Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
8 Capítulo 8
O treinamento acabou pouco antes da hora do almoço. Isso nos dava tempo apenas para um banho rápido e uma passada no refeitório, antes das aulas do segundo período. Nem cheguei a sair do vestiário e Shelby mais duas estudantes, Clarisse e Mary, que também estavam nas arquibancadas, me abordaram para começar um verdadeiro interrogatório. “Como você fez aquilo?”, “Há quanto tempo você treina?”, “Foi Daniel quem te ensinou?”. Pelo amor de Deus! Elas não me davam tempo nem para respirar, quanto mais para responder. Eu fiz o que pude. Disse apenas que não fazia idéia de como eu tinha feito aquilo e que, provavelmente, era apenas um golpe de sorte de principiante. Miles nos encontrou no caminho do almoço.
- Hey! – Ele disse sorrindo, enquanto se aproximava de mim – Você se saiu muito bem lá! Ainda bem que não era eu no lugar dele!
Eu ri, aproveitando a oportunidade para me aproximar dele e me afastar das outras que ainda estavam relembrando o ocorrido.
- É, foi sorte, eu acho. – Respondi um pouco sem jeito. A verdade era que essa desculpa não estava colando mais, nem mesmo para mim. Já era a segunda vez que eu sabia como lutar e não tinha idéia de como ou por que.
- Sei... – Foi tudo o que ele disse. Com Miles era assim, simples, fácil. Ele nunca forçava nada.
- E você? Por que você foi convocado? – Perguntei enquanto preenchia minha bandeja com macarrão, água mineral e uma maçã para sobremesa.
- Bom, eu acho que eles pensam que minha habilidade para criar reflexos de outras pessoas pode vir a ser útil no meio de uma batalha, sei lá. – Disse ele enquanto escolhia sua refeição.
- Mas você não gosta disso? Quer dizer, de lutar? – Perguntei a ele.
- Eu gosto da idéia de poder proteger alguém, mas não sei se é a minha praia. – ele respondeu meio indeciso – Quer dizer, eu sempre fui muito bom com os videogames, mas não sei se posso fazer isso sem um joystick.
Sorrimos um para o outro. A verdade era que Miles tinha tudo para ser um bom lutador. Ele era alto e tinha um físico bom, era ágil e talvez sua habilidade pudesse realmente ser uma distração e tanto no calor da batalha. Mas ele me parecia tão pacífico... Era estranho pensar nele empunhando uma espada e perfurando alguém, ele não fazia esse tipo, pelo menos não pra mim.
Após o almoço minha vida se tornou um verdadeiro inferno. A todo o momento vinha um grupinho de nephilins me perguntar sobre o que tinha acontecido no ginásio. Eu parecia um gravador quebrado, sempre repetindo a mesma história para todos. Já estava ficando chato. No último tempo de aula eu estava realmente de mal humor. Sentei afastada dos outros, no fundo da sala. Shelby e Miles não estavam comigo nesta aula. Melhor. Eu queria mesmo ficar sozinha. Eu estava tão no fundo da sala que encostei a cadeira na parede atrás de mim e apoiei minha cabeça nela. Eu já nem fazia idéia do assunto que estava rolando nos slides lá na frente e meu computador estava em branco na página de anotações. A todo o momento, pop-ups apareciam em minha tela, sempre de um outro aluno me perguntando detalhes sobre o treino. Meus olhos pesaram e imagens minhas empunhando uma espada prateada contra um banido e dando uma joelhada em um colega estavam dançando em minha cabeça. Foi nessa hora que eu vi. Havia no canto da sala mais próximo uma pequena sombra. Parecia que alguém tinha derramado café no chão. Ela dançava lentamente no mesmo lugar.
