Livro II: O Eco dos Nossos Passos
1 O Azul de Sempre e Novas Promessas
Os refletores de West Valley High acenderam-se com um estalo familiar, banhando o gramado verde com uma luz branca e intensa. O cheiro de pipoca e o burburinho da torcida local preenchiam o ar frio do início de outono. Nos bastidores do vestiário feminino, o clima era de pura adrenalina.
Hope Styles Lioncort encarou o próprio reflexo no espelho de moldura de metal. Aos dezessete anos, a menina havia se tornado o centro das atenções por onde passava. Os longos cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto, adornado por um grande laço azul e dourado. O uniforme de líder de torcida — as mesmas cores que sua mãe e sua tia haviam defendido — ajustava-se perfeitamente ao seu corpo atlético. Mas eram os olhos, um azul-claro profundo e cortante, que faziam qualquer um congelar.
Ela respirou fundo, ajeitando as sapatilhas brancas. Sentia o coração bater no ritmo da fanfarra que já aquecia do lado de fora. Ela sabia o peso daquele gramado. Seu pai, Garret, havia sido o capitão da defesa e uma lenda ali. Seu tio, James, o quarterback intocável. E sua tia Elara... bem, a história de sua tia era o próprio alicerce daquela escola.
— Vamos lá, Hope! Três minutos para o show de abertura! — gritou a capitã das cheerleaders, batendo palmas na porta.
— Já estou indo! — Hope respondeu. Ela fechou os olhos por um segundo, levou a mão ao peito e sussurrou: — Olha por mim, tia El.
Na arquibancada principal, a família Styles ocupava as primeiras fileiras, logo atrás do banco de reservas. Garret usava uma jaqueta antiga do time, agora um pouco apertada nos ombros, e mantinha o braço ao redor de Sofia. Sofia, com seus trinta e cinco anos, exibia uma beleza madura e os mesmos cabelos castanhos na altura dos ombros; seus olhos brilhavam de expectativa. Logo ao lado, Lucian e Elise, com os cabelos salpicados de branco, seguravam um cartaz brilhante que dizia: "Voa, Hope!".
— O James vai se atrasar, não vai? — Sofia comentou, olhando para o relógio no pulso e depois para a entrada da arquibancada. — Ele prometeu que vinha direto de Nova York após a reunião com os patrocinadores da Liga.
— Conhecendo o Lâfrer, ele vai quebrar o limite de velocidade, mas não perde a estreia da afilhada por nada — Garret riu, apertando o ombro da esposa. — O cara é o maior empresário de marketing esportivo do estado, mas vira um bobão quando a Hope estala os dedos.
Nesse exato momento, um burburinho correu pela fileira de trás. James Lâfrer vinha subindo os degraus de concreto a passos largos. Aos trinta e sete anos, o tempo tinha sido incrivelmente generoso com ele. O maxilar era marcado, os cabelos escuros estavam cortados rente, e o terno sob medida, sem gravata, denunciava o homem de negócios implacável que se tornara. No entanto, ao avistar a família, a postura corporativa sumiu, dando lugar ao sorriso de canto de sempre.
— Quem disse que eu ia me atrasar? — James anunciou, deslizando para o assento vago ao lado de Sofia, arrumando o paletó. Ele estava um pouco arfante. — Quase levei três multas na rodovia, mas o Mustang ainda corre como nos velhos tempos.
— Just em tempo, filho — Lucian disse, estendendo a mão grande para um aperto firme com James. — Elas vão entrar.
O som das cornetas explodiu e a torcida gritou. O grupo de líderes de torcida entrou no campo correndo, os pompons dourados brilhando sob os refletores. No centro da formação, liderando a linha de frente, estava Hope.
A música começou, e a apresentação foi impecável. Hope executava cada acrobacia com uma precisão cirúrgica e uma energia contagiante. No clímax da coreografia, ela foi lançada no ar em um basket toss, executando um mortal perfeito contra o céu escuro antes de ser amparada com segurança. Ao pousar, ela procurou a arquibancada com o olhar e apontou diretamente para onde eles estavam, abrindo um sorriso teimoso e brilhante.
Elise cobriu a boca, as lágrimas já descendo por suas bochechas.
— Meu Deus, Lucian... olhe para ela. É como ver o passado e o futuro juntos.
Sofia abraçou Garret de lado, limpando o canto dos olhos. James permaneceu em silêncio. Seus olhos escuros estavam fixos na sobrinha, sentindo um misto de orgulho e uma pontada de saudade que nunca desaparecia por completo.
