Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
9 Capítulo 9
Eu estava agitado. Não consegui me concentrar em nada durante todo o dia. Estava farto de ter de tomar tantas decisões. Desde que resolvi ficar em Shoreline definitivamente, Francesca havia me requerido para praticamente tudo. Eram tantos ajustes, tantos problemas para resolver. A segurança de todos em nossas mãos — em minhas mãos — e eu não conseguia pensar em nada além dela, Lucinda. Não pude evitar sorrir quando vi o estrago que ela fez naquele pobre nephilin hoje pela manhã. Tão natural, tão Luce. Lembrei-me imediatamente da época em que ela era uma das guerreiras, em um tempo muito distante, em uma das muitas vidas em que me apaixonei por ela. O nephilin não tinha chance. Era uma covardia, é claro. Quem não se deixaria distrair por ela? Eu entendo o pobre garoto. Talvez até mesmo eu poderia perder. Não me importaria. Sua presença já é o suficiente para me desconcentrar. É estranho como ela parece não perceber o quanto me afeta somente por estar presente.
Por este motivo eu a tenho evitado estes dias. Eu tinha tanto a fazer, tantas obrigações, que não poderia me deixar distrair.
O ataque dos banidos no momento mais vulnerável possível e a lembrança de que eu quase a perdi, de novo, eram dolorosas demais. Eu estava sensível, instável. Eu ainda não havia aprendido a controlar meu corpo humano e minhas sensações completamente, mesmo depois de tanto tempo. O que aconteceu em Shoreline e o fato de que eu não pude protegê-la, me faziam querer ficar ao lado dela mais que tudo. Mas, novamente, as obrigações e o dever não podiam ficar de lado.
Fazia uma noite especialmente fria. Era tarde da noite quando eu, Steven, Francesca e os outros ,finalmente, entramos em acordo e terminamos a reunião. Fui para meu quarto, na cobertura do prédio principal. Era um belo quarto, não podia negar. Um sorriso bobo passou por meus lábios só em imaginar Luce aqui comigo. Eu precisava vê-la.
Tomei um banho rápido e me vesti. Fui até as portas de vidro de correr que ficavam atrás da aconchegante cama king size, abri-as e inspirei o gélido ar da noite, abri as asas e voei em direção ao dormitório onde ela ficava. Cheguei a sua janela em poucos segundos. Já sabia de cor onde era, pois toda noite antes de dormir eu vinha visitá-la. Mas hoje, eu precisava de mais do que apenas vê-la, precisava mais de Luce.
Silenciosamente eu abri a janela e entrei. O ar cheirava tão bem. Tinha o cheiro de seu xampu e de seu perfume. Na escrivaninha estava o notebook, em modo de espera, e também vários livros e papéis. Dirigi-me a cama. Ela dormia suavemente enrolada em um edredom. Eu vim tão decidido a falar com ela, a apertá-la contra mim... mas agora, como eu poderia acordá-la? Ela passou por muito ultimamente e eu queria que seu corpo se recuperasse por completo. Infelizmente, eu teria que me contentar apenas em observá-la dormir, de novo. Ela se virou. Luce estava va com um sorriso nos lábios, provavelmente sonhando. Não pude evitar imitá-la. Então, de repente, ela abriu os olhos e me encarou um pouco atordoada.
Ela levantou rapidamente com o susto por me ver ali, de pé, no escuro, encarando-a.
- Oi meu anjo – eu disse o mais suavemente possível para não assustá-la mais – desculpe se acordei você.
Ela parecia meio grogue e surpresa ainda, acho que estava ponderando se era sonho ou realidade. Fui para mais perto. Ela havia levantado com o susto e estava abraçando o edredom de maneira defensiva. Luce esticou uma das mãos e tocou meu rosto. Senti meu estômago dar uma cambalhota e um leve arrepio suiu pela minha espinha quando seu suave toque me atingiu.
- Não estou sonhando então. – ela disse sorrindo, ainda tocando meu rosto.
Eu puxei de leve seu braço estendido, forçando-a a chegar para frente, e a abracei pela cintura. Meu corpo respondeu imediatamente ao contato com o dela. Era sempre assim.
- Eu precisava ver você – eu sussurrei em seu ouvido.
Senti seu corpo relaxar no meu e um sorriso iluminou seu rosto sonolento. Pus uma das mãos atrás de sua cabeça e delicadamente a puxei em direção a minha. O toque de seus lábios aos meus enviou uma corrente elétrica por meu corpo. Nosso beijo rapidamente evoluiu para algo além do suave. Era disso que eu precisava: seus lábios, seus beijos, seu corpo, sua alma junto a minha. Eu precisava dela mais que tudo. A necessidade do meu corpo por oxigênio não era nada comparada a da minha alma pela dela.
