​O sol da manhã batia contra as vidraças do escritório de James em Manhattan, mas a vista do trigésimo andar não conseguia prender sua atenção. Ele encarava a tela do computador sem realmente ler os e-mails quando o celular sobre a mesa começou a vibrar. O nome de Sofia piscou no visor.

​— Sofia? Tudo bem? — James atendeu, encostando o aparelho no ouvido e girando a cadeira de couro.

​— James, oi. Só liguei para avisar que a festa de despedida da Hope vai ser neste sábado, aqui em casa — a voz de Sofia veio acompanhada de um suspiro nostálgico. — Ela já arrumou quase todas as malas. Está eufórica com a mudança para o alojamento da faculdade na semana que vem. Vai ser a despedida oficial.

​James sentiu um aperto estranho no peito, uma sensação de que as coisas estavam se movendo rápido demais. Ele endireitou a postura, a voz assumindo o tom firme de sempre.

​— Eu vou estar aí, Sofia. Você sabe que eu não perco nada importante dela. Vou cancelar as reuniões do fim de semana e dirijo na sexta à noite.

​— Obrigada, James. Ela vai ficar feliz. Você sabe o quanto a sua presença importa para ela.

​O sábado à tarde na casa dos Styles exalava o clima agridoce das partidas. O jardim dos fundos estava decorado com bandeirolas da universidade, e vários amigos do colégio comiam hambúrgueres perto da churrasqueira.

​Hope estava radiante. O cabelo loiro estava solto, caindo em ondas pelos ombros, e ela usava um short jeans curto com uma blusa branca leve. Mas o que realmente chamava a atenção — e incomodava James profundamente — era a presença constante de Ethan. O quarterback estava como uma sombra ao redor dela, com o braço permanentemente passado pelo pescoço de Hope, puxando-a para beijos rápidos a cada cinco minutos.

​James havia chegado mais cedo daquela vez. Ele estava encostado perto da varanda, vestindo uma calça escura e uma camisa cinza com as mangas dobradas, segurando um copo de uísque com gelo. Seus olhos escuros e severos não saíam do casal por um segundo, acompanhando cada toque, cada risada e cada demonstração de afeto com um desdém que ele mal se dava ao trabalho de esconder.

​Garret aproximou-se, trazendo uma garrafa de cerveja na mão, e encostou-se no parapeito ao lado do amigo.

​— O moleque conseguiu uma bolsa excelente na mesma universidade, sabia? — Garret comentou, olhando para a filha com orgulho. — Eles vão estudar no mesmo campus. É bom que um cuida do outro.

​— Hum — James resmungou, dando um gole longo no uísque, o olhar fixo no momento em que Ethan apertou a cintura de Hope para erguê-la no ar.

​— O Sr. Styles disse que a mudança vai ser puxada. Você vai nos ajudar a carregar os móveis do alojamento na quarta-feira? — Garret tentou puxar assunto novamente.

​— Vou — James respondeu, seco, monossilábico.

​Garret franziu o cenho, olhando de lado para o melhor amigo. Ele percebeu a tensão na mandíbula de James e a forma quase possessiva e irritada com que ele vigiava Hope.

​— Cara, você está bem? Parece que está prestes a entrar em campo para quebrar o pescoço do running back adversário. Relaxa um pouco, é a despedida da menina.

​— Estou ótimo, Garret — James cortou, a voz fria. Ele virou o resto do uísque de uma vez só. — Só estou cansado da viagem. Vou subir para tomar um banho e descansar um pouco antes do jantar.

​O quarto de hóspedes estava abafado. James entrou, trancou a porta e foi direto para o banheiro. Deixou a água fria correr pelo corpo por longos minutos, tentando acalmar os pensamentos e aquela irritação irracional que parecia queimar sob sua pele toda vez que via Ethan tocar em Hope.

​Quando terminou, ele saiu do box completamente nu. O corpo de trinta e sete anos era imponente, mantido por anos de treinos pesados. Ele pegou uma toalha pequena e começou a secar os cabelos escuros, enquanto uma segunda toalha maior estava apenas jogada displicentemente sobre as suas costas, cobrindo seus ombros.

​Foi nesse exato segundo que o som do trinco correu. A porta do quarto, que James achava ter trancado, mas que apenas não havia encaixado direito, abriu-se de uma vez.

​Hope entrou correndo, com o celular na mão.

— Tio James, a mamãe pediu para ver se você...

​A frase morreu na garganta dela. Hope paralisou a dois passos de distância da entrada. Seus olhos azuis se arregalaram em puro choque ao colidirem com a visão de James completamente nu na penumbra do quarto, as gotas de água ainda escorrendo pelo seu peito largo e pelo abdômen definido.

​— Meu Deus! — Hope soltou um arquejo agudo, o rosto corando instantaneamente até a raiz dos cabelos. Ela largou o celular no chão, cobriu os olhos com as duas mãos com força e virou-se de costas para ele em um movimento brusco. — Tio James! Por que você não trancou a porta?!

​James, apesar do susto inicial, manteve o controle. Ele não entrou em pânico. Com movimentos rápidos e precisos, ele puxou a toalha que estava em suas costas e a amarrou firmemente ao redor da cintura, cobrindo-se. Ajeitou a toalha menor no pescoço e respirou fundo, sentindo uma lufada de ar quente subir pelo seu próprio pescoço.

