​O clima na mansão estava carregado de eletricidade estática. Elena retornou da cabana com as faces coradas e o coração batendo na garganta, mas ao cruzar o hall de entrada, deu de cara com Isadora. A mãe não disse uma palavra; apenas apontou para o jardim de inverno.

​— Você tem o mesmo olhar que eu tinha quando seu pai me buscava escondida nas montanhas de Amalfi — disse Isadora, a voz suave mas carregada de uma advertência mortal. — Você está brincando com o fogo que quase nos transformou em cinzas, Elena.

​— Ele não é quem o Leo pensa, mãe — Elena rebateu, tentando manter a postura. — Julian acredita nele. Por que ninguém mais pode?

​Isadora aproximou-se, segurando o rosto da filha com as mãos frias.

— Escute-me bem. O amor proibido não é uma aventura, é uma maldição. Eu amei Julian quando ele era o inimigo do meu pai. O preço disso foi a morte de muitos homens e o exílio do meu próprio espírito. Se você seguir esse caminho com Lorenzo, você não estará apenas traindo o Leo. Você estará ressuscitando a guerra que seu pai e eu levamos trinta anos para enterrar. O DNA dessa família é feito de fugas e balas, Elena. Não se torne a próxima vítima da nossa própria história.

​A Sombra do Irmão

​Enquanto Isadora tentava salvar a alma da filha, Leo estava perdendo a sua. Ele não era tolo. O rastro de pneus da vespa de Elena não mentia, e o cheiro do perfume dela estava impregnado no casaco que ela deixara na entrada — misturado ao cheiro de mofo e tabaco barato. O cheiro de Lorenzo.

​Movido por uma fúria silenciosa e letal, Leo não chamou os seguranças. Ele pegou sua Beretta no cofre do escritório e caminhou pela mata, contornando a estrada. Ele chegou à cabana pelos fundos, movendo-se como o predador que Julian o ensinara a ser.

​Pela fresta da janela de madeira apodrecida, ele viu.

​Lorenzo estava sentado no chão, encostado na parede, e Elena estava ajoelhada diante dele. Eles não estavam se beijando; ela estava limpando o sangue seco do rosto dele com o próprio lenço, e Lorenzo a olhava com uma adoração que beirava o sagrado.

​A visão foi pior do que um soco para Leo. Era a rendição da sua "pequena irmã" ao homem que ele mais odiava no mundo.

​O Confronto de Sangue

​Leo chutou a porta com tamanha força que a madeira lascou. O barulho foi como um tiro no silêncio da cabana.

​— Saia de perto dele, Elena! Agora! — o grito de Leo foi ensurdecedor. Ele apontava a arma diretamente para o peito de Lorenzo.

​Elena saltou, colocando-se na frente de Lorenzo, os braços abertos como um escudo humano.

— Não! Abaixe essa arma, Leo! Você ficou louco?

​— Louco? — Leo riu, uma risada quebrada e perigosa. — Ele te manipulou. Ele usou a sua inocência para chegar até o coração da nossa casa! Saia da frente, Elena, ou eu vou tirar você daí à força.

​— Você vai ter que atirar em mim primeiro! — ela desafiou, os olhos azuis faiscando com a mesma obstinação de Julian Vane. — Ele trouxe as provas, Leo! O papai está remontando o envelope! Lorenzo foi uma vítima tanto quanto você!

​— Vítima? — Leo deu um passo à frente, o cano da arma quase tocando a testa de Elena. — Ele viu você crescer! Ele sabia o que o pai dele estava fazendo e se calou! Ele te quer apenas para se vingar de mim!

​Lorenzo levantou-se lentamente, empurrando Elena para o lado com suavidade, apesar do cano da arma de Leo agora estar voltado para ele.

— Atire, Leo. Se isso for fechar o seu ciclo de ódio, atire. Mas faça isso sabendo que o seu pai já sabe a verdade. E faça isso sabendo que a Elena nunca vai te perdoar por matar a única pessoa que a viu como uma mulher, e não como um troféu de vidro da família Rossi.

​O dedo de Leo tensionou no gatilho. O silêncio na cabana era tão denso que se podia ouvir a respiração trêmula de Elena. Por um segundo, o destino de todos esteve a milímetros de uma tragédia.

​A porta da cabana se abriu novamente, mas desta vez devagar. Julian Vane apareceu na entrada, segurando os papéis colados com fita adesiva. Sua voz saiu calma, mas com a autoridade de quem manda na vida e na morte:

​— Guarde a arma, meu filho. O sangue que você quer derramar hoje é o sangue da verdade, e isso é algo que nenhum Vane Rossi pode se dar ao luxo de perder.