— Ela é foda, James — Garret sussurrou, batendo no ombro do amigo.
— É sim, cara — James respondeu, o olhar suavizando. — Ela é perfeita.
Mais tarde, a comemoração transferiu-se para o cenário de sempre: a calorosa casa dos Styles. O cheiro de lasanha caseira preenchia a sala de jantar. A mesa estava bagunçada, cheia de copos e risadas. Hope, ainda usando metade do uniforme e com o laço azul pendurado no pescoço, devorava seu segundo pedaço de bolo enquanto todos comentavam sobre o jogo.
James estava recostado na cadeira, com um copo de uísque na mão, observando a dinâmica da família. Ele havia deixado o paletó no encosto e estava com os primeiros botões da camisa abertos.
— ...e aí, quando a capitã me jogou, eu só pensei: "Se eu cair de cara na grama, meu pai me corta da herança" — Hope contava, gesticulando com o garfo, fazendo todos rirem.
— Eu nunca faria isso, mocinha. Mas a sua mãe provavelmente te faria limpar o banheiro por uma semana — Garret rebateu do outro lado da mesa.
— Falando em herança e futuro... — Hope mudou o foco repentinamente. Seus olhos azuis e travessos fixaram-se em James, cruzando os braços sobre a mesa. — Tio James, nós precisamos ter uma conversa muito séria. De negócios. E de família.
James arqueou uma sobrancelha, erguendo o copo em um brinde silencioso.
— Sou todo ouvidos, Styles número três. O que o meu escritório de advocacia pode fazer por você hoje? Quer um contrato de patrocínio para pompons?
— Não faz piada, Lâfrer — ela o chamou pelo sobrenome, exatamente como a tia fazia quando estava irritada. Ela puxou o celular do bolso do moletom e o colocou em cima da mesa, deslizando a tela para mostrar uma foto de uma coluna de fofocas sociais de Nova York. Na imagem, James aparecia jantando em um restaurante chique ao lado de uma renomada modelo e investidora de Manhattan. — Quem é essa mulher? E por que ela está tão perto de você nessa foto?
Sofia abafou uma risada com o guardanapo. Garret cruzou os braços, observando o amigo ser colocado na parede por uma adolescente de dezessete anos.
— O nome dela é Clara, Hope. Ela é uma das diretoras da marca de materiais esportivos que assinou com o meu cliente — James explicou, mantendo o tom calmo, embora o canto de sua boca entregasse a diversão. — Estávamos apenas celebrando o fechamento do contrato. É trabalho.
— Trabalho, sei... — Hope semicerrou os olhos, apontando o dedo indicador para ele. — Deixa eu te lembrar de uma regra fundamental do estatuto da nossa família: você é o meu tio. O tio solteirão, gato, rico e bem-sucedido que me leva para fazer compras e me dá os melhores conselhos. Você não tem permissão para se casar, arrumar namorada ou ter outra prioridade que não seja eu. Ficou claro? Se ela tentar entrar na família, eu invento uma coreografia de expulsão para ela no meio do colégio.
A mesa inteira explodiu em gargalhadas. Lucian batia na mesa de tanto rir, enquanto Elise balançava a cabeça.
— Você ouviu o veredito, James! — Garret provocou, apontando para o amigo. — A dona do time já deu a ordem. Vai ter que rescindir o contrato com a namorada.
— Ela não é minha namorada, seus idiotas — James riu, jogando o guardanapo de pano na direção de Garret, que o pegou no ar. Ele voltou o olhar para Hope, sua expressão tornando-se incrivelmente terna. — Fica tranquila, Hope. Nenhuma diretora de Nova York vai tirar o seu posto de garota favorita do meu mundo. O contrato de exclusividade é seu.
— Acho bom mesmo — Hope sorriu, satisfeita, voltando a atacar o bolo. — Porque eu tenho planos para o meu aniversário de dezoito anos e você vai ter que pagar a viagem.
James sorriu e bebeu um gole do uísque, deixando o som das risadas da família Styles preencher seus ouvidos. Tudo parecia perfeito, estável e sob controle.
Ele olhou de relance para a janela, observando o reflexo das luzes da cidade. Faltavam três anos para o aniversário de vinte anos de Hope. Três anos de uma calmaria que James achava que duraria para sempre. Mas o tempo, aquele velho conhecido que outrora havia devastado sua juventude, estava apenas esperando o momento certo para girar os ponteiros novamente. Um segredo, uma mudança que nem a maturidade dele e nem a energia de Hope seriam capazes de deter, já estava silenciosamente a caminho.
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