Livre
3 Você vai saber um dia
Notas iniciais
Meu dia estava chegando ao fim e depois das aulas só queria mesmo era descaçar.
Ino estacionou na garagem do prédio onde residia e nós fomos andando pelas calçadas até chegarmos na floricultura de placa decadente e porta estreita.
O que mais chamava a atenção ali era as grandes vitrines que exibiam para quem passasse na rua as flores que inundavam a loja com cheiro de planta. Ino dizia que adorava o cheiro que algumas delas tinham, mas para mim era tudo a mesma coisa. Não conseguia diferenciar o cheiro de nenhuma delas.
A loira abriu a porta e ouvimos o típico sino tocar avisando a ninguém lá dentro de que havíamos chegado.
Tratei de andar até os fundos daquela sala de recepção apenas para acender as lâmpadas.
O ar daquele lugar era enjoativo.
– Já disse que minha mãe era a Mulher Natureza?
A olhei não querendo admitir que aquilo era deprimente.
A mãe de Ino morrera alguns anos atrás em um acidente e ela não superou completamente. Era uma hippie de cabelos longos e dourados, magra e que andava sempre com um avental e luvas.
A família da minha amiga antes da morte da matriarca, morava numa casa rústica e com lindos canteiros. Em troca de uma chance de seguir a vida se mudaram de lá as pressas.
– Ela era muito boa. — Lembrei a nós duas dos lindos trabalhos que a mulher fazia.
– É, acho que ela queria que eu levasse isso a sério.
Ela logo me jogou um avental e eu tratei de vesti-lo enquanto ela fazia o mesmo.
– Mas eu não me dou muito bem com plantas. — Continuou dizendo.
– Ela ficaria orgulhosa de ver você numa profissão que a faria ajudar as pessoas. Ela era uma hippie!
Ino me desferiu um tapa no ombro enquanto ria de forma discreta.
Me sentia melhor de poder estar com ela em seu processo de recuperação. Nós nos entendíamos. Eu havia provado disso com a morte do meu pai e o afastamento da minha mãe de casa.
– Minha mãe não era hippie!
– Claro que não. — Continuei a alfinetar. — Você comia hambúrgueres escondida lá em casa!
Ino foi para os fundos rindo.
Eu sentia os cabelos grudarem em meu pescoço por causa do suor que porejava.
Virei a placa da porta de fechado para aberto e fui pra trás do balcão.
– O que você pensa que está fazendo aí? — Perguntou a loira voltando.
– Hoje não é meu dia de explicar coisas de plantas pra pessoas estranhas.
– Na verdade é! Eu fiz isso quarta.
– É, mas eu não invadi a sua casa com um monte de estranhos.
– Mal agradecida. — Murmurou apertando a ponte do nariz com nervosismo. — Olha, está tudo bem, mas eu vou sair mais cedo pra ajeitar algumas coisas lá em casa e você — apontou pra mim — vai ter que fechar a loja.
A ideia de ser a última a sair me inquietava, porém parecia justo pra Ino.
– Meu pai volta pra casa amanhã.
Aquiesci diante a sua justificativa.
Entendia que a garota queria mostrar ao pai que estava tudo em ordem, que sobrevivera o tempo sem ele.
Ino sempre fora muito independe. Cuidava do pai, da casa e pôs pra frente os negócios da mãe depois que a mesma falecera. As vezes eu pensava nela como uma referência.
Eu cuidava do apartamento, mas não da minha mãe. Nunca pus nada do meu pai a diante, nem mesmo a estória que ficou devendo a editora. As estórias que ele pedia pra mim ler, que pedia a minha opinião.
Eu nunca tive coragem para remexer nas coisas dele depois da tarde em que ele saiu e voltara morto. Nunca tive coragem de dizer a minha mãe que eu me sentia sozinha.
Até conhecer Ino num grupo de apoio e nos aproximarmos nos bancos de espera da sala onde o psicólogo da escola nos atendia, fui uma garota estranha e um pouco desorientada da vida. Eu achava que estava sozinha nessa.
Depois de algum tempo em completo silêncio, ouvindo apenas as pessoas nas calçadas e os carros na rua, Ino resolve se pronunciar enquanto arrancava pétalas de uma rosa qualquer que apanhara sem eu ter visto de onde.
– Eu estou saindo.
– Agora?
Ela levantou o rosto incrédula se escorando melhor na parede.
Bufou.
