Notas iniciais
Desculpem-me pelo fato de estar repostando!!

Capítulo Um

Caneta

E lá estava eu, andando pela cantina apressada, sendo puxada por Ino que insistia em me dizer o quão estava enraivecida. Não era novidade o quanto que a loira se metia em confusão, todavia me envolver jazia à parte.

Estava cursando há quase um ano medicina na Universidade de Konoha, com uma bolsa conseguida em um concurso muito concorrido. Problemas era a ultima coisa que eu queria e precisava. Mas Ino não parecia lembrar-se disso ao debater constantemente com os professores e sempre envolver-me em discursões, para que eu assentisse e concordasse com o que ela pensava.

– Não se preocupe Sakura. Encrenca é a ultima coisa que vamos ter.

E ainda me puxava em direção ao banheiro feminino. O som dos saltos de sua bota contra o chão do corredor que agora entravamos, era o único som que se destacava mesmo que ainda pudéssemos ouvir risadinhas e cochichos dos alunos.

– Porque sempre nos mete em confusão, Ino? – Podia ver seu revirar de olhos enquanto apertava minha mão com mais força. – Sabe que eu estudo com uma bolsa.

– Você é boazinha demais, Sakura. Uma ótima garota. Não é como se fosse ao menos levar uma bronca.

Meus olhos estreitaram-se ao adentrarmos no banheiro, logo em seguida trancado a porta.

Ino grunhiu ao olhar-se no espelho, vendo-se completamente roxa.

– Ele me paga, Sakura, ele me paga!

Tratei de segurar o riso enquanto a via tirar a blusa.

– Você sabe o que fez. Você é porca, mas não admitiria nem a pau!

– Como assim, Sakura, está o defendendo? – Virou-se vermelha enquanto tratava de se limpar com a água da torneira.

– Não. Derramar suco em você não foi nada maduro! — “Mas foi mil vezes melhor do que se ele tivesse lhe esbofeteado”. Pensei enquanto pegava a blusa suja da pia e a enrolava para por na mochila de Ino. – Mas, Ino, você o ofendeu absurdamente.

– Ele mereceu! É claro que mereceu!

– Clara senhora da razão, embora tenha sido você a comparecer diante dele com todo o seu esplendor, ele nunca foi digno! – Debochei curvando-me enquanto ela terminava de fechar o zíper de seu casaco vermelho. – A propósito, você fica bem de roxo.

A loira esbelta e curvilínea, mesmo com aquele enorme casacão continuava bonita, tinha de admitir. Eu sumia ao lado dela como um fósforo se comparado a uma fogueira. E eu realmente não queria que a única coisa atrativa em mim – mesmo que um pouco bizarro – fossem os meus cabelos rosa. Eu era magra com minhas pernas cumpridas, sendo um bom ponto do qual fazia minha autoestima subir. Meu traseiro era um contraste com a finura da minha cintura, porém não compensava a falta de busto. E minha testa...

– Sakura, sua cadela! Você vai me emprestar a sua jaqueta caso a Karin peça que eu a devolva o casaco hoje. – Ou ela estaria sem nada para cobrir seu sutiã.

– Que forma educada de pedir um favor!

Então saímos do banheiro nos deparando com um corredor vazio coberto de um silencio costumeiro de quando as aulas já haviam começado.

– Estamos ferradas. – Ino sussurrou assim que abria a porta da sala de aula para logo entrar dizendo um com licença envergonhada.

Corei assim que toda a sala se virou para nos olhar.

– A senhorita... – A professora Tsunade começou a dizer, contudo logo tratou e corrigir-se assim que avistou minha figura enrubescida sair de trás da Yamanaka. – As senhoritas estão atrasadas. – Olhou-me e de repente me senti a criatura mais suplicante de toda a face da Terra. Arregalei meus olhos enquanto os sentia brilharem em expectativas. – Mas tenho certeza que não se repetirá, não é mesmo, Haruno?

– Cla-claro que não! Quero dizer, não se repetirá!

– Ótimo!

A professora Tsunade era a professora que mais pegava no meu pé. Eu até tinha um pouco de medo da sua matéria, onde eu persistia com a nota regularmente acima da média. Era decepcionante chegar até ela e a ver balançar a cabeça negativamente se tinha alguma coisa a qual ela achava que eu não estava me esforçando o suficiente. Porém eu também me reconhecia como a aluna a qual ela mais se dedicava a ensinar. Ela via potencial em mim, por isso me orgulhava, e mesmo que rígida, eu tinha uma relação comparável à amizade com a professora loira.