Foi ela quem se afastou suavemente. Ela estava sem fôlego. Eu sorri por isso. Gostava da sensação de deixá-la assim.
- Pensei que você queria apenas me ver... – ela disse entre risos e ofegante, enquanto se afastava apenas o suficiente para me olhar por inteiro.
- Eu quero muito mais do que apenas ver você, Lucinda. Sempre. – eu disse olhando-a nos olhos.
Eu a senti estremecer. A noite estava bela, apesar de fria. A luz da lua iluminava o pequeno e confortável quarto, me permitindo ter uma visão quase que perfeita dela. O edredom jazia agora no chão a nossos pés. Ela estava vestindo uma camiseta rosa, ligeiramente apertada, que ia até pouco abaixo do umbigo, e um short branco de cotton agradavelmente curto. Absolutamente linda. Ela estava arrepiada e eu percebi que deveria estar encabulando-a polo jeito que eu estava olhando pra ela, mas era tão difícil desviar o olhar.
- Desculpe, vou fechar a janela. – eu disse virando de costas e me direcionando até a janela. Foi com muito esforço que consegui parar de encará-la. Uma tentativa inútil de melhorar a situação — Está frio lá fora e me esqueci de fechar depois que entrei. – falei enquanto abaixava o vidro.
Ela se dirigiu até mim, pegou minha mão e disse sorrindo:
–Eu não estou tremendo de frio, Daniel.
Abaixei a cabeça e sorri. Ela sempre sabia como me deixar sem palavras. Sempre foi assim, desde sempre. Eu enfrentava exércitos, todos os tipos de seres demoníacos, banidos, caídos, o que fosse. Tinha eras de experiência em batalhas e, ainda assim, ela conseguia me fazer ficar sem ação.
Apertei sua mão e a puxei para mim novamente. Meu corpo não podia ficar sem o dela por perto. Parecia que nada era perto o bastante para saciar minha vontade. Nosso beijo dessa vez foi mais doce, onde eu tentei mostrar todo o amor que sentia por ela. Quando paramos, ela sorria e eu também. Ela me levou até a cama e deitou. Fez sinal para que eu me juntasse a ela. Deitei ao seu lado e a puxei para mim. Ela pôs a cabeça em meu peito e eu a envolvi num abraço. Quando ela olhou pra cima, seus olhos estavam brilhando. Tenho certeza que os meus também.
- Eu tive uma visão hoje... – ela começou suavemente – sabe, do meu passado...
Estreitei um pouco os olhos. Ela não tinha jeito! Luce não tinha idéia de como se arriscava quando observava o passado através dos anunciadores. Mantive a calma, o máximo que pude, e disse:
— Estava brincando com o fogo de novo, meu anjo? Você sabe que não deve fazer isso sozinha.
Eu estava acariciando seu cabelo levemente e tentei não soar tão rude ou preocupado.
- Eu sei, mas... – ela continuou – Eu não fui atrás dela, não foi totalmente intencional.
- Totalmente, é? – eu disse enquanto enrolava uma pequena mecha de seus curtos cabelos em meus dedos.
Ela voltou a deitar sobre meu peito e passou um braço por cima, repousando a mão em meu abdômen.
- Eu vi de onde eu aprendi a lutar.
Por alguns instantes eu não disse nada. Eu não podia condená-la por querer saber sobre seu passado, ou sobre quem ela era. E ,de qualquer maneira, eu teria que explicar, mais cedo ou mais tarde, de onde vinha essa vocação inesperada.
- Bom, você era muito boa, realmente. – eu disse com um sorriso nos lábios.
Ela deu um pequeno salto de excitação, ficou sentada de pernas cruzadas me encarando, seus olhos brilhando.
- Eu era, não é? Eu me vi lutando contra uma mulher na beira de um rio, sei lá, tipo, há séculos atrás... mas eu consegui vencê-la..e muito bem! – Luce estava falando rápido pela empolgação e não pude evitar de rir – Me conte! Por favor! Me fala um pouquinho daquela época... você... a gente já...
- Sim, eu conheci você naquele tempo. – respondi tranquilamente. Era bom relembrar daqueles tempos. Ela apertou minha mão esquerda entre as dela. Ela queria mais. – Era meado do século XIV. Você fazia parte de um grupo de rebeldes que lutavam contra o sistema da época. Desde muito nova você começou a aprender sobre a arte da batalha, sabia manejar uma espada como poucos... Suas habilidades eram inatas, impressionantes.
