Eu estava voando – literalmente. Não era eu quem tinha asas, é claro, era Daniel quem estava me carregando em seus braços. Era incrível o que a proximidade de seu corpo podia fazer com o meu: o frio era de rachar, mas meu corpo nem percebia, ele apenas sentia Daniel me envolver.

Eu tinha agido como um monstro contra Gabbe, havia tocado-a na ferida. Muitas coisas que eu estava fazendo ultimamente, não pertenciam ao meu EU normal: ficar me agarrando com Cam, magoando pessoas a minha volta; eu simplesmente não sabia o que estava acontecendo. Era como se meu lado equilibrado estivesse regredindo. Deus me perdoe por isso, mas eu queria mesmo era ter voado pra cima dela, e por quê? Agora que tudo tinha passado, nem eu podia encontrar tal resposta. Além do fato de Cam não sair de meus pensamentos, é claro. Isso era a coisa que mais estava me incomodando. Eu sempre tive uma atração meio doida por ele, mas desde quando nos beijamos tudo começou a fugir do meu controle totalmente. Às vezes, eu tinha que fazer muito esforço para parar de pensar nele, de sonhar com ele. Na noite anterior Daniel havia dormido ao meu lado, – não que tivéssemos feito nada demais – mas minha mente perversa conseguiu ser suja o bastante para ficar pensando em Cam. Em seus braços fortes e seu corpo quente me envolvendo, me pressionando...

Eu merecia morrer.

Depois do meu desentendimento com Gabbe no saguão, nossa pequena reunião foi cancelada e Daniel me levou para longe, conforme eu havia pedido. Ele nunca me negava nada e eu estava sendo uma traidora de marca maior com o cara mais perfeito do universo.

Estávamos sobrevoando Shoreline, mas logo ele saiu das dependências da escola e fomos para a cidade. Era domingo à noite e havia até um certo movimento nas ruas, pelo o que eu pude observar lá de cima.

Daniel e eu estávamos unidos um ao outro; eu estava firme em seus braços angelicais. Não conversamos muito e eu me perdi olhando lá pra baixo, pro mundo normal, para as pessoas normais. Casais saindo do cinema, famílias reunidas na sala de estar... Talvez eu fosse uma pessoa diferente do que eu pensei. Agora que eu estava agindo de maneira tão grotesca com todos, especialmente com Daniel, eu percebi que não merecia estar lá embaixo entre os normais. Esse era o preço que o monstro em mim teria que pagar.

- O que foi meu anjo? – a voz suave dele atingiu meus ouvidos, me trazendo de volta aos seus braços.

- Nada, eu... só estou pensando que não merecia mesmo estar lá. – falei olhando pra cidade abaixo de nós.

- E por que você pensa assim? – ele perguntou com a voz triste.

- Eu não sei... só... me dei conta agora das coisa que eu venho fazendo, pensando e sentindo e... acho que não sei mais quem eu sou. Eu não mereço estar lá.

Paramos de nos movimentar. Ainda estávamos no ar, mas Daniel parou de sobrevoar a cidade para me encarar. Meus pés estavam sobre os dele e meus braços envolvidos em seu pescoço. Como era difícil encará-lo agora. Sempre foi tão fácil, tão certo olhar, estar com Daniel. Agora, eu já não sabia mais. Eu estava envergonhada.

- Meu amor, como assim quem você é? Você é minha Luce, minha paixão, continua sendo a pessoa mais linda que conheço, pura e justa...

- Pura? – perguntei alto demais – Como você diz isso, depois do que eu fiz pra você, depois do que eu fiz a Gabbe?

Eu estava desesperada, como ele podia ser tão bom, era impossível! Será que ele estava cego... ou surdo?

Daniel não respondeu. Nós começamos a descer para a cidade lentamente. É claro que não posamos no centro, mas num lugar afastado e deserto, sem que ninguém nos visse. Assim que tocamos o chão e ele me soltou, eu percebi frio da noite. Meu tênis, jeans e casaco quase eram como chinelo e camiseta. Ele estava também com tênis e um jeans desbotado, além de um blusão branco lindo do tipo social de mangas compridas – sim, sem casaco. Perfeito como sempre.

