Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
3 Capítulo 3
Miles captou a informação ao mesmo tempo que eu, mas foi mais rápido em processá-la. Antes de eu abrir a boca, ele já estava arrastando Shelby e eu por entre a multidão apavorada. Havia apenas um lugar para onde pudéssemos ir, e foi pra lá que fomos. Quando chegamos nos vestiários, meu coração parecia que ia sair do meu peito de tanta aflição.
- Depressa Luce, vc precisa se esconder! – Miles gritou enquanto empurrava uma pequena mesa contra a porta do vestiário masculino no qual havíamos acabado de entrar.
- Você acha mesmo que uma mesa patética de madeira barata vai impedir algum deles de entrar aqui?! – Shelby perguntou incrédula pela atitude de Miles.
Ele não respondeu, ao invés disso ele correu até um armário perto, que mais me pareceu um armário de achados e perdidos e sacou uma chave de fenda. Mais que depressa ele subiu na mesa e começou a desaparafusar uma pequena grade de alumínio, que era a entrada para os tubos de ventilação, e ficava acima da porta do vestiário.
- Você não espera que a gente entre aí, né Miles? – Ela perguntou desafiadoramente, enquanto colava o ouvido na porta do vestiário na intenção de captar alguma coisa do que acontecia lá fora. Eu estava tão apavorada que não sabia o que fazer. Tá certo que eu não era nenhuma heroína nem nada, mas também eu não era a babaca que fica sem ação diante de alguma coisa horrível. Bom, geralmente não. Mas aquela situação em particular me fez perder a cabeça e eu simplesmente travei. Eu podia ouvir gritos e sons estranhos ao longe e também ouvi quando outro grupo de pessoas entrou no vestiário feminino em frente para tentar se proteger. A única coisa em que eu pensava era que se alguém morresse, seria minha culpa. Eu não poderia conviver com isso.
Shelby foi quem me tirou do transe. Miles já havia retirado a tampa da entrada do duto de ventilação e estava em cima da mesa com a mão estendida na minha direção.
- Vai Luce, sobe logo. – Ela disse me empurrando.
- Eu não posso! Não vou deixar vocês! Sem chance! – Eu respondi enquanto encarava a mão de Miles.
- Luce, eles não querem nenhum de nós. É você. Eles não vão nos machucar. A única coisa que você tem que fazer é se esconder até as cinco horas. Quando os anjos despertarem, eles vão resolver. – Miles falou de um jeito firme e determinado pra mim, ainda estendendo sua mão. Shelby me deu apenas um olhar sério, ela não precisava dizer em palavras o que eu já sabia: Miles tinha razão.
- Mas se eu me esconder e algo acontecer com um de vocês, eu não vou me perdoar nunca! – Eu exclamei quase berrando na direção deles. Eu estava com raiva. De tudo. Dessa situação, de ter que colocar gente inocente em risco. De ter que colocar meus amigos em perigo. De não ter Daniel comigo. O que eu deveria fazer?
- Quem não vai te perdoar sou eu se você não calar a boca e entrar logo aí! – Shelby falou me empurrando na direção de Miles, que não perdeu a oportunidade e agarrou meu braço, me puxando para cima. – É como Miles falou, eles só querem você. Vamos ficar bem. Aguente firme até os anjos chegarem!
E foi isso. Quando dei por mim estava me esgueirando pelo tubo de ventilação adentro. Eu podia adivinhar mais ou menos onde cada uma daquelas curvas poderia dar. Fui me arrastando pelos cotovelos da maneira mais silenciosa que podia. Eu fui me esgueirando, subindo algumas vezes e virando aqui e ali. Eu precisava chegar na parte de principal di ginásio, precisava ver o que estava acontecendo. Depois de algum tempo, eu finalmente consegui ouvir alguma coisa. Dois banidos estavam próximos a uma das saídas de ar. Estava frio. Tive que me controlar ao máximo para que minha tremedeira não me denunciasse. Eu só não tinha certeza se eu tremia de frio ou de medo. Provavelmente dos dois.
- Ela não está em nenhum lugar por aqui! – disse um deles de maneira exaltada. – Talvez ela nem esteja em Shoreline! Você acha que Daniel a levou para algum outro lugar?
