​A manhã na mansão nasceu sob um silêncio pesado, interrompido apenas pelo som rítmico de uma vassoura no pátio. Mas dentro do escritório revestido de carvalho, Julian Vane não descansava. Ele estava inclinado sobre a escrivaninha, as mãos firmes montando um quebra-cabeça de humilhação e sangue. Ele havia recolhido, um a um, os pedaços do envelope que Leo rasgara na noite anterior.

​Leo entrou na sala sem bater, os olhos vermelhos de uma noite sem sono.

​— O que está fazendo, pai? — a voz de Leo era pura incredulidade. — Você está realmente tentando reconstruir as mentiras dele?

​Julian não levantou os olhos. Ele usava uma fita adesiva transparente para unir o fragmento de um extrato bancário suíço.

— Eu aprendi cedo que o ódio cega, Leo. Ele faz você ver o que quer, não o que é. Este extrato mostra transferências para Vittorio meses antes de você ser preso. Transferências feitas da conta pessoal de Marco Bernardi, não do Lorenzo.

​— Ele poderia ter usado a conta do pai! — Leo esmurrou a mesa, fazendo os pedaços de papel voarem. — Ele quase destruiu a Maya! Você vai ficar do lado dele agora?

​Julian finalmente o encarou, a frieza de seus olhos fazendo Leo recuar.

— Eu não estou do lado de ninguém além da verdade. Se Lorenzo foi usado pelo pai tanto quanto você foi usado pelas circunstâncias, então puni-lo agora é um erro que voltará para nos caçar. Você quer ser um Rossi, que destrói por impulso, ou um Vane, que sobrevive pela estratégia?

​Leo saiu batendo a porta, o peito subindo e descendo. Ele não percebeu que, do outro lado do corredor, Elena observava a cena, absorvendo cada palavra do pai.

​A Busca na Cabana Abandonada

​Elena não esperou pelo café da manhã. Ela pegou as chaves de sua vespa e dirigiu pela estrada de terra que levava aos limites da propriedade vizinha, um vinhedo falido que pertencera aos Bernardi. Ela sabia que Lorenzo não teria ido longe; ele não tinha mais para onde ir.

​Ela o encontrou em uma pequena cabana de pedra usada para guardar ferramentas. Ele estava sentado em um banco de madeira, limpando uma ferida no supercílio que Leo abrira na noite anterior. Ele não parecia um vilão; parecia um homem que fora atropelado pela própria vida.

​— Você é louca por vir aqui — Lorenzo disse, sem se virar. Ele sentira o perfume dela antes mesmo de ouvir seus passos.

​— Meu pai acha que você está falando a verdade — Elena disse, parando à porta, a luz do sol criando uma aura ao redor de seu corpo. — Ele está remontando os papéis que o Leo rasgou.

​Lorenzo riu, um som seco e sem alegria.

— Julian Vane sempre foi inteligente demais para o próprio bem. Mas não importa, Elena. Leo nunca vai me perdoar. E eu não o culpo.

​Elena deu um passo para dentro, o cheiro de mofo e terra a envolvendo.

— Por que você voltou, Lorenzo? Por que se sujeitar a ser espancado pelo meu irmão se você poderia ter recomeçado em qualquer lugar do mundo?

​Lorenzo finalmente se levantou e caminhou até ela. A proximidade era elétrica. Elena podia ver o verde intenso de seus olhos, marcados por uma melancolia que a fazia querer tocá-lo.

​— Porque eu cansei de ser um fantasma — ele sussurrou, a voz vibrando perto do rosto dela. — Eu passei oito anos tentando odiar os Rossi para justificar a minha covardia. Mas quando eu vi o seu rosto na varanda ontem à noite... eu percebi que passei a vida inteira fugindo da única família que poderia ter me dado uma alma.

​— Você não deveria estar aqui — Elena murmurou, embora não fizesse menção de sair.

​— Eu sei.

​Lorenzo estendeu a mão, hesitante, e tocou uma mecha do cabelo loiro de Elena. O toque foi leve, mas o impacto foi como um choque elétrico para ambos. Elena sentiu o perigo, a traição ao seu sangue e o desejo proibido se fundirem em uma coisa só.

​— Se o Leo descobrir... — ela começou.

​— Ele não vai descobrir — Lorenzo interrompeu, a mão agora descendo para o pescoço dela. — A menos que você queira que ele saiba que a "menina pura" da família Rossi está sentindo pena do demônio.

​Elena não respondeu com palavras. Ela deu o passo final, encurtando a distância entre eles, seus olhos desafiando a história, o ódio e o próprio destino. Naquela cabana em ruínas, o pacto de traição fora selado.

​A tensão entre Leo e Julian cresce, enquanto Elena e Lorenzo cruzam a linha sem volta.