– Estou saindo com uma pessoa, testuda!
Ri ao compreender.
Ino sair com um garoto não era novidade, mas ela fazer questão de me contar, isso era.
– Quem?
Viramos nossa cabeça ao mesmo tempo para olhar as clientes que entravam na loja.
– Depois continuamos.
Ino começou seu falatório atendendo as mulheres que queriam encomendar flores para um casamento.
Logo Sasori chegou, pondo a sua bicicleta em um canto qualquer dentro da loja. Pelo mesmos eu não ficaria sem ter com quem conversar.
– Sakura.
– Hei! — Me debrucei no balcão enquanto sustentava um sorriso.
– Pela sua cara... deixe eu adivinhar. Não esperava que eu viesse hoje?
– Não mesmo.
Riu passando por mim para pegar um avental e luvas.
– Eu cuido daquelas gracinhas. — apontou para a estufa. — Elas me amam e precisam de mim. Eu poderia cuidar de você também. Sou bom com flores.
Ri acostumada com a situação. Ele era uma gracinha tentando se passar por um cara sem amor próprio. Se preparou para levar um fora.
– Sabe Sasori, eu gosto do modo como você cuida delas. — Eu faria o contrário. — Se você prometer não arrancar um pedaço meu, eu tiro os meus espinhos pra você e deixo que sinta o meu perfume enquanto acaricia as minhas pétalas. — Dei uma piscadela enquanto o via se afastar.
– Eca! Se o meu namorado não fosse me consolar em casa, eu não dormiria.
– Desculpe por obrigar seu namorado a te consolar, tadinho!
Me mostrou o dedo do meio enquanto ria.
– Eu cuidaria de você, aprenderia a viver com os seus espinhos e o seu perfume. Iria acariciar as suas pétalas da forma que você preferir.
Sasori olhou para trás e deu um passo para a sua direita me permitindo ver o rapaz de boné azul escuro e roupas fechadas demais para o tempo lá fora. O ruivo me fitou virando de costas para o rapaz com as sobrancelhas franzidas e logo caminhou para a estufa nos fundos.
Poderia dizer, por mais estranho que fosse, que o Akasuna estava contrariado.
– Pode me indicar trepadeiras? — Me pediu como se nada tivesse dito.
– Isso é com a minha amiga. — Disse apontando pra Ino e notando um sorriso malicioso do rapaz, um sorriso que eu conhecia.
– Ela parece bem ocupada.
Eu o reconheci mesmo com seu rosto coberto pela sombra parcial do boné. Tirei o boné dele.
– Sasuke?
Seu sorriso sumiu.
– Não vai me expulsar, vai?
Não o respondi, mas o indiquei que me seguisse. Estava surpresa por o ver ali, porém ele ainda era um cliente e tinha que ser tratado como tau. Guiei Sasuke para a estufa. Um local grande e com o ar pior do que o da recepção.
– Olha, eu não sei exatamente o que você procura.
– O que você prefere?
Olhei por sima do ombro.
Não esperava nada vindo dele, mas tomei liberdade pra fazer o que ele me pedia.
– Acho essas lindas.
Peguei uma flor para por em sua mão branca e de dedos longos.
– Acho que o nome é Lágrima de Cristo. — Expliquei.
Ela era realmente linda. As pétalas brancas dividiam o espaço com as vermelhas. Harmoniosa. Uma linda combinação de cores.
– Você é religiosa?
– Sasuke, acho que você não veio aqui pra isso.
– Tem razão. — Eu tinha? — Eu vim aqui pra conversar com você.
Ele estava amistoso, quase sereno.
Apertei o pano do boné em minhas mãos.
– Veio na hora errada.
Suas sobrancelhas pesavam sobre as órbitas negras e seus cílios eram grandes o suficiente pra quase tocarem a bochecha quando fechava os olhos.
Ele não havia gostado do que eu dissera e ficara mais sisudo por conta disso. Seus lábios curvando-se para baixo. Austero.
– Sakura...
– Estou trabalhando.- Interrompi.
Ele estava ficando impaciente.
– Sakura...
Sasori apareceu ao meu lado tirando as luvas. Eu nem ao menos havia me lembrado que ele estava ali enquanto eu conversava com Sasuke.
– Ela está ocupada, que tal depois?
Sasuke continuou a me fitar.
– Eu vou estar esperando você sair.
– Tudo bem.