- Luce, — sua voz era séria e determinada enquanto me encarava – eu sei que saber a verdade não foi fácil. Sei que deve estar confusa e sentindo uma responsabilidade maior do que você acha que pode agüentar. Você não é diferente de ninguém, você é humana, com sentimentos, com dúvidas, com imperfeições, nenhum de nós é perfeito.

- Você é. – eu interrompi. Pra mim, ele era a personificação do que era perfeito.

Daniel se aproximou e me abraçou pela cintura, um sorriso se formando em seus lábios.

- Você sabe que não sou perfeito. Eu também tenho falhas, erros, defeitos, como qualquer outro. – sua mão passeou pelo meu cabelo – Eu faço escolhas que nem sempre são as certas, como esconder coisas de você, por exemplo. Eu sei que superprotejo você e que é um erro enorme meu não ter acreditado na sua capacidade e nas suas habilidades de lidar com tudo isso. Mas é assim que eu sou, meu maior instinto é defender você de qualquer coisa, mesmo que eu não saiba a melhor maneira de fazê-lo. Luce, a imperfeição está em todos nós e eu não espero que você seja diferente. Mas eu não agüento ver você desse jeito.

Eu estava engolindo as lágrimas, não queria parecer mais patética do que já era, mas estava

tão difícil.

- Daniel – comecei – eu sinto tanto pelo o que está acontecendo... eu não sei explicar, eu só estou sentindo coisas que vão além de mim. Eu amo você, amo mais que a mim mesma, mas eu não consigo me controlar! Por mais que eu tente, eu não sei o que acontece comigo quando Cam se aproxima... é como se ele fosse um ímã, uma coisa que ...sei lá. – eu o encarei de verdade, estava sendo o mais sincera possível. Ele merecia ouvir toda a verdade de mim – É como seu eu fosse duas pessoas diferentes e eu estou me sentindo perdida, confusa e extremamente culpada por isso.

Ele ficou mais sério do que eu pensei, mas nunca deixou de me carinhar ou olhar no fundo dos meus olhos com aquele violeta intenso. Uma lágrima escapou de mim e eu completei.

- Eu sou a pessoa errada, Daniel. Não sou mais a pessoa por quem você se apaixonou, não sou a pessoa que merece ser guardiã de algo tão divino... eu não posso ser essa pessoa.

- Você é. – ele falou com uma determinação que me tocou – Você é a pessoa por quem me apaixonei, é a pessoa que é tudo pra mim... A verdade muda a gente, Luce. Você está passando por uma fase difícil, uma que eu tentei erradamente evitar, que é o reconhecimento de tudo. Trabalhar com os anunciadores, saber de tudo o que aconteceu, mexeu com você em um nível muito profundo. Você é uma pessoa especial, que carrega algo muito especial e agora é a hora de aprender a lidar com tudo isso. O que você está sentindo por Cam ou sua reação com Gabbe é apenas reflexo da verdade.

- Um reflexo da verdade? – perguntei confusa.

- Sim. Lembra de quando eu te expliquei que mexer com o passado podia trazer conseqüências drásticas?

- Sim. – respondi.

- Pois saber a verdade também. São coisas diferentes, mas similares. Quando eu contei tudo o que tinha acontecido com você eu revelei uma parte muito importante do seu passado e mesmo que você não tenha visto, como quando você olha través de um anunciador, você ouviu e absorveu tudo o que falei. Sua alma se lembrou e isso acarretou em mudanças profundas em você. Mudanças que você está percebendo agora.

- Você quer dizer que eu só estou agindo dessa forma por ter descoberto a verdade? Que eu estou sentindo coisas diferentes por conta disso?

- Não. Eu estou dizendo que algo mudou em você, mas não quer dizer que tenha surgido nada, você apenas está amplificando sentimentos e sensações que sempre existiram em você, mas que antes você era capaz de controlar.

- É como o meu instinto de batalha? Quando eu descobri o que podia fazer, você precisou me ajudar a me controlar. Era como se houvesse outra pessoa dentro de mim.

