Livro II: O Eco dos Nossos Passos
5 O Peso do Silêncio
A terça-feira que antecedia a partida de Hope para o campus universitário amanheceu sob um céu cinzento e uma névoa baixa que cobria as ruas de West Valley. A casa dos Styles estava imersa em uma calmaria melancólica, o tipo de silêncio que precede as grandes mudanças. Caixas de papelão lacradas com fita adesiva acumulavam-se perto da porta da frente, cada uma etiquetada com a caligrafia firme de Hope.
Na cozinha, Sofia encarava uma caneca de café intocada. O coração de mãe apertava-se ao perceber que o ninho estava prestes a esvaziar. Ela olhou para o corredor quando ouviu passos pesados e lentos descendo as escadas.
James passou pelo arco da porta. Ele vestia uma calça escura e uma camiseta preta simples, com as mãos enterradas nos bolsos do moletom cinza. Seus olhos escuros carregavam olheiras profundas, denunciando que ele não havia pregado o olho desde a discussão acalorada que tivera com a afilhada no quarto de hóspedes.
— Bom dia, Sofia — James disse, a voz saindo mais rouca que o habitual. Ele caminhou até o balcão, servindo-se de café sem olhar diretamente para ela.
— Bom dia, James — Sofia respondeu, observando a rigidez nos ombros do amigo. Ela suspirou, apoiando os cotovelos na mesa. — Você e a Hope mal se olharam no café da manhã de ontem. James, ela vai embora amanhã cedo. Você realmente quer que a última memória dela com você aqui seja aquela discussão sobre o Ethan?
James travou com a caneca perto dos lábios. O maxilar dele se contraiu, e ele soltou o ar pesadamente pelo nariz antes de se sentar à mesa, de frente para Sofia.
— Eu só estou tentando proteger ela, Sofia — ele justificou-se, a voz baixa, mas carregada de uma frustração intensa. — Aquela universidade é enorme. O curso de jornalismo vai exigir tudo dela. Ela não precisa de um namorado de colégio agindo como uma âncora, prendendo-a em jantares e crises de ciúmes bobas enquanto ela devia estar construindo um futuro.
Sofia deu um sorriso triste, cobrindo a mão grande de James com a sua.
— James, você lembra de como nós éramos com dezoito anos? Lembra do Garret comigo? E... lembra de você com a Elara? Nós achávamos que sabíamos tudo sobre o mundo. Se alguém tentasse nos dizer o que fazer, nós fazíamos o oposto. A Hope tem o sangue dos Styles; quanto mais você pressionar, mais ela vai se agarrar ao Ethan só para te provar que está certa.
James desviou o olhar para a janela, onde a chuva fina começava a molhar o vidro. As palavras de Sofia ecoavam como uma verdade amarga. Ele não conseguia explicar, nem para si mesmo, o motivo de aquela proximidade de Ethan com Hope causar-lhe uma repulsa tão física e dolorosa. Parecia um roubo do tempo.
— Eu sei... — ele murmurou por fim, os nós dos dedos brancos ao redor da caneca. — Eu só não quero ver ela quebrar a cara. Eu prometi que cuidaria dela, Sofia.
— E você está cuidando — Sofia apertou os dedos dele com carinho. — Mas cuidar também significa deixar ir. Sabe onde ela está agora? Subiu até o antigo quarto da Elara. Ela disse que queria um tempo sozinha antes de terminar de fechar a última mala de mão. Vai lá conversar com ela, James. Conserta as coisas.
James permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois, assentiu lentamente, levantou-se da cadeira e deixou a caneca na pia. Ele subiu os degraus de madeira da casa antiga com passos calmos, sentindo o peito apertar a cada degrau.
A porta do antigo quarto de Elara — que agora servia como o escritório e santuário de memórias da família — estava apenas encostada.
James empurrou-a devagar. A luz suave do meio-dia entrava pela janela, iluminando Hope. Ela estava sentada no chão, de pernas cruzadas, bem em frente à estante onde as fotos e os livros da tia ficavam guardados. Em seu colo, ela segurava o clássico livro de bolso O Tempo que Me Resta. Ao ouvir o som da porta, ela não se virou imediatamente; apenas passou os dedos longos pela capa gasta.