O modo como ele falou pareceu uma ameaça que arrepiou a minha nuca suada.
Ele saiu dali com seus passos pesados deixando que a porta se escorasse sozinha.
– Quem é ele?
– Ninguém.
***
Sasuke me esperava num carro diferente daquele que eu vi na escola. Esse era um Toyota prateado.
Fechei a loja com o ruivo ao meu lado dizendo que não gostara de Sasuke e que talvez ele fosse perigoso. Lhe disse que estava tudo bem e que o rapaz facultava medicina comigo.
Sasori já fora amigo de meu pai.Talvez por isso, ele se dera o direito de me vigiar quando achava necessário. Ele se foi relutante.
Sasuke abriu a porta do carro para que eu sentasse ao seu lado.
– Você tem algo que me pertence. — Foi a explicação que me deu logo que eu entrei no carro.
– O que?
– Um caderno... Talvez um livro.
– Você não esqueceu nada na minha casa ontem.
Me virei para olhar seu rosto ainda com expressão neutra.
Eu sabia que as peripécias de Ino resultariam em algo ruim um dia. E ali estava eu. Em um carro com um cara que eu nem conhecia.
Sasuke entortou os lábios nada contente e eu prossegui.
– Olha, eu não entendi muito bem como você sabe onde eu trabalho.
– Eu segui você.
Ótimo. Aumentou meu nível de descrença e desconfiança pra setenta por cento. Estava me assustando com o rapaz.
– Tá, eu já disse que não estou com nada seu.
– Sakura...
– Destrave a porta. — Ele permaneceu em silêncio. — Uchiha destrave a porta!
– Estou lhe avisando, você corre perigo.
Ri com secura.
Um sentimento que eu não esperava sentir. Mágoa, talvez me sentisse traída, porém era algo que não tinha explicação. Era uma vontade insana de socar o rapaz.
– Se você não deixar eu sair, você vai estar correndo um grande perigo.
– Sem dúvidas.
Minha nuca suada se arrepiou de novo.
– Sasuke eu não devo nada a você.
Ele riu grave e rouco. Uma gargalhada desconcertante me fez encolher no banco.
– Tem certeza? — Virou-se o quanto era possível por causa de suas pernas longas. — O seu pai...
– O que sabe sobre ele? O que sabe sobre a minha vida? Você me conheceu ontem...
– Não! Está enganada.
– Sobre o que?
Apertei o banco estressada e confusa. Algo sobre mim que não permitia que eu pudesse ter uma definição do que acontecia ali, ou o que aconteceria depois.
Sasuke aquietou-se e voltou a ficar ereto, naquela postura de ser inalcançável, contudo ainda virado para mim.
– Está enganada sobre o mundo. Ele não é o que você pensa. Ele não gira ao redor da sua vidinha. — Estava me ofendendo. — Porque ainda está aqui? Não diga pra si mesma que é pela sua mãe. Me fale, se ela morresse, você iria embora?
– Não fale sobre a minha mãe. — O ameacei.
– Falo de você.
– Seu maníaco!
– Talvez eu seja.
– Aonde você vai chegar com isso?
– Está se sentindo ferida, Sakura? A verdade pode doer.
Podia sentir a raiva ardente, latente em meu peito. A respiração pesarosa e o nó dos dedos brancos pela força que exercia com as mãos.
– Eu vou falar com a polícia!
– Está se sentindo ameaçada porque eu sei da sua vida de...
O soquei com toda a força que pude reunir.
Destravei rapidamente com as mãos tremulas e corri porta a fora. Ele veio atrás de mim bufando e nem se dando o trabalho de se apressar.
Entrei na floricultura fazendo muito esforço para fechar a porta e depois escorreguei nela até estar sentada ofegante.
Por que me sentia assim? Por que me sentia encurralada na presença de Sasuke?Por que o medo e a raiva?
– Seu pai nunca iria conseguir te esconder pra sempre e quanto a sua mãe, ela nem liga mais pra você. — Balançou sua cabeça e se agachou a minha frente tocando o meu queixo. — Você não estará segura se não me der o que eu quero. Sua mãe não estará segura também. Podemos fazer um acordo que facilitará pra nós dois.
– Como você..? — Balancei a cabeça para me desvencilhar de sua mão, de seu toque frio. — Por que?
– Porque eu te odeio sua praga irritante!
– Qual o seu problema comigo?
– Você vai saber, um dia.
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