E então deslizei para um assento vago no fundo da sala com olhares curiosos me acompanhando. Eu simplesmente odiava estar no fundo.

Tsunade passou umas unidades do livro para leitura e exercícios. Quando o papel da chamada parou em minha mesa, me lembrei de que no dia anterior apanhei o estojo e peguei a caneta para anotar o endereço do apartamento o qual estava disponível no centro a um preço o qual eu poderia pagar. Eu havia me esquecido de devolver a caneta ao estojo, e aparentemente não havia outra de quebra.

Olhei para Ino na segunda fileira, de frente para a mesa de Tsunade. Não iria nem prestes a entrar no inferno, pedir algo emprestado a ela naquelas circunstâncias. Olhei um pouco mais atrás de Ino, no outro lado da sala. Karin, a ruiva inconscientemente enrugava a testa e contorcia a boca, completamente concentrada.

Suspirei. Meu dia estava realmente ótimo.

Primeiro a enxurrada da chuva no caminho para a universidade, depois meu quase atropelamento, a briga de Ino com Gaara...

Era branca e pálida. Olhava aquela mão enquanto depositava calmante a caneta a minha frente e logo virei-me para o colega ao meu lado. Não me encarava, mas sim seu livro aberto. Os cabelos negros que lhe cobriam parcialmente o rosto em um penteado repicado não me esconderam a expressão atraente e compenetrada.

– Obrigada. — Sussurrei após alguns minutos confusos, até que me tocasse que ele havia me emprestado sua caneta Big preta.

Ele era bonito. Realmente muito bonito. Porém o olhar que me enviou logo em seguida – atento em quanto seguia os meus traços – dizia que ele era problema. Sem dúvidas, era o que me parecia.

Então sorri minimamente enquanto abria a tampa da caneta e começava nervosamente a assinar meu nome, fazendo a letra sair pior que a do normal, como teia de aranha grudada em um papel. E em resposta ao meu gesto, recebi um bufar entediado.

Eu até que queria o devolver à caneta, pois era orgulhosa, contudo precisava de algo com que pudesse escrever e responder os exercícios durante a aula.

O garoto ao meu lado havia me ignorado durante os dois tempos. Até mesmo quando eu dirigia a ele, discretamente, um olhar curioso enquanto observava suas anotações. Eu não estava colando, contudo admirando a forma como a mão se movia com delicadeza e de forma rápida fazendo letras com traços tão únicos.

Suspirei quando estava prestes a concluir a tarefa e suspirei de novo enquanto o sinal batia. Era a ultima aula do dia. Eu estava livre agora e prestes a devolver algo que havia pegado emprestado.

– Hm, obrigada por me emprestar a caneta.

– Deveria parar de ficar encarando tanto as pessoas.

– Como? – perguntei perplexa não acreditando que ouvira ele me dando um sermão.

Ele olhou apático e pôs a mochila nas costas para andar entre as pessoas que saiam da sala. Eu o segui e logo o vi mais distante do que eu esperava. Ele era rápido.

Bufei ainda tendo a caneta em mãos, decidida a entregá-la a ele no dia seguinte, ou simplesmente o mandar enfiar a caneta onde bem quisesse junto com a sua grosseria.

– Ei, Gata de Botas!

– Em? – me virei para encontrar Ino e Karin lado a lado saindo da sala.

– Tem que me ensinar isso! – Karin prosseguiu quando me viu ainda confusa. – Sabe, aquele lace com os olhos que você fez e conseguiu convencer a tetuda a deixar vocês entrarem na sala.

– O que? Você fez aquilo de novo, Sakura? – Ino riu. – Você deveria aproveitar o dom que tem. Esse... Dom de ser persuasiva.

– Eu não sou persuasiva. – Defendi-me enquanto voltava na sala para pegar meu material.

– É a mesma coisa que você dizer que Karin, a perfumada, não fede! – Desconversou Ino recebendo um gesto obsceno da ruiva. – E a proposito, você é tão persuasiva que conseguiu fazer Sasuke Uchiha falar com você.

– Isso sim é milagre!

Desviei meu olhar para os pés me lembrando do quão sem atitude fui ao deixar ele me tratar de forma tão abrasiva, mesmo que houvesse me emprestado sua caneta, que era como um alerta de que eu teria que vê-lo de novo no dia seguinte.

– Tsc. — Foi todo o som que proveu de mim até que chagássemos ao carro.

