Livor, algor, rigor
1 livor, algor, rigor
Notas iniciais
A morte é muito limpa na televisão.
Pó e base brancos, olhar desfocado e a clássica viradinha de cabeça quando a vida deixa o corpo. O vermelho dos lábios é substituído pelo branco da maquiagem e o rosto corado, também.
A morte não é assim. A morte é um corpo esfriando em torno de 2˚C a cada hora, começando pela superfície e demorando para chegar até o interior. É os músculos trancarem no lugar, como se a morte se agarrasse em todo e qualquer canto, petrificando a pessoa, tornando-a sua. É o sangue escorrer pelos vasos até chegar aos capilares e formar um mar de violeta avermelhado nas costas do cadáver. São os glóbulos vermelhos se quebrarem e criarem uma rede violácea na pele pálida. É a mancha esverdeada que surge no abdômen, a primeira marca de que aquele corpo já passou da validade.
A morte é pele pálida como cera e olhos enevoados e lábios roxos.
A morte é seca e grosseira.
A morte é delicada e bonita, para quem deseja vê-la assim.
Quem observa a mancha violeta avermelhada e a interpreta como a posição do morto nas primeiras horas, quem sente a temperatura baixa e deduz o tempo que se transcorreu, quem interpreta a rigidez e quem entende como a teia de aranha violácea se forma... Para essas pessoas, a morte deixa de ser distante e grosseira. Elas sabem que os filmes estão errados e, por esse exato motivo, não se acanham diante da verdadeira morte.
Notas finais
Algor mortis = queda de temperatura do corpo após a morte;
Rigor mortis = rigidez cadavérica;
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