Livro II: O Eco dos Nossos Passos

6 O Primeiro Dia do Resto da Vida



​O campus da universidade parecia um formigueiro humano naquela manhã de quarta-feira. Carros com porta-malas abarrotados estacionavam em fila dupla, jovens carregavam caixas de papelão rindo pelos gramados e o som de conversas cruzadas preenchia o ar fresco do início do semestre. No terceiro andar do Bloco C, o quarto 312 do alojamento feminino estava prestes a se tornar o novo universo de Hope.

​O espaço era pequeno, típico de república universitária: duas camas de solteiro encostadas nas paredes opostas, duas escrivaninhas de madeira clara e um grande janelão que dava vista para o pátio central.

​— Certo, onde eu coloco essa caixa que parece carregar uma tonelada de tijolos? — Garret perguntou, entrando no quarto arfante, com uma caixa imensa nos braços e a testa suada. Ele largou o fardo em cima de uma das camas com um suspiro de alívio.

​— Cuidado, pai! Essa aí são os meus livros de teoria da comunicação e o meu acervo de biografias esportivas — Hope alertou, saindo de dentro do pequeno armário embutido onde tentava organizar seus cabides. Ela usava uma calça legging preta e um moletom da universidade, com o cabelo preso em um coque despojado.

​Sofia entrou logo atrás, trazendo um jogo de lençóis floridos e dois travesseiros macios. Ela já começou a esticar o lençol elástico na cama com a habilidade de quem gerenciava uma casa inteira.

​— Se dependesse do seu pai, Hope, você só traria roupas de treino e três pares de tênis — Sofia brincou, ajeitando os travesseiros. — Graças a Deus o James tem um Mustang com um porta-malas decente para trazer o resto.

​Como se fosse invocado pelo nome, James Lâfrer cruzou o batente da porta. Ele vestia uma calça jeans escura, tênis e uma camiseta polo preta que destacava sua postura atlética. Ele carregava um frigobar cinza de última geração nos ombros com uma facilidade desconcertante, depositando-o com precisão no vão entre a escrivaninha e o armário.

​— O frigobar dos campeões está entregue — James anunciou, batendo as mãos para tirar a poeira invisível e dando seu clássico sorriso de canto. Ele olhou ao redor do quarto minúsculo, arqueando uma sobrancelha. — Tenho quase certeza de que a minha sala de reuniões em Manhattan é três vezes maior que esse quarto inteiro, Styles. Tem certeza de que não quer que eu te alugue um flat perto do campus?

​Hope caminhou até ele, cruzando os braços e adotando aquela pose marrenta que James conhecia tão bem.

​— Nem pensar, Lâfrer. Viver no alojamento faz parte da experiência raiz do jornalismo. Quero cobrir os esportes universitários sentindo o cheiro de café ruim e ouvindo os dramas das vizinhas de quarto de madrugada — ela rebateu, os olhos azuis brilhando de determinação. — E além do mais, se eu morar num flat, você vai inventar desculpas para mandar uma secretária abastecer a minha despensa toda semana.

​— E qual seria o problema disso? Economizaria o seu dinheiro para os sapatos — James deu de ombros, divertido.

​— O problema é que eu tenho dezoito anos e sei comprar o meu próprio macarrão instantâneo, obrigada — ela debochou, dando um empurrãozinho leve no braço dele.

​Garret e Sofia observavam os dois da beira da cama. Garret passou o braço pelos ombros da esposa, com um sorriso nostálgico no rosto.

​— Sabe, Sofi... ver esses dois discutindo por causa de espaço me lembra muito o James no vestiário do colégio, querendo confiscar o meu armário porque achava o dele muito perto do chuveiro — Garret relembrou, soltando uma risada limpa.

​— Nem me fale — Sofia suspirou, aproximando-se de Hope e segurando as mãos da filha. Os olhos de Sofia começaram a marejar, a ficha da despedida finalmente caindo. — Bom... o quarto está quase pronto. Seu pai e eu precisamos pegar a estrada antes que o trânsito da tarde piore.

​Hope sentiu a garganta apertar. A pose de garota durona vacilou por um segundo. Ela deu um passo à frente e entregou-se ao abraço de Sofia.

​— Vou sentir saudades da sua comida, mãe... e de você também, acho — Hope sussurrou, tentando quebrar o clima emotivo com uma brincadeira, mas apertando a mãe com força.

​— Eu te amo, minha menina. Se cuida, tá? Me liga todo dia, nem que seja por um minuto — Sofia pediu, beijando a bochecha dela repetidamente antes de se afastar para limpar as lágrimas.

​Garret foi o próximo. O homem grande envolveu a filha em um abraço urso, daqueles que tiravam os pés do chão.

​— Juízo nessa cabeça, Hope. Foca nos estudos, não vai inventar de virar a noite em festa de fraternidade. E se aquele tal de Ethan pisar na bola... você me liga que eu resolvo do jeito antigo — Garret murmurou perto do ouvido dela.

​— Pode deixar, pai. Ele está bem pianinho — Hope riu, devolvendo o abraço.

​Sofia e Garret caminharam até a porta. Sofia olhou de volta para James, que continuava parado perto da escrivaninha, com os braços cruzados e uma expressão serena.

​— James, você vem com a gente para almoçar no posto da rodovia? — Sofia perguntou.

