Notas iniciais
Apesar de ter perdido esse capítulo e ter que reescrevê-lo por completo, o trabalho a mais compensou, pois mudei muitas coisas. Gostei muito de escrever esse capítulo, pois ele precede um dos capítulos mais dramáticos, tristes e importantes do "Livro da Perdição". E o mais revelador, até agora. Espero que gostem tanto de ler esse capítulo quanto eu gostei de escrevê-lo (duas vezes, rs). Me desculpem mais uma vez por erros de coesão e de ortografia. Escrevi esse texto quando já era tarde e, como estava muito ansioso para postá-lo, dei apenas uma olhada rápida após escrevê-lo. Boa leitura =}

-Deus do céu... Tem certeza, Derek?

-Eles estão esperando apenas as senhoras para tentarem reconhecer os corpos, senhora Marlen. – disse Derek, triste.

-Eu sabia que havia algo errado, sabia! – Marlen andava de um lado para outro, sem saber o que fazer, enquanto Helen permanecia quieta, as lágrimas rolavam pelo seu rosto. – Devemos ir o quanto antes. Se realmente for Lohan, ele deve ser dignamente sepultado.

-Mas desde já as aviso que não sobrou muito para ser reconhecido, senhoras. Ele e a menina Mary ficaram... bem, irreconhecíveis.

-Oh, céus... Lohan nunca foi desse tipo de coisas! Porque, logo no dia do aniversário do irmão dele, ele arrumaria um encontro às escondidas com Mary? Como você sabe disso, Derek?

-Um velho que estava por perto viu tudo. Viu os dois entrando, sozinhos, na casa. E pouco depois, o incêndio começou. Os comentários na cidade têm sido muito maldosos, senhoras.

-Eles sempre foram, Derek. Sempre foram. Mas nós superamos todos até hoje. Não vai ser agora que cairemos, não vai ser. – Marlen tentava mostrar segurança, mas estava desesperada. Lohan era quem alimentava a todos, não tinham onde recorrer, agora que ele se fora. O que seria deles agora? O que seria dos McGregor?

-Eu quero ver meu filho. Eu preciso vê-lo, minha irmã. Nos leve até lá, Derek. – Helena estava acabada. Parecia ter passado a noite toda chorando, os olhos inchados e vermelhos. Mexia nervosamente num colar que usava, passando o dedo polegar de um lado para o outro, como se estivesse pensando em retirá-lo.

-Acalme-se, Helena. Ainda tenho que chamar alguém para ficar com papai e com Alan. Já volto. Fique aqui com ela, Derek, por favor.

-Sim, senhora. – disse Derek, obediente.

Marlen foi até o quarto dos meninos. Eles estavam acabando de acordar. Ao ver Alan, ela se lembrou da caixa, e sentiu-se confortável de ter se livrado da caixa de uma vez por todas. E quando ia voltando para casa de onde se livrara da caixa, viu Derek a cavalo, com uma cara de más notícias.

-Meninos, levantem-se, por favor. – Alan nem a olhava no rosto. Sentia raiva da tia, por ter tirado a caixa que o avô havia lhe dado. Mesmo sem saber o que havia dentro, foi o melhor presente que Alan já recebera. – Jon, Alan poderia passar o dia na sua casa hoje? Quando estiver perto de anoitecer, mando alguém ir buscá-lo, está bem?

-Claro, senhora Marlen! É sempre um prazer receber o Alan em nossa casa! – disse Jon, sempre animado em ser prestativo.

-Muito obrigado, querido. Alan, vá se arrumar. Eu e sua mãe temos que... temos alguns assuntos a tratar hoje. – Ainda não sabia como iria contar ao menino que Lohan morreu. Lohan sempre foi como um pai para ele. Um companheiro de todas as horas. A dor do menino era insuportável. Era melhor postergar essa dor. – E não saia da casa deles até que te busquem. Ouviu, Alan? Nem para brincar! – Marlen temia que o menino soubesse da morte do irmão por outras pessoas.

Alan se levantou pisando forte no assoalho, nem sequer olhando para a tia. Arrumou-se, e rapidamente foi com Jon e Daniel para a casa dos dois.

