Notas iniciais
Boa leitura.

Assim que Alan apagou a vela, encaminhou seus amigos para suas camas, que ficavam no mesmo quarto o dele. Eles usavam as antigas camas de Junior e Aníbal. Os meninos resolveram ficar, pois Alan os convenceu de que já estava tarde para irem sozinhos e Lohan não poderia levá-los como sempre fazia. Alan estava tão ansioso em entrar no quarto para pegar a caixa preta, que nem reparou o quanto o irmão estava demorando para chegar. E assim, foram deitar. Deitar, não dormir.

Ao entrar no quarto, Alan despediu-se da mãe, que ainda se mantinha cabisbaixa e calada e fechou a porta assim que ela saiu.

-Jon, eu PRECISO entrar naquele quarto.

-O que aconteceu lá, Alan? Sua tia me deu um susto, achei que ela estava gritando por que eu estava pegando um pouco do pão escondido... Desculpe cara, eu estava morrendo de fome.

- Tsc, pare de pensar em comida pelo menos um pouco, Jon, e escute o que eu estou falando. Eu preciso entrar no quarto. E eu não sei se consigo esperar até de manhã. Acho que vai ser até mais difícil. Preciso que você distraia minha tia enquanto eu entro lá e pego a caixa.

-Ai, Alan, você sabe que eu odeio esses seus planos...

-Jon, pare de frescura. Quando eu te deixei em uma enrascada?

-Anteontem, no pomar, quando o Senhor Jimas nos pegou, na casa da senhora Claire, na rua do...

-Tudo bem, tudo bem. Você está perdendo o foco aqui. Preste atenção. Daqui um tempo, quando eu te chamar, quero que você passe pela porta do quarto do meu avô, onde minha tia provavelmente vai estar. Você deve passar resmungando, sentindo dor. Faça isso até você escutar ela saindo do quarto pra ver o que você tem.

-Alan, tem certeza que não é melhor você fazer isso? É mais convincente. Eu entro no quarto e pego a caixa.

-Pare de ser bobo, Jon. Precisa ser alguém que seja rápido e que não faça barulho e você sabe que é um pouco atrapalhado...

-Mas sua tia é muito brava, Alan!

-Não, isso é só uma aparência que ela demonstra para os outros. – afirmou Alan, apesar dele mesmo não estar certo disso.

-Tá certo. Eu fico a distraindo fora do quarto, enquanto você pega a caixa. É isso?

-Jon, às vezes me pergunto porque te chamam de miolo mole...

-Vá dormir e cale sua boca, Jon.

E com um sorriso travesso no rosto, Alan deitou-se. Jon rapidamente dormiu, roncando como se fosse a última coisa que fosse fazer na vida. Daniel deitou-se e parecia dormir tranquilamente. Alan não conseguia dormir. Mal fechava os olhos. A inquietação e a vontade de descobrir o que havia naquela caixa e porque o avô tinha pedido logo para ele, que nunca havia sequer trocado palavras, não o deixava pregar os olhos. Ficava rolando na cama, pensando cada vez mais na caixa e no avô. Decidiu ir, sorrateiro, verificar se todos já dormiam. Levantou-se, saiu do quarto, e seguiu em direção à cozinha. Ao sair do corredor de seu quarto, viu que ainda havia uma luz acesa, na sala de estar. Estava voltando para o quarto um pouco desapontado por ter que esperar mais, quando ouviu sua tia citar o nome de Lohan na sala. Alan finalmente se deu conta que o irmão estava muito atrasado. Mas com certeza havia uma boa razão, pensou Alan. Seu irmão era forte, sempre o protegia, não poderia ter sido pego por ladrões ou qualquer outro covarde. Na ponta dos pés, foi até a porta da cozinha para ouvir o que elas estavam conversando.

-Temos que mandar procurá-lo, Helena. Lohan não é disso, algo ruim deve ter acontecido. – dizia Marlen para sua irmã.

-Não, acredito que não há com que se preocupar. Lohan sempre volta tarde. – retrucou Helena, com a voz triste e rouca, como se não tivesse ânimo nem para falar.

-Helena, você está sendo ridícula! Já é muito tarde, temos que mandar procurar o menino!

-Concordo com sua irmã, senhora Helena.

Dessa vez Alan franziu a testa. Era a voz de um homem, mas que ele não conhecia. Pensou em arriscar a dar uma olhada no sujeito, mas temeu ser visto. Já levara broncas demais da tia naquele dia e ainda tinha algo mais para aprontar.

Essa seria a chance perfeita para entrar no quarto do avô, se não tivesse que passar justamente pela sala para chegar lá. Teria que esperar a conversa deles terminar para por em prática seu plano. Não estava se preocupando muito com Lohan. Assim como a mãe, confiava que o irmão estava vem, ele simplesmente não podia ter se metido em enrascada. Afinal, era sobre Lohan que estavam falando. Assim, voltou na ponta dos pés para o quarto, decidido a esperar um pouco mais para poder fazer a visita ao avô.

-Não, senhor Derek. Muito obrigado, mas desejo deitar-me agora. Qualquer coisa que eu precisar, mando chamar o senhor. – Dessa vez Helena falou com a voz mais decidida e levantou-se, tomando a conversa como encerrada.

-Tudo bem, senhoras. Até mais. – e Derek saiu, um tanto quanto frustrado, da casa.