- Não – Respondeu a voz de uma mulher. Ela parecia decidida. Fria. Ouví-la só fez meu corpo tremer ainda mais. – Ela está aqui, só precisamos encontrá-la. Nosso tempo está se esgotando. Se eles acordarem, estaremos mortos.
Somente a menção do nome dele foi o suficiente para meu coração acelerar. Daniel. Fazia dias que não o via. Ele sempre envolvido nessas coisas de anjos e guerras e tréguas e segredos. E tudo, dizia ele, pra minha proteção. Algumas coisas haviam melhorado desde que cheguei em Shoreline. Apesar de ficar longe dele, eu comecei a aprender, bom, mais ou menos, a controlar as sombras que me cercavam e, quando eu tinha muita sorte, revelar alguma coisa de minhas muitas vidas passadas. Todas ao lado dele. Ou quase. Dessa vez era diferente. Eu não tinha entrado em combustão como das outras vezes. Quer dizer, eu entrava em combustão com ele, mas nada que me matasse, não era fogo real, apenas o fogo que queima em mim toda vez que ele está por perto e no qual eu quase me consumo quando nos beijamos. Só de pensar, de lembrar como é a sensação de estar com ele...
Um barulho alto que vinha do lado de fora do tubo onde eu me esgueirava, me trouxe de volta a realidade. Uma terrível realidade.
- Me diga!! – Gritava uma voz grave e urgente. – Onde está Lucinda Price?
O oponente do banido deixou sair uma risada desdenhosa, que até eu me espantei em ouvir.
- Por que você não vem aqui e tenta arrancar esta informação de mim, banido?
Essa não. Eu conhecia essa voz desafiadora. Era Taurus, um dos nephilins mais fortes e bem treinados que Shoreline tinha. Ele era uma pessoa ótima, eu gostava de conversar com ele depois dos treinos. Eu não me agüentei de ansiedade, precisava ver o que estava acontecendo. Me arrastei os poucos metros que faltavam até atingir o final do duto de ventilação. Eu estava no lado oeste do ginásio e da minha posição consegui apenas enxergar o pedaço de uma luta violenta entre os guerreiro nephilins e os banidos. Sinceramente não pudia dizer muita coisa,muito menos quem estava derrotando quem. Eu sabia das habilidades do nephilins guerreiros, mas eu também sabia das habilidades dos banidos. Eles eram seres imortais, ex-anjos. Não possuíam asas, pois estavam lançados a própria sorte: foram rejeitados pelo Céu e pelo Inferno, e quando isso aconteceu, eles perderam a capacidade de voar, mas não as habilidades de luta, infelizmente. Taurus empunhava uma espada velha, mas que me pareceu pesada e afiada o suficiente para fazer um estrago. Ele e o banido estavam se rodiando, se estudando. O ex-anjo também empunhava uma espada, mas essa me parecia mais leve e de fácil manuseio. Era linda, como prata líquida. E brilhava. Com um rápido movimento o banido, que não era tão corpulento quanto Taurus – daí seu apelido – atacou. Meu coração, deu um salto, mas Taurus era muito bom e se esquivou do golpe a tempo e revidou. A luta seguiu de igual pra igual. Com a precisão de um gato, Taurus saltou em seu oponente, que, eu percebi, não esperava tal agilidade, vindo de alguém tão grande. O ataque resultou no desarme do banido. Sua espada prateada voou alguns metros, longe do seu alcance. Quando Taurus posicionou sua velha e pesada espada no pescoço do surpreso imortal, outro banido, uma mulher na verdade, chegou por trás de Taurus e o arremessou para frente. Ele caiu por cima do outro e sua espada também caiu de suas mãos. Agora, os dois estavam em cima de Taurus e desferiam golpes potentes e rápidos, que meu colega tentava desviar como podia. Eu não agüentei mais assistir. Não agüentei mais me esconder. De uma maneira meio estranha consegui virar meu corpo de modo que meus pés estavam voltados para a saída do duto e chutei a grade de alumínio o mais forte que consegui. Foi o suficiente para que os dois parafusos de cima se soltassem e a grade abrisse como uma porta de gaiola de hamster. O barulho fez os dois banidos interromperem o ataque a Taurus, que aproveitou o momento para se desvencilhar e ficar de pé. Eu saí de dentro do vergonhoso tubo de ventilação. O que eu estava fazendo ali desde o início? Eu fui covarde e medrosa demais para agir e minha hesitação provavelmente resultou na morte de muitos estudantes. Eu não poderia agüentar mais.