Jon e Daniel moravam com o pai, Sandro Bloom, um açougueiro de Leimbra. A mãe havia morrido quando deu a luz para Daniel. Como os dois tinham apenas 4 anos de diferença, Jon tinha pouco para se lembrar de sua mãe, e se apegava a essas memórias como se fossem ouro. Sandro sempre foi um homem bondoso e muito gordo, como o filho mais velho. Ao chegar na humilde casa, Jon convidou:

-Guerra de carne?

-É melhor você se apressar, gordão! – respondeu Alan, correndo em direção ao balde de descarte de carne.

Sempre que visitava Jon, eles brincavam de “Guerra de Carne”, usando os pedaços de carne que Sandro não iria utilizar, para fazer bolas, e jogar uns nos outros. Daniel era o que mais levava vantagem, pois era o menor e mais ágil dos três, então sempre conseguia se esquivar e correr dos outros.

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Derek guiou a carroça com as senhoras McGregor até a cena do incêndio. De longe, avistaram um grupo de pessoas que fofocavam aos montes, e no centro, um velho de trajes rasgados, que encenava alguém gritando. Provavelmente era o velho que supostamente havia visto Lohan e Mary na noite anterior, pois ele ganhava destaque no grupo, sempre que ele falava, os outros se calavam e prestavam atenção.

Quando a carroça se aproximou, o grupo virou-se para ver a chegada dos familiares de uma das vítimas. Antes da carroça parar, Helena correu para dentro dos escombros, procurando o corpo do amado filho. Marlen demorou um pouco, pois se deu ao direito de lançar um olhar fulminante àqueles que estavam ali apenas para especular e fofocar sobre tudo o que acontecera. Esse tipo de gente lhe causava repulsa.

Helena se atirou ao que restou do corpo do filho, e pôs-se a chorar profusamente.

-Porque? Porque, Deus, porque? – soluçava, desesperada.

Os corpos estavam totalmente carbonizados, reconhecimento impossível, porém, Marlen viu que os tamanhos de Lohan e Mary eram compatíveis com os dos cadáveres. E como alguém tinha visto os dois entrarem lá, pouco havia a ser feito. Apenas lamentar, pensar o que seria o futuro deles. E ela não fazia a menor ideia de como seria.

Depois de alguns minutos de muito choro e lamentação, Helena se levantou, ainda soluçando, e disse:

- Devemos passar na casa do senhor Finn. Devemos pedir desculpas pelo ocorrido. Até porque, Lohan estava trabalhando para ele e o incêndio foi em um de seus armazéns. Temos que ir lá.

-Claro, Helena. Claro. – Marlen também estava abalada. Acompanhou a irmã até a carroça e a ajudou a subir.

-Iremos para a casa dos Finn, Derek, por favor.

-Claro, senhoras. – Derek tinha o cenho franzido, como se desconfiasse que algo ali estava muito errado, porém, se reparou em algo, nada falou.

Assim que a carroça se distanciou, o grupo voltou a se reunir para comentar a passagem dos McGregor, mas ninguém reparou que o velho, antes a estrela do grupo, se distanciava deles, com um rosto perverso, e um olhar vermelho e terrível para a carroça que se distanciava.

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-Jon, vamos lá fora. Eu não aguento mais brincar disso.

-Mas sua tia pediu que não...

-Vamos sim, também não aguento mais acertar Jon! – respondeu Daniel, às gargalhadas, e partiu para fora de casa, seguido de Alan.

-Minha opinião nunca conta... – retrucou Jon, seguindo os amigos.

Lá fora, os meninos brincavam como sempre, correndo entre as árvores e empurrando uns aos outros, fingindo ser grandes guerreiros, caçadores, monstros e até mesmo animais. Quando Alan se aproximou do grupo, John Finn o olhou com profundo ódio.

-O que veio fazer aqui, McGregor? Veio se gabar por seu irmão ter explodido a casa de ferramentas do meu pai?

-O que? Lohan? – respondeu Alan, perplexo.

-Não se faça de idiota. Apesar de ter valido a pena, pois agora que ele e aquela namoradinha dele se explodiram, ele para de pegar no nosso pé...