E eu senti um olhar pesando sobre a minhas costas. Minha nuca se arrepiou quando olhei para o vidro do Audi vermelho de Ino. O moreno estava ao nosso lado no estacionamento recostado em um Porsche preto enquanto seus lábios se moviam durante o momento em que dizia algo em tom baixo a um loiro a sua frente. Deu a volta no carro e abriu a porta para logo sentar no assento do motorista. O loiro continuou ali por um instante e abismei-me quando olhou em minha direção com um sorriso que quase não lhe cabia no rosto.

– Vamos, minha filha! – Karin abriu a janela e me olhou com as sobrancelhas arqueadas. – O que você está esperando?

Entrei sentando.

– Sa, o que estava fazendo lá fora parecendo um zumbi? – Logicamente, o tempo em que eu havia ficado olhando o vidro, Karin ao meu lado pensou que eu estivesse olhando através e a mirando.

– Não estava olhando você.

Karin olhou para fora da janela, no meu lado. Era esperta e logo tratou de perceber o que eu talvez estivesse fazendo.

– Perua, ele tem um carrão!

Ino, sentada no banco do motorista respirava de maneira entrecortada enquanto ria de forma maldosa.

– Sakura, você não acha ele atraente? – Então ela começou seu joguinho de provocação aproveitando que a janela do carro estava aberta para me ver envergonhada.

– Não enche!

– Você, a senhorita da castidade, — curvou-se imitando a forma debochada e brincalhona que eu havia a tratado no banheiro. – até andou se maquiando. Olha Sakura, se você gosta do senhor Uchiha, é só ser sincera. Não precisa ficar agindo de forma estranha e chegando atrasada na sala propositalmente só pra sentar ao lado dele. Não sei não, mas pra alguém tão sem experiência em flerte como você, até que está se saindo bem, indo aos poucos.

Como assim? Eu mal o conhecia e a primeira vez que havia o visto fora duas semanas atrás, e mesmo assim, nunca havíamos sequer trocado uma palavra.

– A Sakura tem bom gosto. — Karin voltou a fitar o carro. – Ele tem lá seu charme.

– Ele é um emo muito grosso!

– Então é isso o que pensa dele? – Perguntou uma voz masculina vinda de trás, de fora do carro.

Sobressaltei-me e desejei poder escorrer do acento ao notar que o mesmo loiro que conversava antes com Sasuke, agora estava debruçado na janela que a Karin havia abeto.

– Poxa, eu estou tão orgulhoso. – Sorriu de forma que me deixou sem graça, enquanto as meninas não contiveram os sorrisos estampados de forma discreta. – Mas será que dá pra dar passagem pra gente sair? – E piscou pra mim enquanto se afastava assentindo ao ouvir um desculpe de Ino.

– Cadelas!

***

Minha mãe e eu morávamos em um apartamento próximo da costa e ela quase não parava em casa por causa do trabalho como comissária de bordo. Ela precisava pagar as contas e eu ainda não quis dá-la mais trabalho, por isso permanecia facultando medicina com uma bolsa.

Suspirei pensando no quanto ela me fazia falta. E eu ainda queria realmente sair de casa e viver por conta própria, mas às vezes coragem me faltava.

Éramos apenas nós duas. Minha mãe era tudo o que eu tinha como família e mesmo assim...

Suspirei resignada pondo as mãos sobre o rosto.

A campainha tocou e eu fiz questão de continuar quieta desejando permanecer sozinha. Mas Ino começou a gritar do outro lado da porta como uma desesperada e eu resolvi atender antes que os vizinhos reclamassem com o sindico de uma barata tonta estar atrapalhando uma boa noite de sono.

– Ino, já são dez horas da noite! Eu não acredito que...

– Ah! Cala a boca! Você não pretende ficar aqui a noite inteira sozinha, pretende?

– Eu não vou sair.

Então meus olhos se desviaram para a figura esguia e atlética do loiro que eu vira mais cedo no estacionamento, ao seu lado.

– Você?

– Naruto. – Ergui as sobrancelhas. – É meu nome.

– O que vocês querem aqui?

– Quanta hospitalidade. – Murmurou Ino já dentro do apartamento, sentando-se no sofá e apanhando o livro que eu tentava ler minutos antes. – Se não quer ir à festa, a festa vem até você.

E inexpressivamente, apenas vi todas aquelas pessoas entrando na minha casa, me cumprimentando com acenos e alguns beijos estalados na bochecha. Alguns garotos carregavam cerveja nas mãos e pacotes de salgadinhos.