​— Vão indo na frente, Sofi. Eu só preciso terminar de assinar o papel da garantia do frigobar com ela e já desço — James respondeu, apontando para o aparelho.

​— Tudo bem. Não demora, Lâfrer — Garret piscou, puxando Sofia pelo corredor. Suas vozes foram sumindo aos poucos, deixando o quarto 312 imerso em uma calmaria repentina.

​James permaneceu em silêncio por alguns segundos, apenas observando Hope. Ela havia se sentado na beira de sua cama recém-forrada, olhando para as próprias mãos descalças. A atmosfera entre eles havia mudado novamente, retornando àquela voltagem intensa e íntima do quarto de hóspedes, mas sem a raiva da discussão.

​James caminhou devagar e sentou-se na cadeira da escrivaninha, de frente para ela. Ele inclinou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

​— Assustada? — ele perguntou, a voz saindo baixa e incrivelmente macia.

​Hope ergueu os olhos azuis. Pela primeira vez em muito tempo, não havia deboche ou ironia neles. Havia apenas a vulnerabilidade pura da menina que ele vira crescer.

​— Um pouco — ela confessou, engolindo em seco. — É estranho pensar que hoje à noite eu não vou ouvir o meu pai rindo da televisão lá embaixo ou a minha avó batendo na porta para me dar bom dia. É como se... o jogo tivesse começado de verdade e eu não treinei o suficiente para o primeiro quarto.

​James estendeu a mão grande, espalmando-a sobre o colchão, bem ao lado da perna dela.

​— Você treinou a vida inteira para isso, Hope. Você tem a garra do seu pai, a sensibilidade da sua mãe e... a teimosia mais bonita que eu já vi em alguém — James disse, fixando os olhos escuros nos dela com uma firmeza avassaladora. Ele puxou uma pequena caneta tática de metal do bolso do paletó que havia deixado na cadeira e a colocou na mão de Hope. — Use isso para escrever as suas matérias. É uma caneta de alta linha, durável. Como você.

​Hope olhou para o objeto de metal em sua mão e sorriu, sentindo as lágrimas finalmente transbordarem e correrem por suas bochechas. Ela limpou o rosto rapidamente com as costas da mão.

​— Você é muito brega quando quer, Lâfrer — ela tentou brincar, a voz embargada.

​— Sou um homem de negócios sentimental, Styles. É um defeito de fabricação — James deu um sorriso fraco, levantando-se da cadeira. Ele sabia que se ficasse mais um minuto ali, não conseguiria ir embora. — Está na minha hora. Tenho um voo para Chicago às sete da noite.

​Hope levantou-se da cama de uma vez. Ela deu um passo rápido e jogou os braços ao redor do pescoço de James, abraçando-o com uma intensidade que o fez prender a respiração por um segundo. James fechou os olhos, envolvendo a cintura dela com os braços fortes, cravando os dedos no moletom universitário dela. Ele a apertou contra o peito, sentindo os batimentos acelerados de Hope colidirem com os seus.

​— Obrigada por não desistir de mim... mesmo quando eu sou uma idiota arrogante — ela sussurrou contra o ombro dele.

​James afastou-se de leve, apenas o suficiente para olhar o rosto dela. Ele usou os polegares para limpar as últimas lágrimas das bochechas de Hope, mantendo as mãos espalmadas nas laterais do rosto dela por alguns segundos que pareceram durar uma eternidade.

​— Eu nunca vou desistir de você, minha princesa. Nunca — James prometeu, a voz grave e carregada de uma promessa silenciosa. Ele deixou um beijo demorado e carinhoso no topo da testa dela. — Voa alto, Styles.

​— Deixa comigo, dono da bola — ela sorriu, dando um passo para trás.

​James pegou seu paletó na cadeira, jogou-o sobre o ombro e caminhou até a porta. Ele não olhou para trás quando cruzou o batente; sabia que se olhasse, o quarterback dentro dele daria meia-volta para protegê-la do mundo por mais tempo.

​Cinco minutos depois, as portas de metal do elevador do bloco se abriram no térreo. James cruzou o saguão principal do campus a passos largos, ignorando o movimento dos estudantes ao redor. Ele chegou até o estacionamento dos fundos, onde o Mustang preto brilhava sob o sol fraco da tarde.

​Ele abriu a porta, jogou o paletó no banco do passageiro e sentou-se ao volante. James apoiou as duas mãos no topo do couro do volante e olhou para o para-brisa, encarando o prédio do Bloco C à distância.

​Sua respiração estava pesada, e um vazio incômodo e gélido parecia ter se instalado no centro de seu peito. Ele havia deixado sua menina ali. A princesinha que ele carregara no colo, a jovem de dezoito anos que desafiava sua autoridade e que exalava o mesmo perfume de outono que outrora havia quebrado sua alma... agora pertencia ao mundo exterior.

​James girou a chave na ignição. O motor do Mustang roncou alto, quebrando o silêncio do estacionamento. Ele engatou a primeira marcha, pisou no acelerador e manobrou o carro em direção à rodovia, deixando o campus para trás. No espelho retrovisor, o prédio de Hope foi ficando cada vez menor, mas o relógio invisível da vida dela continuava a correr, avançando implacavelmente em direção aos vinte anos, onde o verdadeiro destino de ambos os aguardava na curva do tempo.