A pessoa mais próxima a mim estava a minha direita, um pouco mais a frente. Apenas com sua visão periférica, minha colega nephilin poderia ver o anunciador que dançava no canto da sala, mas ela parecia não ter ciência do que estava acontecendo. Fixei meu olhar na sombra. Era tão bom não temê-la. Por muitos anos isso aconteceu, mas não mais. Agora eu sabia o que as sombras eram e sabia também que poderia me dar alguma informação. Concentrei-me. Com muito esforço mental eu consegui fazer com que ela fosse deslizando lentamente no chão em minha direção até ficar a poucos centímetros do meu pé esquerdo. Com muito cuidado e sem me mexer bruscamente eu abaixei, como se fosse para pegar algo que havia caído. Minhas mãos foram firmes e ágeis. Agarrei o anunciador e não pude evitar que meus pêlos se eriçassem ao contato com sua superfície fria e de textura esquisita. A pequena sombra mais parecia uma geleca que tentava escapar de minhas mãos, mas eu consegui colocá-la sobre a mesa. Meu notebook estava um pouco afastado e como estava trabalhando com o anunciador em frente a ele, Carlo, o professor que estava divagando a frente da classe, não podia ter uma visão clara do que eu estava aprontando. Steven me disse várias vezes para não tentar obter informações de anunciadores longe de supervisão. Como sempre, eu não obedeci. Eu podia sentir que ali havia algo importante. Como uma massa de pizza instável, fui tentando esticar a sombra sobre a mesa com as mãos. Nada muito exagerado, apenas o suficiente para formar uma película sobre a mesa. A sombra aquietou e assumiu uma forma um pouco mais sólida. Com a ponta dos dedos, fui moldando a fria “massa” para parecer uma tela. Quando terminei, respirei fundo e me concentrei ainda mais.
- Mostre-me. – Ordenei quase de forma inaudível.
Por alguns momentos, nada aconteceu. De repente, imagens borradas começaram a surgir, como uma pintura mal feita. Minha cabeça foi se aproximando da “tela” para visualizar melhor as imagens que, ao mesmo tempo em que em me aproximava, pareciam ficar cada vez mais nítidas. Eu vi um rio. Na beira do rio eu vi duas pessoas lutando. Eram duas mulheres. Uma era adulta, com um coque nos cabelos castanhos. Suas roupas estavam rasgadas e estavam manchadas de sangue. Pelo que vestiam, pude perceber que era uma época antiga, medieval. A mulher adulta de coque no cabelo lutava bem, muito bem. Mas parecia que ela estava cansada. Ela empunhava uma espada diferente, muito fina, me lembrava muito um florete, mas era um pouquinho mais espesso e rígido. Ela manuseava o objeto com precisão e habilidade, estava tentando a todo custo derrubar sua adversária. Foi só então que eu reparei contra quem ela estava lutando. Era eu.
Não eu, exatamente, mas uma de minhas muitas encarnações passadas. Eu era bem mais nova que minha adversária, estava em um vestido encardido e meio rasgado, mas pude ver que era conseqüência da luta que travava. Não havia sangue em mim. Bom. Meus longos cabelos negros e ondulados estavam presos em uma trança lateral que dançava para todos os lados de acordo com os movimentos que eu fazia. Eu era boa, muito boa. Minha outra eu se movia com leveza e agilidade. Eu percebi que a outra Luce tinha plena consciência do que fazia. Assim como eu tive nessa vida, quando enfrentei o banido e meu colega nephilin a pouco tempo. Ela, eu, tinha em cada uma das mãos uma pequena espada fina e prateada. Elas não eram grandes, tinham mais ou menos o tamanho do meu antebraço. Eu as segurava como se fossem parte do meu corpo. Por mais que minha adversária tentasse me acertar, ela não conseguia. Eu a bloqueava com rapidez e sempre revidava o ataque de maneira eficiente, sempre entrando em contato com o corpo dela e infringindo-lhe algum novo corte. Daí suas manchas de sangue nas roupas. Meus movimentos eram precisos. Eu vi que a outra Luce, com um pequeno jogo de corpo, desviou de um ataque fulminante da espada adversária. Quase que imediatamente depois, ela, quer dizer, eu, cravei as duas pequenas espadas no abdômen de minha agressora. Como dois dentes cravados em uma artéria, sangue começou escorrer lentamente das perfurações causadas por minhas pequenas espadas, e ela caiu no rio.
Meus olhos estavam ressecados pelo tempo que eu passei sem piscar. O sinal do fim das aulas soou e eu dei um pulo na cadeira, batendo a cabeça na parede atrás de mim. Como mágica, a sombra deslizou para baixo, para o chão, novamente assumindo a forma de água negra e fosca e foi se esgueirando para o canto de onde veio.
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