-Helena, ponha a cabeça no lugar, você devia tê-lo mandado procurar Lohan.

-Marlen, como eu disse, desejo ir deitar. Estou exausta.

-É ele, não é? Acha que eu não reparei como está estranha desde que o aniversário de Alan chegou? Você vai deixar que aconteça novamente?

-Marlen, eu...

-Você tem que parar isso! Chame Derek e mande procurar esse desgraçado! — A voz de Marlen já começava a demonstrar sinais de histeria.

-Eu já te disse que ele está morto! Ele morreu! Morreu!

- Eu posso ver nos seus olhos que está mentindo para mim. Você está do mesmo jeito que ficava quando ele chegava bêbado em casa, depois de ter gasto todas as moedas roubadas de papai e te surrava. Você acha que ninguém escutava? Helena, seja forte, minha irmã e me diga o que aconteceu aquela noite.

- ELE MORREU! Me deixe em paz, me deixe em paz... – e saiu aos prantos, inconsolável, para seu quarto.

Marlen ficou inquieta e pensou em chamar Derek novamente e pedir para que ele buscasse o sobrinho. E temia que o desgraçado ainda estivesse vivo. A morte dele sempre fora um mistério, se ele realmente morreu. Mas decidiu deixar para lá. Não queria que sua irmã voltasse ao estado de choque da época que o marido havia morrido. Ela havia ficado completamente irreconhecível por meses. Helena, conhecida por garra e força, sempre fora uma irmã mais velha obediente, esforçada, carinhosa e firme como o pai um dia foi. Mas durante meses, ela ficou acamada, sem falar, com um olhar vago e triste. Até que um dia, num surto, ela levantou-se da cama e disse que tinha que arrumar almoço para as crianças. Marlen entrou no quarto de seu pai e sentou-se na cadeira, onde normalmente dormia, pronta para qualquer chamado do pai. Antes de adormecer, olhou mais uma vez para a caixa preta, que agora estava sobre o armário. Iria jogá-la fora no dia seguinte. Quebraria a promessa que fizera ao pai de esconder a caixa e protegê-la, até quando se fizesse necessário. Essa maldita caixa já trouxe problemas demais para eles. Tinha medo do que poderia acontecer com Alan, agora que ele a havia descoberto. Aos poucos, acabou adormecendo.

Poucas horas depois, o que para Alan pareceu uma eternidade, ele sentiu que era o momento certo para poder entrar no quarto do avô. Jon ainda roncava muito alto, mas por pouco tempo, pois Alan logo iria acordá-lo. Levantou da cama e começou a sacudir Jon para que ele acordasse. Quando já estava pensando em jogar um pouco de água em Jon para ver se finalmente o acordava, Daniel se levantou da cama ao lado e sussurrou:

-Posso ajudar você a entrar lá. Duvido que vá acordar o grandão aí, e eu posso mentir muito melhor do que ele.

Alan levou um pequeno susto. Nunca tinha visto aquela face de Daniel. Parecia travesso e decidido, assim como ele mesmo. Daniel parecia até mais ansioso que ele. Com um sorriso no rosto e uma última olhadela para Jon, Alan concordou com Daniel e ele, mais que depressa, saiu do quarto fingindo gemidos de dor e reclamando de dores na barriga. “O menino é um bom artista”, pensou Alan.

Demorou muito pouco para que ele atraísse tia Marlen para fora do quarto. Ele fingia vomitar, e ela, desesperada, temendo que ele vomitasse dentro da casa, o levou para o lado de fora, criando a oportunidade perfeita para Alan.

Foi muito fácil. Talvez fácil demais. Ele entrou no quarto, pegou a caixa, e saiu antes que a porta se fechasse. Era muito rápido. Seus olhos brilhavam ao olhar para a pequena caixinha em suas mãos, o prêmio para um plano bem executado. Correu o melhor que pôde em direção ao seu quarto, tentando não fazer barulho, pois estava muito ansioso para quebrar o cadeado e ver o que havia ali dentro.

Porém, quando entrou em seu quarto, deparou-se com sua tia, furiosa, segurando Daniel pelo braço. Ela nada falou, e antes que Alan pudesse argumentar algo, ela pegou a caixa da mão dele, colocou os dois para dentro e trancou o quarto. A frustração que Alan sentia era imensa. A tivera ali, em suas mãos. Devia ter ido para outro lugar, seu quarto era muito óbvio, caso algo desse errado.

-Me desculpe, mas ela desconfiou de cara. Até vomitei de verdade, no vestido dela, mas nem assim ela acreditou. – desculpou-se Daniel, que também se sentia imensamente frustrado.

-Tudo bem, obrigado por tudo, Daniel. Agora vá dormir, já está muito tarde.

Aquela seria uma noite longa para Alan, pois não conseguiria dormir, pensando na caixa e praguejando a tia por não deixar abri-la. Ele passou acordado a maior parte da noite, pensando que iria se distrair quando chegasse a manhã, que brincaria com seus amigos e esqueceria a tal caixa. Sabia que a tia não o deixaria ver aquela caixa nunca mais. Talvez até a teria destruído, para que Alan não pudesse pegá-la. Mal sabia ele que o dia seguinte seria um dos dias mais tristes de sua vida, e que sua tia estava o protegendo de um grande mal.

Notas finais
Obrigado por ler! =D