Livro II: O Eco dos Nossos Passos
4 A Fronteira Invisível
O sol da manhã batia contra as vidraças do escritório de James em Manhattan, mas a vista do trigésimo andar não conseguia prender sua atenção. Ele encarava a tela do computador sem realmente ler os e-mails quando o celular sobre a mesa começou a vibrar. O nome de Sofia piscou no visor.
— Sofia? Tudo bem? — James atendeu, encostando o aparelho no ouvido e girando a cadeira de couro.
— James, oi. Só liguei para avisar que a festa de despedida da Hope vai ser neste sábado, aqui em casa — a voz de Sofia veio acompanhada de um suspiro nostálgico. — Ela já arrumou quase todas as malas. Está eufórica com a mudança para o alojamento da faculdade na semana que vem. Vai ser a despedida oficial.
James sentiu um aperto estranho no peito, uma sensação de que as coisas estavam se movendo rápido demais. Ele endireitou a postura, a voz assumindo o tom firme de sempre.
— Eu vou estar aí, Sofia. Você sabe que eu não perco nada importante dela. Vou cancelar as reuniões do fim de semana e dirijo na sexta à noite.
— Obrigada, James. Ela vai ficar feliz. Você sabe o quanto a sua presença importa para ela.
O sábado à tarde na casa dos Styles exalava o clima agridoce das partidas. O jardim dos fundos estava decorado com bandeirolas da universidade, e vários amigos do colégio comiam hambúrgueres perto da churrasqueira.
Hope estava radiante. O cabelo loiro estava solto, caindo em ondas pelos ombros, e ela usava um short jeans curto com uma blusa branca leve. Mas o que realmente chamava a atenção — e incomodava James profundamente — era a presença constante de Ethan. O quarterback estava como uma sombra ao redor dela, com o braço permanentemente passado pelo pescoço de Hope, puxando-a para beijos rápidos a cada cinco minutos.
James havia chegado mais cedo daquela vez. Ele estava encostado perto da varanda, vestindo uma calça escura e uma camisa cinza com as mangas dobradas, segurando um copo de uísque com gelo. Seus olhos escuros e severos não saíam do casal por um segundo, acompanhando cada toque, cada risada e cada demonstração de afeto com um desdém que ele mal se dava ao trabalho de esconder.
Garret aproximou-se, trazendo uma garrafa de cerveja na mão, e encostou-se no parapeito ao lado do amigo.
— O moleque conseguiu uma bolsa excelente na mesma universidade, sabia? — Garret comentou, olhando para a filha com orgulho. — Eles vão estudar no mesmo campus. É bom que um cuida do outro.
— Hum — James resmungou, dando um gole longo no uísque, o olhar fixo no momento em que Ethan apertou a cintura de Hope para erguê-la no ar.
— O Sr. Styles disse que a mudança vai ser puxada. Você vai nos ajudar a carregar os móveis do alojamento na quarta-feira? — Garret tentou puxar assunto novamente.
— Vou — James respondeu, seco, monossilábico.
Garret franziu o cenho, olhando de lado para o melhor amigo. Ele percebeu a tensão na mandíbula de James e a forma quase possessiva e irritada com que ele vigiava Hope.
— Cara, você está bem? Parece que está prestes a entrar em campo para quebrar o pescoço do running back adversário. Relaxa um pouco, é a despedida da menina.
— Estou ótimo, Garret — James cortou, a voz fria. Ele virou o resto do uísque de uma vez só. — Só estou cansado da viagem. Vou subir para tomar um banho e descansar um pouco antes do jantar.
O quarto de hóspedes estava abafado. James entrou, trancou a porta e foi direto para o banheiro. Deixou a água fria correr pelo corpo por longos minutos, tentando acalmar os pensamentos e aquela irritação irracional que parecia queimar sob sua pele toda vez que via Ethan tocar em Hope.
Quando terminou, ele saiu do box completamente nu. O corpo de trinta e sete anos era imponente, mantido por anos de treinos pesados. Ele pegou uma toalha pequena e começou a secar os cabelos escuros, enquanto uma segunda toalha maior estava apenas jogada displicentemente sobre as suas costas, cobrindo seus ombros.
Foi nesse exato segundo que o som do trinco correu. A porta do quarto, que James achava ter trancado, mas que apenas não havia encaixado direito, abriu-se de uma vez.
Hope entrou correndo, com o celular na mão.
— Tio James, a mamãe pediu para ver se você...
A frase morreu na garganta dela. Hope paralisou a dois passos de distância da entrada. Seus olhos azuis se arregalaram em puro choque ao colidirem com a visão de James completamente nu na penumbra do quarto, as gotas de água ainda escorrendo pelo seu peito largo e pelo abdômen definido.
— Meu Deus! — Hope soltou um arquejo agudo, o rosto corando instantaneamente até a raiz dos cabelos. Ela largou o celular no chão, cobriu os olhos com as duas mãos com força e virou-se de costas para ele em um movimento brusco. — Tio James! Por que você não trancou a porta?!
James, apesar do susto inicial, manteve o controle. Ele não entrou em pânico. Com movimentos rápidos e precisos, ele puxou a toalha que estava em suas costas e a amarrou firmemente ao redor da cintura, cobrindo-se. Ajeitou a toalha menor no pescoço e respirou fundo, sentindo uma lufada de ar quente subir pelo seu próprio pescoço.
