Livro II: O Eco dos Nossos Passos

3 Dezoito Invernos e uma Linha no Gramado



​A decoração em tons de dourado e branco transformava o salão da sede social de West Valley em um cenário vibrante. Balões gigantes formavam o número 18 atrás da mesa do bolo. A música eletrônica batia forte nas caixas de som, ditando o ritmo da pista de dança lotada de adolescentes. O clima era de euforia pura: Hope Styles Lioncort finalmente havia atingido a maioridade e, com as cartas de aceitação da faculdade de jornalismo esportivo já assinadas para o próximo ano, ela exalava a confiança de quem tinha o mundo inteiro na palma da mão.

​James Lâfrer cruzou o portal do salão passando a mão pelo cabelo escuro, um tanto desalinhado pela viagem às pressas. O relógio marcava quase onze da noite. Ele vestia uma calça de alfaiataria escura e uma camisa de linho azul-marinho com as mangas dobradas. Suas passadas longas pararam abruptamente assim que seus olhos escuros varreram a pista de dança.

​Lá estava ela. Hope usava um vestido justo de alcinhas prateado que brilhava sob os canhões de luz. Ela ria alto, jogando o rabo de cavalo para trás, enquanto dançava com as mãos apoiadas nos ombros de um rapaz alto, de ombros largos, que vestia a jaqueta oficial dos Wolverines. O garoto mantinha as mãos firmes e possessivas na cintura de Hope, cochichando algo no ouvido dela que a fez soltar uma risada boba.

​Um sentimento estranho, uma mistura de repulsa imediata com um incômodo gélido que ele não soube identificar, subiu pelo peito de James. Ele trancou o maxilar, os punhos cerrando-se sutilmente dentro dos bolsos.

​James desviou o olhar com rispidez e caminhou em direção à mesa principal, onde a família estava reunida. Lucian e Elise conversavam com um casal de vizinhos, enquanto Sofia e Garret dividiam uma sobremesa.

​— Boa noite — a voz de James saiu mais grave e seca do que o normal, chamando a atenção de todos na mesa.

​— James! Até que enfim, cara! — Garret levantou-se, estendendo a mão para o habitual cumprimento. — Achei que o trânsito da ponte tinha te engolido de vez.

​— O voo atrasou um pouco. Mas eu cheguei — James respondeu, os olhos voltando-se quase que involuntariamente para a pista de dança. Ele puxou uma cadeira vazia, sentando-se de lado, e apontou discretamente com o queixo na direção do gramado de luzes. — Quem é o sujeito com as mãos na cintura da Hope?

​Sofia deu um sorriso de lado, trocando um olhar cúmplice com Elise antes de responder:

​— Aquele é o Ethan, James. O quarterback titular deste ano. Eles começaram a sair há uns dois meses, mas o pedido oficial de namoro foi feito ontem à noite, para comemorar os dezoito anos dela.

​— Namorado? — James repetiu a palavra, e o tom de desdém na sua voz foi tão evidente que Garret chegou a erguer as sobrancelhas. — Ela tem dezoito anos hoje, Sofia. Vai para a faculdade daqui a alguns meses. Não precisa de um garoto de colégio que acha que o mundo gira em torno de um passe de quarenta jardas segurando a cintura dela daquele jeito.

​Garret soltou uma risada limpa, batendo no ombro de James.

— Olha quem fala, Lâfrer! Você fazia exatamente a mesma coisa na idade dele, esqueceu? O moleque é bom, tem futuro na liga universitária. Deixa a menina dançar.

​James não respondeu. Ele apenas pegou o copo de uísque que Lucian lhe ofereceu, mantendo os olhos fixos no tal Ethan com a mesma frieza que usava em mesas de negociações corporativas.

​Mais tarde, após o encerramento da festa, a calmaria retornou à casa dos Styles. Passava das duas da manhã quando James terminou de organizar suas coisas no quarto de hóspedes. Ele havia trocado a roupa da festa por uma calça de moletom escura e estava encostado na mesa de cabeceira, segurando um copo de água, tentando espantar a tensão que insistia em travar seus ombros.

​Três batidas curtas e ritmadas soaram na porta.

​— Entra — James disse.

​A porta se abriu e Hope passou por ela. James piscou, sentindo um baque sutil no peito. A menina que usava moletons largos e marias-chiquinhas parecia ter ficado na semana passada. Ela ainda usava o vestido prateado, mas estava descalça, segurando as sandálias de salto alto em uma das mãos. O cabelo loiro caía em ondas maduras pelas costas, e a maquiagem leve destacava a curvatura do maxilar e a intensidade daqueles olhos azuis que pareciam ler a alma de James. Ela estava visivelmente mais encorpada, com a postura de uma mulher que acabara de tomar posse de si mesma.

