Notas iniciais
Gente, não se esqueçam que eu apenas usei os livros como base. NÃO é uma continuação. Alguns personagens não vão aparecer, outros surgirão e outros, ainda, serão um pouquinho diferentes. Espero que gostem. Comentem!

Eu estava parada diante de uma cena de horror. Depois dos acontecimentos desta noite, não tive como me segurar em pé sozinha. Apoiei-me na árvore mais próxima com uma das mãos, enquanto tentava, em vão, manter o controle. Minhas mãos e pernas tremiam violentamente e o cheiro de ferrugem e terra molhada que inundavam minha cabeça só me fizeram piorar. Estava enjoada. O tipo de enjôo que você tem quando olha pra um bando de corpos desfigurados bem a seus pés. Eu sabia que o cheiro de ferrugem que sentia vinha do sangue derramado deles e a terra estava encharcada de morte.

Eles tinham vindo por mim. Bem, não por mim exatamente, mas pelo o que elu representava para eles. Eu sabia que a trégua entre os anjos e os demônios ainda existia, mas havia uma classe particularmente irritante de seres que não a respeitavam. Os banidos não eram anjos ou demônios, portanto, não respeitavam a lei. E o dia que eles escolheram para atacar não poderia ser mais oportuno: a escola estava desprotegida, pois muitos dos anjos – sim, existem anjos em minha escola – não estavam. Aliás, nenhum deles estava. Quer dizer estavam, mas não estavam. Era noite de ação de graças. Engraçado. Deus tem um senso de humor e tanto. No dia em que nós – humanos – damos graças a Ele e O agradecemos por tudo o que aconteceu em nossas vidas, os anjos também o fazem. Arriane me explicou que nesse dia, durante uma hora inteira, os anjos perdem o domínio de seus corpos e entram em um tipo bizarro de meditação profunda. Isso ocorre contra a vontade deles, é claro, uma vez que são anjos caídos, espera-se que eles não tenham mais que ter esse tipo de domínio imposto. Mas não é assim que funciona. Mesmo para os demônios – sim, demônios – o blackout acontece. Essa é a palavra que Arriane utilizou para definir o momento. Mesmo que não faça o menor sentido, apesar de tudo, demônios ainda são anjos. Mas os banidos não.

Naquele dia, mesmo nas primeiras horas do dia em que as atividades transcorriam “normalmente” em Shoreline – se é que posso dizer que há algo normal por aqui – havia muita tensão no ar. Eles – os anjos – se sentem vulneráveis demais, e, acredite, eles não são boa companhia quando estão se sentindo assim.

Em Shoreline era tudo diferente. Os alunos eram nada mais, nada menos, que nephilins – prole de anjos caídos com humanos. Cada um deles possuía um tipo diferente de habilidade, que podia variar desde uma força sobre humana até a capacidade de falar mais de dez idiomas. Tudo dependia do quanto de “sangue divino” corria em suas veias. Você podia ser filho direto de um imortal ou até mesmo um parente distante, onde o sangue já foi diluído o suficiente para você não se destacar muito, por assim dizer. Em Shoreline, anjos – e demônios, é claro – lecionavam. Uma parte importante das aulas eram os treinamentos físicos, preparação de batalha. Nem todos os nephilins faziam este tipo de treinamento, apenas os que possuíam algum tipo de habilidade que os permitissem fazê-lo. A maioria possuía uma força, velocidade ou resistência superior a de um humano convencional, ou até uma habilidade de manusear algumas daquelas armas bizarras e arcaicas que os anjos tanto gostam de usar. Eu, obviamente, não possuía nenhuma dessas habilidades de guerra especiais, portanto, não participava destas aulas, mas gostava de assistir. Não me pergunte o porquê.

Na manhã de ação de graças eu fui observar um de seus treinamentos – com o perdão do trocadilho, mas graças a Deus as aulas eram suspensas nesse dia. Mas os treinos não. Eles nunca eram. Havia algo de incomum no comportamento dos professores e logo que Arriane me contou sobre o blackout, eu entendi o motivo. Ela disse que quando desse 16h – e não me pergunte a razão pela qual este número é tão importante – a escola estaria desprotegida, uma vez que todos os anjos estariam “fora do ar”. Seria, então, obrigação dos nephilins treinados proteger o restante dos alunos. Ótimo. Anjos não gostam de ter seu trabalho feito por outros. Isso pra mim é orgulho, mas achei tal comentário desnecessário de se fazer, Arriane já parecia tensa demais.

E foi assim que aconteceu. As 16h não havia nenhum anjo a vista e, de alguma maneira, eu me senti vazia e vulnerável. Eu queria Arriane comigo. E Gabbe. E Daniel. Sempre Daniel. Onde será que ele estaria nesse momento? Será que eles ficavam, sei lá, escondidos enquanto “dormiam”. Essas coisas de anjos, caídos ou não, nunca fizeram sentido para mim e acho que nunca farão. Fomos instruídos a ficar juntos, quer dizer, apenas nada de ficar cada um em seu quarto. Os nephilins mais fortes e bem treinados estavam tomando conta das entradas principais da escola, enquanto os outros estavam concentrados e atentos, além de altamente armados, se você considerar espadas de metal como altamente perigosas. No que cabe a mim, estava apenas ligeiramente apreensiva. Shelby, Miles e eu estávamos sentados na arquibancada do ginásio onde aconteciam os treinos e muitas outras pessoas optaram por fazer o mesmo. Sei lá, mas parece que quanto mais gente melhor, você se sente mais protegido, ou apenas o seu cérebro entende como uma menor probabilidade de acontecer alguma coisa com você em particular, já que tem tanta gente perto. O primeiro quarto de hora transcorreu muito bem. Nós estávamos começando a relaxar um pouco. Afinal, o que poderia acontecer? Miles estava no meio de uma piada, meio longa até, sobre uma freira e um cachorro falante quando nós ouvimos um barulho ensurdecedor vindo do lado de fora do ginásio. Todos se abaixaram instintivamente e os nephilins guerreiros – eu comecei a chamá-los assim – foram correndo ver o que tinha acontecido. As portas do ginásio se abriram apenas o suficiente para eu perceber o que estava acontecendo: Shoreline havia sido invadida por uma horda de banidos.