- Chega! – Eu gritei a poucos metros de distância de onde eles estavam. Meu corpo tremia inteiro, mas não era de frio, ou de medo. Não mais. Era raiva.
- O que você está fazendo, Luce? – Taurus me perguntou em perfeito espanto.
- Ora, olha quem nos deu a honra de sua presença, Lucinda Price. – Disse a imortal que atacou Taurus por trás. No chão, eu pude ver o que estava realmente acontecendo. Os guerreiros nephilins estavam tendo muitos problemas. Eram muitos banidos para eu contar. Muitos corpos no chão. Muito barulho.
- Eu não quero que este banho de sangue continue. Vocês não precisam mais disso. Vocês têm a mim. Mandem os outros pararem, já têm o que vieram buscar. – Minha voz saiu muito mais calma do que eu pensei, muito mais alta e firme do que jamais imaginei que poderia conseguir. Um sorriso triunfante brotou na face dos dois banidos que me encaravam, e um verdadeiro pânico no olhar de Taurus.
- O que você ta fazendo? Nós deveríamos te proteger, você não pode se entregar! – ele disse desesperado. Taurus correu em direção a sua espada velha, mas a outra estava mais perto e foi mais rápida. Ela pegou a espada do chão e apontou na minha direção.
- Pare! – Ela ordenou – Agora!
Taurus parou instantaneamente. Eu suspirei fundo e me encaminhei até o outro que, agora eu via, estava bem machucado e sangrando. Com um sorriso de vitória ele agarrou meu braço, andou comigo até sua linda e prateada espada que jazia sozinha a alguns metros e disse:
- Vamos embora.
Nesse momento eu vi com o canto do olho Miles e Shalby, suados e feridos, mas para meu alívio, estavam vivos. Seus rostos refletiam o mesmo horror que o de Taurus e nenhuma palavra precisou ser dita.
Como se Deus em pessoa tivesse aparecido, o ginásio de repente silenciou. Antigamente eu diria que foi porque um anjo passou, mas já não acreditava mais nisso. As lutas foram interrompidas e os banidos começaram a se dirigir para a saída, como se uma ordem tivesse sido dada, mesmo que ninguém o tenha feito.
O imortal ainda me segurava pelo braço, com mais força do que precisava, mas não reclamei. Fomos andando em direção a saída de Shoreline. Não havia sol. O tempo estava nublado. Eu pude ver que também do lado de fora do ginásio havia tido duelos. Pela minha rápida análise, os poucos corpos que estavam no chão não eram de estudantes, mas de banidos. Acho que foi pelo fato de os melhores guerreiro estarem do lado de fora quando o ataque aconteceu, o pior foi lá dentro, onde haviam muitos não guerreiros. E quanto ao resto da escola? Eu não sabia, e algo me disse que eu jamais saberia mesmo. Aliás, eu não sabia de nada. Nem o que aconteceria comigo ou com meus amigos depois que eu fosse, ou com minha família – mais uma que me perderia precocemente. Era meu destina afinal. Conhecer Daniel e morrer. Daniel. Como será que ele se sentiria quando soubesse. Eu fechei os olhos e engoli as lágrimas que começaram a querer brotar. Eu sabia como eu me sentiria se o perdesse, devastada, sozinha, morta. E ele que teve que enfrentar essa situação tantas e tantas vezes... tenho certeza que não é algo com que você se acostuma, nem mesmo se você for um anjo.
Eu abri os olhos, ainda caminhando. Olhei de relance para trás, para Shoreline, onde estavam pessoas queridas e inocentes. Um lugar onde eu tinha aprendido tantas coisas... Respirei fundo. E encarei os portões abertos a minha frente, portões pelos quais eu atravessaria pela última vez.
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