​— Eu achei que tinha trancado, Hope. E a regra da casa diz que você deve bater antes de entrar — James disse, a voz saindo mais rouca e grave devido à situação. Ele limpou a garganta. — Pode se virar. Já estou coberto.

​Hope hesitou por um segundo, abaixando as mãos devagar. Ela se virou de frente, o rosto ainda intensamente vermelho, as pupilas dilatadas. Ela evitou olhar para o peito nu dele, fixando os olhos direto nos olhos escuros de James. A atmosfera no quarto havia mudado; não era mais a dinâmica leve de tio e sobrinha. Havia uma voltagem pesada e desconfortável ali.

​— Desculpa... eu não sabia — ela murmurou, cruzando os braços de forma defensiva, tentando recuperar a pose marrenta de sempre. — A porta estava encostada. Só vim ver se você ia demorar para descer. O Ethan quer se despedir de você antes de ir embora.

​Ao ouvir o nome do rapaz, a pouca paciência que restava em James evaporou. A irritação do dia inteiro explodiu em suas palavras.

​— Ele já vai embora? Ótimo. Já passou tempo demais aqui — James soltou, caminhando até o guarda-roupa e pegando uma camiseta preta, vestindo-a com irritação, embora ainda estivesse de toalha na cintura.

​Hope franziu o cenho, dando um passo à frente. O embaraço de segundos atrás foi substituído por uma faísca de fúria.

— Qual é o seu problema com ele, James? — ela deixou o "tio" de lado, a voz subindo um tom. — Você passou a tarde inteira me olhando como se eu estivesse cometendo um crime. O Ethan é o meu namorado. Ele é um cara incrível, me respeita, e foi aceito na mesma faculdade que eu! Por que você o trata como se ele fosse um lixo?

​James virou-se de frente para ela, os olhos faiscando. A proximidade entre os dois no quarto pequeno tornava tudo mais intenso.

— Eu trato ele como o moleque imaturo que ele é, Hope! Ele não desgruda de você por um segundo, fica te segurando como se você fosse um troféu de campeonato colégial. Você está indo para a faculdade para construir um futuro, para ser uma jornalista séria, e está levando uma âncora de dezoito anos amarrada no seu pé!

​— Uma âncora?! — Hope deu uma risada sarcástica, os olhos azuis faiscando de raiva. Ela deu mais um passo, ficando bem perto dele, o topo de sua cabeça quase tocando o queixo de James. — Você não sabe nada sobre o Ethan! Você não sabe nada sobre o que a gente sente! Você está agindo como um velho rabugento e possessivo desde o meu aniversário! O meu pai gosta dele, os meus avós gostam dele... por que você tem que ser o único a estragar tudo?

​— Porque eu me importo com você mais do que qualquer um deles, porra! — James explodiu, a voz ecoando pelas paredes do quarto, fazendo Hope recuar meio passo pelo impacto do tom dele. Ele segurou os ombros dela com firmeza, os dedos pressionando o moletom largo. — Eu vi caras como o Ethan destruírem o foco de garotas brilhantes a minha vida inteira no esporte. Eu não vou sentar e assistir você jogar o seu potencial fora por causa de um romance de colégio. Você é minha responsabilidade, Hope. Eu prometi que ia cuidar de você.

​Hope olhou para as mãos grandes de James em seus ombros, sentindo o calor dos dedos dele atravessar o tecido. Sua respiração estava acelerada, e o peito subia e descia com força. Ela ergueu o rosto, encarando-o com uma mistura de raiva e uma intensidade nova, uma audácia que fez o coração de James dar um salto violento contra as costelas.

​— Cuidar de mim não te dá o direito de controlar com quem eu danço ou quem eu beijo, Lâfrer — ela sussurrou, a voz trêmula de emoção, mas cortante como navalha. — Eu não sou mais aquela menininha que você carregava no colo. Eu tenho dezoito anos. Eu sou dona do meu jogo agora. E se o Ethan quiser colocar as mãos na minha cintura, ele vai colocar, porque eu quero que ele coloque. Ficou claro?

​James travou. Seus olhos desceram por um segundo para os lábios dela antes de voltarem para as pupilas azuis. A proximidade era perigosa, o ar estava rarefeito. Ele soltou os ombros dela lentamente, dando um passo para trás, sentindo um abismo se abrir sob seus pés.

​— Vai embora do meu quarto, Hope — James disse, a voz subindo baixa, fria e controlada, a armadura de negócios voltando ao lugar. — Vai lá para fora com o seu namorado.

​Hope engoliu em seco, sustentando o olhar dele por mais três segundos longos e agonizantes. Ela deu um sorriso de canto, aquele mesmo sorriso debochado que herdara do sangue dos Styles, mas que agora parecia carregar um peso muito mais maduro.

​— Com licença... tio James — ela destilou o termo com puro deboche, virou-se de costas e caminhou até a porta. Ela abaixou-se, pegou o celular no chão, passou pelo batente e fechou a porta com um estrondo firme.

​James desabou sentado na beirada da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos e enterrando o rosto nas mãos grandes. O corpo ainda estava quente do banho, mas sua mente estava em um caos absoluto. O desentendimento por causa de Ethan havia cruzado uma linha invisível que ele não sabia como retroceder.