Livro 3: O Cálice do Arrependimento - Os Vanne Ros
5 Capítulo 5: O Segredo de Sangue e Ouro
O cheiro de antisséptico e pólvora impregnava o quarto de hóspedes da mansão. Lorenzo estava inconsciente, com o rosto pálido contrastando com os lençóis de linho. Maya, com sua calma técnica de veterinária adaptada à emergência humana, terminava de limpar o ferimento no ombro dele. Elena não saía do pé da cama, os olhos fixos no movimento lento do peito de Lorenzo.
— Ele vai sobreviver, Elena — disse Maya, retirando as luvas ensanguentadas. — A bala atravessou o músculo, mas não atingiu a artéria. Ele teve sorte.
Enquanto Maya recolhia os instrumentos, ela notou algo. O casaco de couro de Lorenzo, rasgado e sujo de lama, estava jogado em uma cadeira. Ao movê-lo, ela sentiu um volume estranho no forro interno, algo rígido e costurado com cuidado.
— O que é isso? — murmurou Maya, pegando uma tesoura cirúrgica e abrindo uma pequena fresta no tecido.
De dentro do forro, ela retirou um pequeno dispositivo de metal — um token de segurança criptografado de um banco suíço — e um microfilme antigo. Ao segurá-lo contra a luz, Maya sentiu o sangue gelar.
A Herança Maldita
Leo e Julian entraram no quarto no exato momento em que Maya examinava o objeto.
— O que você achou, Maya? — perguntou Leo, a voz ainda rouca pela fúria da batalha.
— Lorenzo não veio apenas pedir perdão, Leo — Maya entregou o dispositivo a Julian. — Ele trouxe o que o pai dele roubou de todos os clãs de Milão e Nápoles. Mas há um detalhe...
Julian conectou o dispositivo ao seu laptop e, após alguns minutos de silêncio tenso, uma série de contas e documentos surgiu na tela. O valor era astronômico, o suficiente para comprar metade da Toscana. Mas a última linha do contrato de custódia era o que realmente importava.
— "Beneficiária Final: Elena Vane Rossi" — leu Julian em voz alta, sua voz falhando pela primeira vez em décadas.
Leo deu um passo atrás, como se tivesse levado um soco.
— O quê? Por que no nome da minha irmã?
A Prova de Amor de um Condenado
Nesse momento, Lorenzo soltou um gemido e abriu os olhos lentamente. Ele viu a família reunida ao seu redor e o dispositivo na mão de Julian. Ele não tentou esconder.
— Meu pai... ele sabia que eu nunca seria um bom criminoso — sussurrou Lorenzo, a voz fraca. — Ele guardou esse dinheiro como um seguro. Mas eu não queria o sangue dele nas minhas mãos. Eu transferi tudo para o nome da Elena há seis meses, antes mesmo de saber se voltaria para cá.
— Por que para ela? — Leo exigiu saber, aproximando-se da cama.
— Porque se eu desse para você, você usaria para limpar os negócios da família e me odiaria por isso. Se eu desse para o Julian, ele saberia o risco que isso traz — Lorenzo olhou para Elena, e uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto sujo. — Eu dei para a Elena porque ela é a única de nós que ainda é livre. Com esse dinheiro, ela pode ir para onde quiser. Pode deixar a Toscana, deixar o nome Rossi para trás... pode ser o que ela quiser, longe das sombras que nos cercam.
Elena apertou a mão dele, as lágrimas caindo sem controle.
— Você me deu uma saída... mas eu não quero sair sem você, Lorenzo.
O Dilema dos Vane Rossi
Leo olhou para o dinheiro na tela e depois para o homem que ele jurara matar. A fortuna que Lorenzo colocara no nome de Elena era, ao mesmo tempo, uma bênção e uma sentença de morte. Se os clãs descobrissem que Elena possuía o dinheiro, ela seria o alvo de cada assassino da Itália.
— Você a transformou no alvo principal, seu idiota! — rosnou Leo.
— Não — interrompeu Julian, fechando o laptop com força. — Ele deu a ela o poder de acabar com a guerra. Com esse dinheiro, podemos comprar as rotas, indenizar as famílias afetadas e extinguir as dívidas de sangue dos Rossi e dos Bernardi de uma vez por todas. Lorenzo não nos deu apenas ouro, Leo. Ele nos deu a paz definitiva.
Leo olhou para Elena e viu a determinação nos olhos da irmã. Ela não era mais a menina que precisava de proteção. Ela era a mulher que agora detinha o destino de todos em suas mãos.
— Então é isso? — perguntou Leo, olhando para Julian. — Vamos aceitar o dinheiro do homem que nos traiu?
— Vamos aceitar o sacrifício do homem que nos salvou — corrigiu Julian.
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