– Isso minha querida, é uma social entre colegas. – Disse Ino pra mim quando me sentei embasbacada no sofá, sem saber como expulsar tantas pessoas da minha casa. – Achei que você deveria conhecer mais pessoas e tcham! Veio-me essa ideia em mente.

– Ino... – A ameacei.

– Acorda Sakura! O que essa cambada tem pra fazer em uma quinta-feira?- Revirou os olhos como se fosse óbvio.

Então começaram a revirar a estante e ligaram o rádio.

– A não, não vou escutar Snoop Dog.

– E queria escutar o que, Jazz? Eu não vou escutar Jazz. Já basta meu pai em casa.

Ino era minha melhor amiga e ex-rival. Éramos uma tomando conta da outra enquanto minha mãe trabalhava e o pai dela seguia sua carreira como cantor. Mas também éramos muito diferentes, como se fossemos gêmeas ao avesso, porém não apenas na aparência. Ela era extrovertida e gostava tanto de sair quanto eu de comer nachos enquanto assistia a seriados.

Então, enquanto ela se divertia me apresentando uma tau de Tenten – que eu logo esqueceria o nome – eu afundava no sofá tentando esquecer que usava calça de moletom e o blusão com estampa de princesas.

Karin entrou na sala me entregando uma marguerita.

– Relaxa Sakura.

Logo atrás dela veio ele.

Sasuke estava entrando na minha casa com toda a sua cara de pau. Uma expressão quieta, mas séria que logo se desfez para que um sorriso de canto nascesse em seus lábios. Ele me vira e tive a impressão de que zombava de mim.

Ino entrou no meu campo de visão enquanto ficava a minha frente de joelhos no sofá com uma garrafa de cerveja na mão e o braço estendido.

– Verdade ou consequência! – Gritou entusiasmada fazendo respingar um pouco da bebida em mim.

– Foda! – Praguejei com nojo notando que meu braço ficara grudento e fedendo a álcool.

– Isso! – Ino se direcionou a mim sorrindo. – Verdade ou foda!

Karin pegou uma garrafa vazia e pediu silencio abaixando o volume do rádio.

– Então a mando da Sakura eu vos digo: — A olhei de forma desafiadora. – que os jogos comessem! – E girou a garrafa em cima da mesinha de centro.

Por pouco a garrafa não parou de girar com o gargalo apontando para mim. Tomei isso como um aviso de que precisava sair do ambiente. Estava tonta com aquele monte de gente na minha casa, esparramados pelo chão. Não era uma festa nem nada, mas eu simplesmente não gostava. Não era algo agradável.

Cambaleei pela sala tentando não tropeçar em pernas estiradas nem deixar minha bebida cair em ninguém. Estava me direcionando a cozinha. Achei não ser muito educado me trancar no meu quarto com aquelas pessoas ali.

Pus o copo em cima da pia e me virei para pegar outro de água.

– Você não parece gostar muito de pessoas.

Virei-me assustada ao perceber que Sasuke estava sentado na cadeira com os cotovelos apoiados no tampo da mesa.

– Não é isso. É que não estou acostumada.

– Então você não costuma ter companhia em casa. – Não foi uma pergunta. Ele apenas disse algo obvio.

– Eu tenho. – Menti.

– Me deixe tentar. – Ele pediu. – Sua mãe trabalha demais e você acaba ficando sozinha por muito tempo.

Como ele sabia da minha mãe? Poderia ter dito simplesmente serem meus pais a estarem ausentes, porém ele dizia com convicção ser minha mãe.

Naquele momento senti medo. Medo de seus olhos ônix que me olhavam sem vacilar, ainda que parecesse calmo. Medo de sua aparência imponente, ainda que curvado. E o frio costumeiro que sentia na nuca voltou arrepiando-me.

Ele sorriu parecendo notar meu estado interior.

– Claro que não. – Insisti em mentir. – Ela apenas precisou sair para resolver alguns assuntos pendentes.

Bufei. Estava irritada com nosso pequeno dialogo. Assustada também, entretanto não dei cabimento para esse sentimento.

– E você? – Incitei desejando mudar o assunto da conversa.

– Além de ser um emo, – o olhei enquanto exibia seu sorriso de canto e se levantava exibindo a caneta em sua mão. – também sou muito grosso. – Saiu da cozinha deixando o duplo sentido pairar no ar frio enquanto eu enrubescia bruscamente.