Livro 3: O Cálice do Arrependimento - Os Vanne Ros
6 Capítulo 6: O Altar de Ferro e Seda
O escritório de Julian Vane nunca parecera tão pequeno. O ar estava saturado com o cheiro de tabaco, o aroma de café forte e a tensão elétrica que emanava de Leo. Lorenzo, ainda pálido e com o braço em uma tipoia, estava sentado em uma cadeira de couro, enquanto Elena permanecia em pé ao seu lado, a mão repousando protetoramente em seu ombro.
Julian estava atrás de sua mesa, observando os dados no laptop. O dinheiro de Elena era uma fortuna vasta, mas era também um farol que atrairia todos os tubarões do Mediterrâneo.
— Não temos tempo para debates morais, Leo — disse Julian, sua voz cortante como uma lâmina de gelo. — No momento em que Lorenzo transferiu esses fundos para o nome da Elena, ele pintou um alvo nas costas dela que pode ser visto de Milão até a Sicília. Os Bernardi e os parceiros de Marco Bernardi virão buscá-lo.
— Então mandamos o dinheiro de volta! — gritou Leo, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado. — Nós não precisamos de ouro sujo! Nós temos o nosso próprio império!
— Não é tão simples — interveio Lorenzo, a voz rouca. — O dinheiro está em um fundo fiduciário bloqueado. A única forma de movê-lo, de usá-lo para pagar as indenizações e calar as famílias rivais, é através de uma união de linhagens. Legalmente, para o mundo exterior, os Rossi e os Bernardi precisam se tornar uma única entidade.
Julian levantou os olhos e encarou o filho.
— A única forma de garantir que ninguém toque na Elena é se ela não for mais apenas uma Rossi. Ela precisa ser a ponte. Ela precisa se casar com o herdeiro dos Bernardi.
A Explosão do Patriarca em Espera
O silêncio que se seguiu foi absoluto, até ser quebrado pelo som do punho de Leo atingindo a parede de madeira.
— Você está sugerindo... um casamento? — Leo rugiu, os olhos injetados de sangue. — Você quer entregar a minha irmã para o homem que nos traiu? O homem que me mandou para a prisão? Você enlouqueceu, pai? A Isadora concordou com isso?
— Sua mãe sabe que o mundo lá fora não perdoa fraqueza, Leo — Julian respondeu, mantendo uma calma sobrenatural. — Um casamento de conveniência une as proteções legais. Lorenzo abre mão de qualquer reivindicação ao título e Elena assume o controle das rotas como a nova Matriarca de uma linhagem unificada. É a única forma de evitar uma guerra total que mataria a todos nós.
Leo avançou até a mesa, inclinando-se sobre o pai.
— Eu prefiro morrer em uma trincheira defendendo esta casa do que ver a Elena no altar com esse rato.
— E você, Lorenzo? — Julian ignorou o filho e olhou para o jovem ferido. — Você aceitaria se tornar um fantasma no império da mulher que você diz amar? Porque é isso que o contrato diz. Você terá o nome, mas ela terá o poder. Você será o escudo dela, e nada mais.
Lorenzo olhou para Elena. Não havia hesitação em seus olhos verdes.
— Eu já sou um fantasma desde que saí de Palermo, Julian. Eu aceitaria ser o servo dela se isso significasse que ela estaria segura. Eu não quero o dinheiro. Eu não quero o poder. Eu quero que ela viva.
A Decisão de Elena
Elena, que até então ouvira tudo em silêncio, deu um passo à frente. Ela não era mais a menina que soprava velas de aniversário. Ela carregava o porte de Isadora e a frieza estratégica de Julian.
— Chega, Leo — ela disse, e sua voz, embora baixa, fez o irmão se calar. — Você passou a vida inteira me protegendo de sombras, mas agora as sombras estão dentro de casa. Você odeia o Lorenzo porque ele é o lembrete do seu fracasso, mas ele é também a chave para o meu futuro.
— Elena, você não sabe o que está dizendo... — Leo tentou interromper.
— Eu sei exatamente o que estou dizendo! — ela rebateu. — Você quer que eu seja uma Rossi pura e protegida? Pois bem. Eu vou ser uma Rossi que salva esta família. Se para salvar o nosso nome eu preciso carregar o sobrenome Bernardi, eu o farei. Mas não será um casamento de conveniência, Leo.
Ela olhou para Lorenzo, e a intensidade do olhar deles fez o próprio Julian desviar o rosto.
— Eu vou me casar com ele porque eu o amo. E eu o amo porque ele foi o único que teve a coragem de voltar para o inferno para me pedir perdão, enquanto você prefere queimar o mundo inteiro só para manter o seu orgulho intacto.
Leo recuou, como se tivesse sido atingido por uma bala física. Ele olhou para o pai, esperando apoio, mas Julian apenas acenou levemente com a cabeça.
— O contrato será assinado hoje à noite — declarou Julian. — E o casamento será realizado na capela da propriedade ao amanhecer. Sem convidados. Sem festas. Apenas o selo de sangue e lei.
O Pacto na Penumbra
Mais tarde naquela noite, Leo encontrou Lorenzo na varanda. Lorenzo tentava acender um cigarro com apenas uma mão. Leo aproximou-se e, em um gesto que nenhum dos dois esperava, acendeu o isqueiro para ele.
— Se você a fizer chorar uma única vez — disse Leo, a voz tremendo de emoção contida —, eu não vou me importar com contratos, fundos suíços ou com o meu pai. Eu vou te caçar até o fim dos tempos e vou garantir que a sua morte seja a mais lenta da história desta Itália.
Lorenzo tragou o cigarro, olhando para as videiras escuras.
— Se eu a fizer chorar, Leo... eu mesmo te entrego a arma.
Leo olhou para o antigo amigo. O ódio ainda estava lá, mas algo novo começava a crescer: um respeito amargo. Eles eram dois homens destruídos pela mesma guerra, unidos agora por uma mulher que era forte demais para ambos.
Na capela, ao amanhecer, com as luzes douradas da Toscana invadindo os vitrais, Elena e Lorenzo trocaram alianças. Não houve beijo de conto de fadas, mas um aperto de mãos firme e um olhar que prometia proteção mútua até a morte.
Leo assinou como testemunha, a caneta quase rasgando o papel. O Cálice do Arrependimento fora bebido. Elena Vane Rossi era agora Elena Bernardi. A última herdeira se tornara a rainha de um império construído sobre as cinzas do ódio.
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