-Se explodiu? O que você está insinuando, Finn? – Alan correu para cima do menino, derrubando-o e se preparando para enchê-lo de socos, quando foi empurrado por alguns amigos de John. Ele não iria deixar aquele pirralho falar mal de seu irmão na sua frente.

-Ora, ora... Então você não sabe? O bebê McGregor foi poupado da triste notícia? – desdenhou John, enquanto se levantava, batendo na roupa para retirar a terra que havia se acumulado nela quando John o empurrou. – Poxa, que peninha, coitadinho do bebê.

-Eu vou te arrebentar, seu... – Jon e Daniel tiveram que agarrar Alan para que ele não arrebentasse John, enquanto ele se deleitava em ver Alan furioso por não saber de nada. Iria ser um enorme prazer ver a cara de terror que ele faria quando contasse.

-Seu irmão, o “grandioso” Lohan, respeitoso, justo, blá blá blá, levou sua namoradinha para dentro de uma das casas de ferramentas de meu pai, ara poderem ficar a sós. Não parece muito respeitoso para mim... – os puxa saco de John deram risadas, mas todos os outros meninos pareciam não acreditar na frieza do garoto. – E quando entraram lá, acabaram se queimando, junto com todo o armazém do meu pai. Viraram carvão. Morreram. Foi uma tragédia. Era uma das casas de ferramentas mais bonitas que meu pai tinha... – ironizou, arrancando mais algumas risadas abobalhadas de seus “amigos”.

Alan não saiba o que dizer. Olhava para os outros meninos, esperando que dissessem que era tudo mentira, que John apenas queria feri-lo. Mas eles o olhavam com pena e compaixão, e isso apenas o irritou ainda mais. Dessa vez, chocados com a revelação, Jon e Daniel não tiveram tempo de segurar Alan antes que ele avançasse em John Finn, e o esmurrasse até quebrar seu nariz.

Quando conseguiram tirar Alan de cima de John, havia uma poça de sangue no chão, e ele chorava como um bebê. Saiu correndo gritando pela mãe e jurando que Alan iria pagar por ter feito aquilo com ele. Suado, irritado, triste e frustrado, Alan sentiu-se desconfortado com os olhares dos outros para ele, que eram uma mescla de piedade com surpresa. Assim, voltou correndo para sua casa, acompanhado por Daniel e Jon, que se esforçava para acompanhar os outros dois.

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Tiveram que esperar até o por do sol para que Marlen e Helena chegassem em casa. O avô de Alan estava sob os cuidados de Dona Judite, uma senhora que ficava com ela nas raras ocasiões que todos da casa deviam se ausentar. Alan já havia chorado, xingado, gritado, suplicado, feito tudo, pois não conseguia imaginar que o irmão tivesse morrido e que ninguém tivesse a decência de contar para ele. Jon e Daniel tentaram, sem sucessos, consolar o amigo, mas isso apenas o deixava mais furioso.

Assim que ele avistou a carroça chegando, desceu as escadas para encontrá-los ainda do lado de fora.

-Alan, porque não nos esperou na casa de Jon? Eu não te mandei ficar lá até que fôssemos buscá-lo? Você quer nos matar de preocupação, Alan?

-Porque não me contaram sobre Lohan? Porque? – gritou Alan, chorando, furioso com a mãe e a tia.

-Meu filho, por favor, nós preferimos ter certeza antes de...

-Eu merecia saber! Eu merecia! Eu o amava! Vocês me traíram, me traíram! – Alan estava descontrolado. Não sabia se chorava ou se gritava, como se qualquer esforço dele pudesse trazer seu irmão de volta.

-Meninos, muito obrigado por terem cuidado de Alan. Mas agora é melhor vocês voltarem para casa, pois já está muito tarde.

Os meninos foram em direção à sua casa, arrasados com a morte de Lohan e o sofrimento de Alan. Era terrível o modo como o amigo foi afetado pela tragédia. Jon deu a mão para Daniel, que ainda olhava assustado para Alan e sua mãe, e imaginava como teria sido o sofrimento de seu pai ao perder a esposa, para dar a luz a ele. Daniel nunca admitira, mas sempre se culpou pela morte da mãe. Sempre pensava que era por causa dele que ela havia morrido, e isso o destruía por dentro. Jon tentava consolar seu irmão enquanto andavam, ao mesmo tempo que ele mesmo chorava disfarçadamente, sentindo grande dor pela perda de um grande amigo, e compartilhando a dor que Alan sentia.

