Livro II: O Eco dos Nossos Passos

2 O Dono da Bola e a Dona do Jogo



​O quarto de hóspedes no final do corredor da casa dos Styles mantinha o mesmo padrão há anos: uma cama de casal larga com edredom azul-marinho, uma mesa de cabeceira de madeira escura onde James costumava largar seus relógios e uma poltrona de couro que ele mesmo havia comprado para garantir um lugar confortável para ler seus contratos de madrugada. Embora James morasse em sua própria cobertura no centro da cidade, aquele quarto era seu porto seguro oficial nos fins de semana em West Valley.

​Depois do jantar barulhento, James havia subido para trocar a camisa de botões por algo mais confortável. Ele agora vestia uma camiseta preta simples e uma calça de moletom cinza, mexendo em alguns papéis da agência espalhados em cima da cama.

​A porta do quarto não foi apenas batida; ela foi aberta com um chute suave e coreografado. Hope entrou trazendo duas canecas de chocolate quente com marshmallows flutuando no topo, equilibrando-as com a habilidade de quem passava os dias fazendo acrobacias no ar. Ela ainda usava a calça do uniforme de líder de torcida, mas havia trocado o topo por um moletom gigante de James que ela havia "furtado" do armário dele no ano passado.

​— Serviço de quarto para o empresário mais ocupado do país — Hope anunciou, caminhando até a cama e largando uma das canecas bem em cima do relatório financeiro que James lia.

​— Ei, Styles! Cuidado com a papelada, isso aí vale alguns milhões de dólares — James reclamou, mas o tom era puramente divertido enquanto ele afastava os papéis e pegava a caneca.

​Hope não pediu licença. Ela simplesmente pulou na cama, sentando-se de pernas cruzadas bem no meio do colchão, de frente para ele, e deu um gole longo em seu chocolate, ficando com um bigode de espuma branca na boca.

​— Papelada não tem sentimentos, tio James. Eu tenho — ela rebateu, limpando a boca com a manga do moletom dele. — E além do mais, você me deve atenção. Você passou as últimas duas semanas enfiado em reuniões em Manhattan e me deixou aqui tendo que aguentar as piadas de tiozão do meu pai sozinha.

​James soltou uma risada nasalada, encostando as costas na cabeceira da cama e observando a afilhada.

— O Garret continua tentando contar aquela piada do quarterback que perdeu o ônibus?

​— Sim! Três vezes só essa semana! — Hope jogou as mãos para o alto, horrorizada. — Eu quase pedi para a mamãe confiscar a planilha de treinos dele como punição. Mas mudando de assunto... vamos voltar ao tópico principal do jantar. Eu vi o jeito que você desconversou lá embaixo. Quem é a loira da foto?

​James suspirou, fingindo cansaço, mas seus olhos escuros brilhavam de divertimento.

— Eu já te disse, Hope. Clara Vance. Ela é a principal acionista da linha de tênis que quer patrocinar o novo running back que eu agenciei. Foi um jantar de negócios. Estávamos com mais quatro advogados na mesa, mas o fotógrafo convenientemente cortou eles da imagem.

​Hope semicerrou os olhos azuis, inclinando o corpo para a frente de forma conspiratória.

— Sei... Um jantar de negócios onde ela estava rindo de alguma piada sua e tocando no seu braço. Eu analisei os pixels da foto, Lâfrer. Sou uma líder de torcida, meu trabalho é observar os detalhes do campo. E ela estava jogando na ofensiva.

​— Jogando na ofensiva? Você anda passando tempo demais com o seu pai no tático do time — James esticou o braço e deu um peteleco leve na testa de Hope, fazendo-a rir e reclamar. — Não tem nenhuma ofensiva, pirralha. Eu tenho trinta e sete anos, sou um solteirão convicto e o meu único foco é garantir que os meus atletas ganhem campeonatos e que a minha afilhada teimosa não gaste todo o meu dinheiro em sapatos de marca.

​Hope endireitou as marias-chiquinhas com um ar de superioridade, encostando-se nos travesseiros dele.

— É uma função nobre, reconheço. Mas é sério, tio... — o tom dela suavizou um pouco, tornando-se aquele tom cúmplice que eles só usavam quando estavam longe do resto da família. — Você passa tempo demais trabalhando. Às vezes eu fico pensando se você não se sente sozinho naquela cobertura gigante em Nova York.

​James olhou para o chocolate quente por um instante. A pergunta de Hope tocou em um lugar guardado a sete chaves em seu peito, mas ele não deixou o sorriso desaparecer.

— Eu não tenho tempo para ficar sozinho, Hope. Quando eu não estou em um avião, estou aqui ouvindo você reclamar do meu prato ou sendo obrigado a assistir aos seus ensaios na garagem. Meu mundo é bem cheio, sabia?

​— Acho bom mesmo — Hope deu um sorriso caloroso, estendendo o pé e cutucando a perna de James sob o edredom. — Porque o dia que você arrumar uma namorada, ela vai ter que passar por um teste de aptidão física, uma entrevista psicológica comigo e aprovação unânime do comitê. E eu sou uma juíza muito rigorosa.

​— Eu não tenho dúvidas disso — James riu, balançando a cabeça. Ele pegou a caneca de Hope, que já estava vazia, e a colocou na mesa de cabeceira junto com a sua. — Agora, chega de interrogatório. Amanhã você tem aula cedo e eu tenho que dirigir de volta para o escritório às seis da manhã. Trata de ir para o seu quarto.

​Hope fez um bico dramático, mas começou a se mover para sair da cama. Antes de descer, ela parou na beirada e olhou para ele, os olhos azuis brilhando sob a luz fraca do abajur.

​— Tio James?

​— Oi, Hope.

​— Obrigada por ter vindo hoje. Eu sei o quanto a sua agenda é louca, mas... ver você na arquibancada faz o campo parecer o lugar certo.

​James sentiu um calor familiar invadir seu peito. Ele estendeu a mão, bagunçando de leve o rabo de cavalo dela.

— Eu nunca perderia isso, Styles. Nem por um contrato de um bilhão de dólares. Boa noite.

​— Boa noite, dono da bola — ela piscou, saindo do quarto e fechando a porta com suavidade.

​James recostou-se novamente nos travesseiros, o silêncio do quarto retornando aos poucos. Ele olhou para a foto de Elara que guardava discretamente dentro de sua carteira em cima do criado-mudo. Sete anos haviam se passado, e cada pedaço de maturidade que ele exibia vinha da promessa que fizera naquele hospital. Ele olhou para a porta por onde Hope acabara de sair e sorriu sozinho. O futuro estava acontecendo exatamente como Elara queria: cheio de vida, de marra e de uma luz que nem o tempo ousava apagar.