— Eu sempre achei essa capa linda — Hope disse baixinho, a voz sem a habitual armadura de deboche. — A mamãe me contou que a tia Elara lia isso aqui no hospital quando sentia muita dor. Ela disse que a leitura fazia o tempo passar mais rápido.
James deu dois passos para dentro do quarto, mantendo uma distância respeitável. Ver Hope ali, cercada pelas memórias do passado e prestes a dar o passo em direção ao próprio futuro, fez sua garganta dar um nó insuportável.
— Fazia sim — James respondeu, a voz suave. Ele caminhou até a escrivaninha e encostou-se nela, cruzando os braços. — Ela dizia que cada página era uma linha de chegada que ela vencia.
Hope finalmente ergueu o rosto, fixando aqueles olhos azuis intensos em James. Não havia raiva no olhar dela hoje, apenas a vulnerabilidade de uma jovem de dezoito anos que estava prestes a deixar a segurança do lar pela primeira vez.
— Desculpa por ter entrado no seu quarto daquele jeito no sábado... e pelas coisas que eu disse — ela murmurou, baixando os olhos para o livro novamente. — Eu não queria ter gritado com você. É só que... você passa tanto tempo longe, em Nova York, e quando vem, parece que está sempre me avaliando, esperando que eu cometa um erro.
James sentiu um golpe direto no centro do peito. Ele descruzou os braços, deu três passos longos e agachou-se no chão bem em frente a ela, quebrando a distância invisível que os separava.
— Olha para mim, Hope — ele pediu, o tom de voz transbordando uma doçura que ele raramente mostrava ao mundo exterior.
Hope ergueu os olhos.
— Eu nunca passei um único segundo da minha vida esperando que você errasse — James disse, os olhos fixos nos dela, a mandíbula firme pela emoção. — Se eu pego no seu pé, se eu fico louco quando vejo aquele moleque ou qualquer outra pessoa tentar ditar o seu ritmo, é porque eu vi o quanto a vida pode ser injusta e rápida. Você é a coisa mais preciosa que essa família tem, Hope. Você é o motivo pelo qual eu continuei vindo a essa casa todos os fins de semana nos últimos dezoito anos. Eu não quero te controlar. Eu só tenho um pânico terrível de que o mundo lá fora te machuque.
Hope engoliu em seco, observando a sinceridade crua no rosto do homem de trinta e sete anos diante dela. A pose de empresário implacável havia sumido por completo. Ela deu um sorriso fraco, de canto, os olhos marejando de leve.
— O Ethan não vai me machucar, tio James. E se machucar... eu sei como fazer um tacle nele e te ligo para você processar a família dele — ela brincou, a voz falhando pelo choro contido.
James soltou uma risada baixa, o peso nos ombros aliviando-se pela primeira vez em dias. Ele estendeu a mão grande e acariciou a bochecha de Hope, limpando uma lágrima que insistia em cair.
— Acho bom mesmo. Meu escritório cobra caro, mas para você o serviço é de graça.
Hope colocou o livro de Elara de lado na estante, levantou-se e estendeu as mãos para James, ajudando-o a ficar de pé. Ela o abraçou com força, enterrando o rosto no peito dele, aspirando o perfume familiar que sempre a fizera se sentir segura desde a infância. James envolveu-a em seus braços, apertando-a contra si, fechando os olhos enquanto beijava o topo da cabeça loira dela.
— Promete que vai me ligar se precisar de qualquer coisa? — James sussurrou contra os cabelos dela. — Se o alojamento for ruim, se os professores forem idiotas... qualquer coisa, Hope. Eu pego o carro e estou lá em duas horas.
— Eu prometo, dono da bola — ela respondeu contra o peito dele, afastando-se devagar com um sorriso brilhante. — Mas você vai ter que me deixar guiar o jogo agora.
— Tudo bem, Styles. A posse de bola é sua — ele cedeu, dando um sorriso de canto.
Eles saíram do quarto juntos, deixando o passado em seu devido lugar nas prateleiras. A trégua havia sido selada e a partida de Hope para a faculdade estava desenhada. Mas, enquanto desciam as escadas para ajudar com as malas finais, James não conseguia afastar a sensação de que o verdadeiro jogo da vida de Hope estava apenas começando. A contagem regressiva para os vinte anos dela continuava a avançar no relógio da parede, silenciosa, limpa e completamente imprevisível.
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