- Exato. Agora é mais ou menos a mesma coisa, pois sua alma se lembrou de algo tão importante e poderoso, que as mudanças são inevitáveis em você... e são muito maiores também.

Eu fiquei calada, apenas processando tudo. Muito agora fazia sentido. Eu sempre senti algo por Cam, mas agora eu podia entender porque de repente tudo estava tão forte e incontrolável. Uma faísca de esperança se acendeu dentro de mim, se eu pude controlar meus instintos de batalha, talvez eu pudesse controlar esses também.

- Foi por isso que eu não pude sentir raiva de você quando vi vocês juntos... – a voz dele era baixa e cheia de angústia. Eu sabia que lembrar daquele momento era difícil pra ele – eu sabia que você não poderia se controlar por muito mais tempo.

Respirei fundo.

- Cam também sabia disso, não é? – perguntei, mas com um tom não tão interrogativo; eu já sabia a resposta.

Daniel afirmou com a cabeça.

- Ainda assim... — continuei – eu não sei se sou a pessoa certa pra estar no centro disso tudo...

Daniel pôs meu rosto entre suas mãos e respondeu:

- Nós nunca recebemos um peso maior do que o que podemos carregar, meu anjo.

Eu sabia que era a experiência e a sabedoria angelical que estava falando e não tinha como discutir. Agora minha meta era aprender a controlar meus sentimentos e tentar voltar a ser somo eu era. Mas algo dentro de mim dizia que eu jamais poderia ser como antes.

Daniel e eu caminhamos de mãos dados para a cidade e, em menos de meia hora, estávamos no centro. Eu me sentia mais leve por entender o que estava acontecendo e isso foi como renascer. Eu estava tão feliz por estar ali, no meio de humanos normais e pessoas que não eram metade anjo.

Caminhamos devagar olhando as vitrines decoradas para o fim do ano. Nós teríamos apenas pouco tempo antes que as lojas fechassem.

- Você acha que consegue comprar algo a tempo? – ele perguntou contente enquanto eu observava uma linda loja de roupas femininas.

- Comprar algo, como assim?

- Temos um baile pra ir na semana que vem, esqueceu? – ele perguntou. Seu tom era leve e jovial. Finalmente eu e Daniel estávamos bem de novo. Nossa conversa foi tão franca e sincera... era exatamente o que nós precisávamos. Meu coração estava explodindo de alegria e eu ri.

- O quê? — Ele perguntou ao ouvir minha risada, seu semblante era de total descontração.

- Eu não posso ir ao baile com você. – falei tentando ser séria.

- Por que não? Porque eu dou aulas lá? – Daniel perguntou confuso.

- Não. – respondi – Por que você não me convidou.

Ele sorriu. Seu sorriso mais lindo e branco que eu tanto amava. Então ele pôs um joelho no chão, bem na minha frente – na calçada!!! – e perguntou:

- Lucinda Price, quer ir ao baile de fim de ano comigo?

As pessoas ao redor nos olhavam e meu rosto devia estar vermelho como camarão. Parecia que ele tinha passado cola na minha boca e mantido meu sorriso nela, eu não conseguia parar de sorrir.

- É claro que eu vou. – respondi pegando sua mão e fazendo uma leve força para trás, para q ele se levantasse do chão.

Daniel levantou num impulso e me abraçou, levantando-me levemente do chão. Nós nos beijamos e pareceu que não fazíamos isso há semanas. Eu finalmente senti a paixão e o amor fluindo entre nós, quente e intenso como sempre. Minha boca explorava a dele como se fosse a primeira vez, com vontade e desejo e ele correspondia, me apertando contra si. Sua mão na minha nuca me prendendo ao seu beijo.

Nós nem nos importamos com os outros passando ao nosso lado e eu me sentia uma adolescente apaixonada. Nós só nos separamos quando ouvimos um cara que passou ao nosso lado dizer “Procurem um motel!”.

Nós rimos um por outro e olhos violetas travessos me encaravam, como que ponderando a sugestão.

- Daniel... — falei sorrindo pra ele, eu sabia que ele estava pensando naquilo que o homem tinha dito.