-Alan, por favor, vamos entrar, acalme-se. – disse Marlen, assim que os meninos se afastaram.

-Eu não quero me afastar! Eu quero meu irmão! Eu quero Lohan! Eu quero Lohan, mãe! – e correu para abraçar a mãe, chorando tudo que podia, tudo que tinha para chorar. Helena olhou para Marlen, que respondeu:

-Tem certeza? – Marlen parecia preocupada.

Helena balançou a cabeça positivamente. Marlen entrou na casa e foi para a cozinha preparar um chá.

-Meu filho, preciso que você seja forte. Olha para mim. Olhe para mim, Alan. – Helena por um momento parecia a Helena de outrora, firme e esforçada, uma verdadeira McGregor. – Você é a nossa última esperança. A última esperança da nossa família, Alan. E eu tenho certeza que você vai conseguir.

-Última esperança? Conseguir o que, mãe? Não entendo...

-Você vai vencer onde todos os outros falharam, meu filho. Vai receber o prêmio merecido onde os outros só enxergavam glória e poder. Você é a nossa salvação, Alan. Tem que ser.

-Mãe, não estou enten...

-Um dia você vai entender, meu filho. Quero que me prometa uma coisa. – Levou uma mão ao colar, tirou-o do pescoço, e prendeu-o ao pescoço do filho. – Prometa-me que vai sempre usar esse colar daqui para frente, tudo bem? Espero que ele funcione para você como funcionou para mim. E sempre reze aquela oração que te ensinei quando ainda era pequeno, você se lembra? Ainda tem aquele papelzinho com você?

-Sim mãe, está em meu armário, mas eu não...

-Então está tudo bem, meu filho. Vamos entrar para tomar chá.

Essa mudança brusca de assunto, e um convite para tomar chá num momento como aquele, assustou ainda mais Alan. Seguiu a mãe para dentro da casa, se sentaram na sala, e a tia lhe ofereceu uma xícara de chá, com um cheiro muito doce. Pensou em recusar a xícara, porém sua mãe pediu que ele aceitasse e tomasse todo o chá.

O chá realmente tinha um gosto muito bom, e Alan não sabia se era porque havia passado praticamente o dia inteiro sem comer, ou se era o chá, mas ele estava ficando com a vista pesada, se segurando para manter-se acordado. Antes de cair no sono, ouviu sua mãe falando:

-Tenha coragem, meu filho, e seja bem sucedido onde todos antes de você falharam. Você é a nossa última chance.

E caiu, dormindo profundamente. Derek trouxe duas malas de Alan, com praticamente tudo que ele tinha. Marlen olhou para Helena mais uma vez e perguntou:

-Você tem certeza que quer fazer isso, Helena?

-É nossa única chance. E ele vai conseguir. Tem que conseguir.

Quando Derek pegou Alan no colo, Helena sentiu um profundo aperto no coração. Arregalou os olhos, desesperada. Correu para o alpendre e, entre as plantas, confirmou o motivo do aperto no coração e seu desespero.

Sob a luz do luar, parado em frente a casa, havia um homem de cabelos longos, sangue seco nos lábios, queixo e peitoral, olhar doentio e avermelhado, admirando maliciosamente a casa, como um homem rico que entra em um bar e fica apreciando cada garrafa exposta e se perguntando: “Por onde devo começar?”. Abafando um grito, Helena voltou às pressas para a sala.

Notas finais
Obrigado por ler! Espero que estejam muito ansiosos para ler o próximo capítulo, pois estou muito ansioso em escrevê-lo! Assim que der eu posto mais! O mais provável, é que eu poste a continuação no final de semana, porém, como estou ansioso para escrever, existe a possibilidade de postar antes, rs. Como também há a possibilidade de postar bem depois, pq eu quero que o próximo capítulo saia perfeito, então pode demorar para que eu o poste. HAHAHAHA Enfim, posto quando der ;D Continuem acompanhando e comentando, obrigado pela força, estou muito animado a continuar escrevendo! Grande abraço a todos!