeito no sábado... e pelas coisas que eu disse — ela murmurou, baixando os olhos para o livro novamente. — Eu não queria ter gritado com você. É só que... você passa tanto tempo longe, em Nova York, e quando vem, parece que está sempre me avaliando, esperando que eu cometa um erro.

​James sentiu um golpe direto no centro do peito. Ele descruzou os braços, deu três passos longos e agachou-se no chão bem em frente a ela, quebrando a distância invisível que os separava.

​— Olha para mim, Hope — ele pediu, o tom de voz transbordando uma doçura que ele raramente mostrava ao mundo exterior.

​Hope ergueu os olhos.

​— Eu nunca passei um único segundo da minha vida esperando que você errasse — James disse, os olhos fixos nos dela, a mandíbula firme pela emoção. — Se eu pego no seu pé, se eu fico louco quando vejo aquele moleque ou qualquer outra pessoa tentar ditar o seu ritmo, é porque eu vi o quanto a vida pode ser injusta e rápida. Você é a coisa mais preciosa que essa família tem, Hope. Você é o motivo pelo qual eu continuei vindo a essa casa todos os fins de semana nos últimos dezoito anos. Eu não quero te controlar. Eu só tenho um pânico terrível de que o mundo lá fora te machuque.

​Hope engoliu em seco, observando a sinceridade crua no rosto do homem de trinta e sete anos diante dela. A pose de empresário implacável havia sumido por completo. Ela deu um sorriso fraco, de canto, os olhos marejando de leve.

​— O Ethan não vai me machucar, tio James. E se machucar... eu sei como fazer um tacle nele e te ligo para você processar a família dele — ela brincou, a voz falhando pelo choro contido.

​James soltou uma risada baixa, o peso nos ombros aliviando-se pela primeira vez em dias. Ele estendeu a mão grande e acariciou a bochecha de Hope, limpando uma lágrima que insistia em cair.

​— Acho bom mesmo. Meu escritório cobra caro, mas para você o serviço é de graça.

​Hope colocou o livro de Elara de lado na estante, levantou-se e estendeu as mãos para James, ajudando-o a ficar de pé. Ela o abraçou com força, enterrando o rosto no peito dele, aspirando o perfume familiar que sempre a fizera se sentir segura desde a infância. James envolveu-a em seus braços, apertando-a contra si, fechando os olhos enquanto beijava o topo da cabeça loira dela.

​— Promete que vai me ligar se precisar de qualquer coisa? — James sussurrou contra os cabelos dela. — Se o alojamento for ruim, se os professores forem idiotas... qualquer coisa, Hope. Eu pego o carro e estou lá em duas horas.

​— Eu prometo, dono da bola — ela respondeu contra o peito dele, afastando-se devagar com um sorriso brilhante. — Mas você vai ter que me deixar guiar o jogo agora.

​— Tudo bem, Styles. A posse de bola é sua — ele cedeu, dando um sorriso de canto.

​Eles saíram do quarto juntos, deixando o passado em seu devido lugar nas prateleiras. A trégua havia sido selada e a partida de Hope para a faculdade estava desenhada. Mas, enquanto desciam as escadas para ajudar com as malas finais, James não conseguia afastar a sensação de que o verdadeiro jogo da vida de Hope estava apenas começando. A contagem regressiva para os vinte anos dela continuava a avançar no relógio da parede, silenciosa, limpa e completamente imprevisível.