- Já sei – ele falou pegando minha mão e retomando a caminhada – Você quer comprar um vestido primeiro.

Ri alto.

- Você vai ter um problema, Srta Price, as lojas fecham em meia hora... acho que é impossível alguma mulher escolher um vestido nesse tempo.

- Na verdade... eu já escolhi. – falei mordendo o lábio inferior.

Ele pereceu realmente surpreso e eu me apressei em explicar.

- Foi na primeira loja que passamos, eu vi um que gostei muito.

- OK... vamos lá, então. – ele falou dando meia volta.

Soltei um gritinho de alegria e me apressei em segui-lo. Se havia algo que não tinha mudado em mim era a paixão por comprar roupas. Na primeira loja que passamos, eu vi um lindo vestido e, como sempre era comigo, eu cismei com ele.

Nós alcançamos a loja e a vendedora estava trancando a porta.

- Ai, que pena! – falei chateada, parando de caminhar.

Daniel, porém, bateu de leve na porta. A moça o encarou e apontou pra a laca de “Fechado” pendurada na porta, mas ele insistiu.

- Por favor, minha acompanhante tem um baile no fim de semana e você tem o vestido que ela quer. – a voz dele era gracios, eu tinha certeza que ninguém poderia negar algo a ele – Por favor, senhorita, se você me ajudar a conquistá-la, terá minha gratidão eterna.- ele disse implorante e com uma das mãos no peito.

Daniel estava tão irresistivelmente cativante que ela não teve outra opção senão abrir um leve sorriso e nos permitir entrar. Como ele conseguia?

Entramos na loja e eu apontei o vestido que desejava experimentar. Era lindo! Simples, nada exagerado, mas maravilhoso. Daniel concordou com minha escolha dizendo que eu daria ainda mais trabalho pra ele quando o vestisse. Eu o experimentei e ficou perfeito, mas Daniel não o viu em mim, apesar de implorar por isso. Seria uma surpresa, eu disse.

Saímos da loja de mãos dadas e fomos caminhando sem rumo. Eu estava tão feliz que demorei a reparar que ele estava em alerta, relaxado, mas em alerta. Só reparei quando um cara cruzou por nós e ele ficou um pouco tenso, não no sentido de preocupado, mas no sentido de preparado para qualquer eventualidade.

- Você acha que tem alguém nos seguindo, está tudo bem? – perguntei assim que o cara se afastou.

- Não se preocupe, eu estou de olho. – ele respondeu – Não deixaria nada acontecer com você.

- Eu sei. – respondi simplesmente. E eu sabia. Ao lado dele, eu estaria sempre segura.

- Você acha que deveríamos voltar? – perguntei.

- Talvez seja uma boa idéia... nada aconteceu ainda, mas eu não gostaria de topar com um banido por aqui.

- Não é estranho? – questionei enquanto atravessávamos a rua para voltar pro mesmo lugar deserto de onde viemos – Eles sabem onde estou, eu pensei que eles estariam nas cidades ao redor esperando alguma oportunidade.

- É, é estranho. Foi devido a ausência deles das redondezas que enviamos Gabbe para uma missão de infiltração.

- E o que ela descobriu? – perguntei preocupada. Seria esse o tema de nossa reunião.

- Ela acha que eles estão se organizando, esperando o melhor momento pra atacar.

- O melhor momento? Eles desperdiçaram isso no dia de ação de graças, não? Quer dizer, não havia nenhum de vocês por perto.

- É, mas não esqueça que com o final do ano, a maioria dos nephilins vai deixar Shoereline. Eles podem ser especiais, mas têm família e uma vida normal, dentro do possível. Shoereline é uma escola como as outras, mas que os prepara para algo além que as outras não fazem. Quando o período terminar, eles saem, e nosso número será reduzido.

- E vocês acham que eles vão aproveitar esse período pra atacar?

- Sim.

Nós chegamos a um lugar deserto o bastante para que pudéssemos ir embora. Ele me abraçou pela cintura e me beijou. Quando dei por mim, já estávamos voando de volta pra escola e mais uma preocupação foi adicionada a minha extensa lista.

Notas finais
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