​— Pensei que você fosse dormir sem me dar o meu abraço de parabéns oficial, Lâfrer — Hope disse, a voz saindo em um tom macio, mas carregada daquela ironia clássica.

​James largou o copo e abriu os braços. Hope caminhou até ele e o abraçou. O perfume dela — algo que misturava baunilha com um toque floral maduro — atingiu o olfato de James de uma forma diferente, fazendo-o tensionar o corpo antes de retribuir o abraço, apertando-a com o carinho protetor de sempre.

​— Feliz aniversário, Styles — James sussurrou perto do ouvido dela, afastando-se logo em seguida, mas mantendo as mãos em seus ombros. — Dezoito anos. Oficialmente maior de idade. Já pode ser presa por roubar as minhas camisetas.

​— Vou continuar roubando do mesmo jeito, o estatuto não mudou — ela brincou, jogando as sandálias no canto do quarto e jogando-se na poltrona de couro de James, cruzando as pernas torneadas com uma naturalidade desconcertante. — E então? O que achou da festa? Você chegou com uma cara de quem tinha acabado de perder um cliente de dez milhões de dólares.

​James caminhou até a beirada da cama, sentando-se de frente para ela e cruzando os braços. O semblante dele voltou a ficar sério.

​— A festa estava ótima. Seus avós estavam radiantes. Mas... eu não sabia que os critérios para entrar nessa família tinham caído tanto.

​Hope arqueou uma das sobrancelhas perfeitas, um sorriso de canto brotando em seus lábios bem desenhados.

— Critérios? Do que você está falando, tio James?

​— Estou falando daquele garoto. O Ethan — James soltou o nome como se estivesse provando algo amargo. — Onde a sua cabeça estava quando aceitou namorar um quarterback de colégio, Hope? O cara passa metade do tempo com as mãos na sua cintura na pista de dança e a outra metade tentando parecer importante com aquela jaqueta do time. Você é inteligente demais para esse tipo de clichê.

​Hope soltou uma risada limpa e debochada, jogando a cabeça para trás na poltrona. Ela fixou os olhos azuis bem no fundo dos olhos de James, sustentando o olhar com uma audácia que o deixou desconfortável.

​— Ah, entendi... O grande James Lâfrer está incomodado com o quarterback titular — ela provocou, a voz mansa e carregada de deboche. — Sabe o que eu acho, tio? Acho que isso é dor de cotovelo profissional. O Ethan tem um braço incrível, o passe dele é mais rápido do que o seu era nos vídeos que o meu pai me mostrou. E ele é lindo, caso você não tenha reparado com toda essa sua marra de empresário de Nova York.

​James sentiu o sangue esquentar. Ele inclinou o corpo para a frente, a voz baixando para um tom perigosamente firme.

— Não tem nada a ver com o esporte, Hope. Tem a ver com o fato de que você vai para a faculdade no próximo ano. Rapazes daquela idade só pensam em duas coisas, e nenhuma delas inclui o seu futuro ou a sua carreira. Eu conheço o tipo. Eu fui o tipo.

​Hope levantou-se da poltrona lentamente. Ela caminhou até a cama, parando a poucos centímetros de James. O topo da cabeça dela agora alinhava-se quase perfeitamente com o queixo dele. Ela olhou para ele de cima, com um sorriso desafiador e um brilho travesso nas pupilas azuis.

​— Mas você mudou, não mudou, Lâfrer? — ela sussurrou, a voz destilando puro deboche enquanto se inclinava de leve para perto dele. — Se um bad boy egocêntrico como você conseguiu virar esse homem todo certinho, o Ethan também tem salvação. Não se preocupa tanto, tio. Eu sei exatamente como segurar a bola no jogo.

​James engoliu em seco, sentindo uma tensão elétrica estranha e sufocante cortar o espaço entre eles. Ele abriu a boca para rebater, mas Hope foi mais rápida. Ela deu um passo para trás, pegou suas sandálias no chão com uma mão e caminhou em direção à porta do quarto.

​Antes de sair, ela parou no batente, virou-se de lado e piscou para ele, o vestido prateado captando a última luz do abajur.

​— Durma bem, tio James. Tenta não ter pesadelos com o número da jaqueta do meu namorado — ela debochou com um risinho, saindo e fechando a porta com um clique suave.

​James permaneceu sentado na beirada da cama por longos minutos, o silêncio do quarto parecendo subitamente pesado demais. Ele passou a mão pelo rosto, sentindo o coração bater mais rápido do que o normal. O incômodo com o namorado de Hope ainda queimava em seu peito, mas, pela primeira vez em dezoito anos, James sentiu um medo abstrato e inexplicável do que o tempo estava transformando aquela menina. E a contagem regressiva para os vinte anos dela continuava a correr, silenciosa e implacável.