Ela estava extasiada. Pude ver que ela sentia orgulho de ter sido uma guerreira tão boa. E ela era.
- E, como a gente se conheceu? – ela perguntou timidamente, temendo que eu não fosse responder, como geralmente fazia. Eu respirei fundo e meu coração acelerou levemente.
- Eu... encontrei você na floresta. Você estava treinando com um outro guerreiro e eu estava passando por uma estrada próxima quando escutei vocês e fui até lá. – Menti.
Ela acreditou, pois seu sorriso aumentou significativamente. Eu me odiei por isso.
- E minhas habilidades de luta te impressionaram tanto que você se apaixonou por mim rapidinho! – Ela brincou enquanto se aproximou para me beijar.
Interrompi nosso beijo cedo demais. Coloquei seu rosto lindo e delicado entre minhas mãos e dei um beijo longo em sua testa.
- Eu te amo, Lucinda.
- Eu também amo você. – ela respondeu.
Levantei-me e fui em direção a janela pela qual havia entrado.
- O que foi? Você já vai? – Ela perguntou com uma nota de desespero, enquanto levantou-se e caminhou em minha direção.
- Você precisar dormir agora, e eu tenho que ir também.
Ela suspirou tristemente. Era sempre uma agonia para nós dois quanto tínhamos que nos separar.
- Ah! – eu disse abrindo o fecho da enorme janela e levantando a parte móvel – No próximo treino acho que você pode sair do grupo dos novatos, então.
Ela arregalou os olhos levemente, mas não disse nada. Eu senti que era isso o que ela queria.
- Não se preocupe, você vai se sair muito bem. Está em você. –eu falei antes de dar-lhe um rápido beijo nos lábios. E saí.
Estava de volta na sacada do meu quarto, do outro lado de Shoreline, e meus lábios ainda formigavam pelo contato com os dela. Eu tive que sair de lá antes que revelasse algo mais. Meu coração doía cada vez que eu tinha que mentir pra ela, mas o que mais eu podia fazer? Como será que ela iria reagir a verdade? Como eu poderia contar a ela que aquela foi a primeira vez que nos encontramos? Que era minha missão dar um fim a sua vida, mas que eu falhei?
Ainda me lembro nitidamente da primeira vez que a encontrei. Ela estava sozinha, a beira do rio que ficava próximo ao acampamento dos rebeldes. Eu sabia que estaria lá, afinal, nós sempre sabíamos onde deveríamos estar. Anjos eram assim. Foi-me dada uma simples missão: cumprir com os planos maiores e levar deste mundo aquela que teria o poder de mudar a história daquela época. Eu poderia ter designado qualquer outro anjo para a tarefa, mas resolvi me encarregar do assunto pessoalmente. Eu tinha planejado fazer de forma rápida e indolor, como sempre fazia, quando era designado a tarefas assim. Nunca questionei minhas ordens, eu sempre soube que não deveria questionar os planos divinos. O que era pra ser, era pra ser. Mas tudo mudou quando a encontrei naquele dia.
Lucinda estava sentada a beira do rio. Seus pés tocavam a água e ela estava cantarolando baixinho, parecendo feliz. Os rebeldes haviam ganhado uma importante batalha contra os exércitos da igreja no último vilarejo pelo qual eles estiveram e ela foi uma das peças fundamentais da vitória. Ela polia um de seus Sai*, o outro jazia na grama ao seu lado. Ela era uma extraordinária e letal usuária desta arma e era com eles que vencia todas as batalhas que disputava. Mas isso estava prestes a mudar. Não havia a menor chance de ela vencer uma batalha contra mim, por melhor que ela fosse. Ela até poderia derrotar um anjo, apesar de não poder matá-lo, se lutasse com tudo o que sabia. Mas não a mim.
Aproximei-me silenciosamente por trás da garota. Eu estava desarmado e vestia uma das roupas da época, era assim que nos camuflávamos entre os humanos. Ela percebeu imediatamente que não estava sozinha e levantou já empunhando o par de sai em posição de ataque, em minha direção.
Ela me encarou duramente, ainda apontando os sai contra mim.
- Quem é você? O que você quer?- perguntou ela de forma ríspida, começando a se aproximar lentamente, encurtando os metros que nos separavam.
Eu levantei vagarosamente minhas mãos para que ela pudesse ver que estava desarmado, apesar de ser totalmente desconhecido pra ela que eu não precisava de arma alguma para derrotá-la.
- Fique tranqüila, não vou feri-la. – comecei suavemente, eu precisava ludibriá-la – Me chamo Daniel. Daniel Grigori.
E foi a partir daí que minha vida mudou completamente.
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