— Eu achei que tinha trancado, Hope. E a regra da casa diz que você deve bater antes de entrar — James disse, a voz saindo mais rouca e grave devido à situação. Ele limpou a garganta. — Pode se virar. Já estou coberto.
Hope hesitou por um segundo, abaixando as mãos devagar. Ela se virou de frente, o rosto ainda intensamente vermelho, as pupilas dilatadas. Ela evitou olhar para o peito nu dele, fixando os olhos direto nos olhos escuros de James. A atmosfera no quarto havia mudado; não era mais a dinâmica leve de tio e sobrinha. Havia uma voltagem pesada e desconfortável ali.
— Desculpa... eu não sabia — ela murmurou, cruzando os braços de forma defensiva, tentando recuperar a pose marrenta de sempre. — A porta estava encostada. Só vim ver se você ia demorar para descer. O Ethan quer se despedir de você antes de ir embora.
Ao ouvir o nome do rapaz, a pouca paciência que restava em James evaporou. A irritação do dia inteiro explodiu em suas palavras.
— Ele já vai embora? Ótimo. Já passou tempo demais aqui — James soltou, caminhando até o guarda-roupa e pegando uma camiseta preta, vestindo-a com irritação, embora ainda estivesse de toalha na cintura.
Hope franziu o cenho, dando um passo à frente. O embaraço de segundos atrás foi substituído por uma faísca de fúria.
— Qual é o seu problema com ele, James? — ela deixou o "tio" de lado, a voz subindo um tom. — Você passou a tarde inteira me olhando como se eu estivesse cometendo um crime. O Ethan é o meu namorado. Ele é um cara incrível, me respeita, e foi aceito na mesma faculdade que eu! Por que você o trata como se ele fosse um lixo?
James virou-se de frente para ela, os olhos faiscando. A proximidade entre os dois no quarto pequeno tornava tudo mais intenso.
— Eu trato ele como o moleque imaturo que ele é, Hope! Ele não desgruda de você por um segundo, fica te segurando como se você fosse um troféu de campeonato colégial. Você está indo para a faculdade para construir um futuro, para ser uma jornalista séria, e está levando uma âncora de dezoito anos amarrada no seu pé!
— Uma âncora?! — Hope deu uma risada sarcástica, os olhos azuis faiscando de raiva. Ela deu mais um passo, ficando bem perto dele, o topo de sua cabeça quase tocando o queixo de James. — Você não sabe nada sobre o Ethan! Você não sabe nada sobre o que a gente sente! Você está agindo como um velho rabugento e possessivo desde o meu aniversário! O meu pai gosta dele, os meus avós gostam dele... por que você tem que ser o único a estragar tudo?
— Porque eu me importo com você mais do que qualquer um deles, porra! — James explodiu, a voz ecoando pelas paredes do quarto, fazendo Hope recuar meio passo pelo impacto do tom dele. Ele segurou os ombros dela com firmeza, os dedos pressionando o moletom largo. — Eu vi caras como o Ethan destruírem o foco de garotas brilhantes a minha vida inteira no esporte. Eu não vou sentar e assistir você jogar o seu potencial fora por causa de um romance de colégio. Você é minha responsabilidade, Hope. Eu prometi que ia cuidar de você.
Hope olhou para as mãos grandes de James em seus ombros, sentindo o calor dos dedos dele atravessar o tecido. Sua respiração estava acelerada, e o peito subia e descia com força. Ela ergueu o rosto, encarando-o com uma mistura de raiva e uma intensidade nova, uma audácia que fez o coração de James dar um salto violento contra as costelas.
— Cuidar de mim não te dá o direito de controlar com quem eu danço ou quem eu beijo, Lâfrer — ela sussurrou, a voz trêmula de emoção, mas cortante como navalha. — Eu não sou mais aquela menininha que você carregava no colo. Eu tenho dezoito anos. Eu sou dona do meu jogo agora. E se o Ethan quiser colocar as mãos na minha cintura, ele vai colocar, porque eu quero que ele coloque. Ficou claro?
James travou. Seus olhos desceram por um segundo para os lábios dela antes de voltarem para as pupilas azuis. A proximidade era perigosa, o ar estava rarefeito. Ele soltou os ombros dela lentamente, dando um passo para trás, sentindo um abismo se abrir sob seus pés.
— Vai embora do meu quarto, Hope — James disse, a voz subindo baixa, fria e controlada, a armadura de negócios voltando ao lugar. — Vai lá para fora com o seu namorado.
Hope engoliu em seco, sustentando o olhar dele por mais três segundos longos e agonizantes. Ela deu um sorriso de canto, aquele mesmo sorriso debochado que herdara do sangue dos Styles, mas que agora parecia carregar um peso muito mais maduro.
— Com licença... tio James — ela destilou o termo com puro deboche, virou-se de costas e caminhou até a porta. Ela abaixou-se, pegou o celular no chão, passou pelo batente e fechou a porta com um estrondo firme.
James desabou sentado na beirada da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos e enterrando o rosto nas mãos grandes. O corpo ainda estava quente do banho, mas sua mente estava em um caos absoluto. O desentendimento por causa de Ethan havia cruzado uma linha invisível que ele não sabia como retroceder.
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