​A porta do quarto principal da ala leste se fechou com um clique metálico que ecoou como um veredito. O quarto, decorado com afrescos renascentistas e iluminado apenas pela luz bruxuleante das velas, parecia vasto demais. Elena ainda vestia o vestido de seda branca, simples e austero, que usara na capela. Suas mãos, antes firmes, agora tremiam levemente ao tocar o colar de pérolas que pertencera à avó.

​Lorenzo estava parado perto da janela, observando os faróis dos carros de segurança patrulhando o perímetro. Ele havia retirado o paletó, e a tipoia branca contrastava com a sua camisa preta. A tensão em seus ombros era visível; ele parecia um intruso em um palácio que, tecnicamente, agora também era seu.

​— Você não precisa fazer isso, Elena — disse ele, a voz rouca, sem se virar. — O contrato está assinado. O mundo lá fora acredita que somos um só. Você pode dormir no quarto de hóspedes. Eu ficarei aqui, no sofá. Não vou tocar em você.

​Elena olhou para o reflexo dele no vidro da janela.

— Você acha que eu me casei com você apenas pelo contrato, Lorenzo? Depois de tudo o que eu disse na frente do meu pai e do meu irmão?

​O Despertar da Vulnerabilidade

​Lorenzo finalmente se virou. Seus olhos verdes estavam nublados pela dor física do ombro baleado e por uma exaustão emocional que parecia vir de décadas.

​— Eu não sou o herói desta história, Elena. Eu sou o homem que quase destruiu a sua vida. Eu sou o motivo de você ter que se esconder na sua própria casa. Como você pode me olhar e não sentir o mesmo nojo que o Leo sente?

​Elena caminhou lentamente até ele. Cada passo fazia o tecido da seda roçar no chão, um som suave que preenchia o vácuo entre eles. Ela parou a poucos centímetros, forçando-o a encará-la.

​— O Leo sente nojo porque ele olha para o passado. Ele vê o menino que o traiu. Eu olho para o homem que se jogou na frente de uma bala por mim — ela levantou a mão, tocando a cicatriz no rosto dele com uma delicadeza que Lorenzo não conhecia. — Eu vejo o homem que me deu a liberdade de escolher, mesmo que essa escolha fosse odiá-lo.

​Lorenzo fechou os olhos ao sentir o toque dela. Era como se a pele de Elena tivesse o poder de cauterizar as feridas da sua alma.

— Eu não mereço você. Eu passei anos no escuro, Elena. Eu esqueci como é ser amado sem que haja uma dívida de sangue por trás.

​A Confissão na Penumbra

​— Então aprenda de novo — sussurrou ela.

​Elena começou a desabotoar os punhos da camisa de Lorenzo, ajudando-o a se livrar da peça com cuidado para não machucar o ombro ferido. Quando a camisa caiu, as cicatrizes de Lorenzo ficaram expostas — não apenas a da bala recente, mas as marcas de uma vida de violência e negligência.

​Lorenzo sentiu uma lágrima quente cair em seu peito. Elena estava chorando, não de tristeza, mas de uma compaixão avassaladora.

​— Lorenzo... — ela começou, mas ele a interrompeu, puxando-a para perto com o braço são.

​— Eu te amei desde o momento em que te vi na biblioteca, há oito anos — ele confessou, a voz falhando. — Você era apenas uma menina, e eu já era um monstro, mas você tinha uma luz que me cegava. Eu tentei me convencer de que te odiava porque era mais fácil do que aceitar que eu nunca seria digno de você. Cada erro que cometi, cada traição... foi uma tentativa de fugir do que eu sentia.

​Elena levantou o rosto, encontrando o olhar dele.

— Você não precisa mais fugir. O monstro morreu naquela cabana, Lorenzo. O homem que está aqui comigo é o meu marido.

​O Selo do Amor Proibido

​O beijo que se seguiu não teve a urgência violenta da praia ou da cabana. Foi um beijo lento, solene, uma promessa silenciosa de que, a partir daquele momento, eles eram um só organismo. Elena se entregou a ele com uma confiança que desarmou Lorenzo completamente. No silêncio do quarto, entre lençóis de seda e o medo do amanhã, eles finalmente consumaram a união que o destino tentara impedir.

​Naquela noite, Lorenzo não dormiu no sofá. Ele dormiu com o rosto enterrado nos cabelos de Elena, sentindo o pulsar do coração dela contra o seu. Pela primeira vez em sua vida, o herdeiro dos Bernardi não teve pesadelos.