Living Hearts and Rotten Flesh
15 Locked Doors
John's P.O.V.
Eu e Henry fomos checar os fundos da loja, em busca de suprimentos. Eu encontrei algumas latas de sopa, umas garrafas d'água, mas nada mais. Enquanto Henry vasculhava uma sala (que aparentemente tinha um estoque vitalício de papel higiênico) eu fui andando até o final do corredor, passando a lanterna por dentro das salas vazias de portas escancaradas.
Mas depois de dois ou três salas vazias em sequência, tinha um recuo na parede, de modo que eu não havia notado antes, quase como que um outro corredor, mas mais curto, com uma porta trancada.
— Henry? — eu grito pra ele.
— O que foi caralho?
— Vem cá seu viado.
— Ah, vai se fuder. O que tu quer?
— Vem cá logo porra. E trás algumas coisa pra arrombar uma porta.
— Como assim vei — eu ouço o barulho dele erguendo algo metálico do chão — O que tu achou? — Ele disse vindo pelo corredor.
— Se eu soubesse não tinha que arrombar a porta né. Me dá isso.
— Não, deixa que eu abro.
— Tá então, vai lá maromba. — eu dou um passo pra trás quando ele se aproxima e bate com uma barra de metal na maçaneta, que se quebra junto com quase metade da porta.
Eu chuto o que sobrou e passo na frente. Aponto minha lanterna para baixo e vejo escadas que vão até o porão da loja. Dou um passo pro lado.
— Damas na frente — digo, me curvando um pouco e indicando a escada com as mãos.
Henry dá um soco no meu ombro.
— Idiota. — ele diz.
Eu rio, puxo Henry para o lado e começo a descer a escada.
— Uh, John? — ele diz, parado no terceiro degrau — John. -ele diz de novo, me segurando pelo braço.
Eu olho para ele, seu rosto está sério.
— O que foi?
— Você ouviu isso?
— Isso o que criatura?
— Cala a boca e escuta.
Nós ficamos em silêncio por alguns instantes. Eu abro a boca pra falar que ele deve ter imaginado algo quando ouço um som vindo lá de baixo. Parecia algo áspero raspando, como tecido ou algo assim. Eu também ouvi um leve tilintar metálico.
— Henry — eu sussurrei — me passa a sua lanterna.
— Você já tá com uma na mão, abestado.
— Eu sei, mas a minha tá com a bateria fraca e lá em baixo tá muito escuro pra eu ver alguma coisa só com essa aqui.
Henry revira os olhos e me entrega a lanterna dele.
Continuo descendo, mirando o foco de luz em uma parede ao final da escada, e depois em um corredor curto (o arquiteto que fez esse lugar adorava cantos, corredores e recuos) com um portal virando a esquerda. Eu aponto a luz para o cômodo depois daquilo, e o que vejo é bem mais perturbador do que eu esperava.
O som estranho que tínhamos ouvido vinha de um dos cantos da sala, e sua fonte não era nada do que eu pensei.
Havia um homem ali, pendurado por uma corda no pescoço. Seu rosto estava marcado por arranhados fundos, provavelmente feitos por ele próprio. De suas roupas ainda pingavam restos de sangue frio, escorridos de dezenas de cortes em seu corpo. Aos seus pés uma poça de sangue espesso e algumas lâminas, além de uma cadeira tombada. O som estranho eram suas pernas balançando debilmente, os murmúrios indefinidos de sua boca amordaçada e as algemas que prendiam suas mãos encostando uma na outra.
Henry pegou de volta sua lanterna enquanto observávamos, atônitos aquele show de horrores.
— Porque alguém escolheria morrer assim? Se torturar e mutilar, só para então amarrar uma corda no pescoço, sabendo que ia virar um Z. Nenhuma pessoa com um minimo sanidade mental faria isso.
Eu saio daquele estado de torpor e vejo que tem algo na parede atrás dele. Foco um pouco melhor a lanterna e vejo o porque daquele homem digno de piedade ter feito tantos cortes em seu próprio corpo.
— Eu acho que ele já havia perdido a sanidade mental a tempos, Henry.
Na parede liam-se as palavras "THE DARK GONNA BE WORSE, LEAVE BEFORE THE NIGHTMARES START!" escritas com o sangue daquele que debatia-se morto a minha frente.
— Temos que falar pra eles — eu digo — Agora mesmo.
Me viro abruptamente e subo as escadas correndo. Nunca fui do tipo que se deixa abalar por mortos, sangue ou coisas do tipo, mas mesmo assim sentia-me nauseado. O problema não era nem a cena em si, mesmo que ela fosse digna de meus piores pesadelos. Mas havia algo errado ali, algo pior que pesadelos macabros. Algo abstrato, mas que pairava no ar naquela sala de forma tão nítida que quase era possível tocar, e eu não me refiro ao cheiro de sangue e carne em decomposição. Não, não. Algo pior. Era cheiro de desespero. De solidão, do mais puro terror. Era o sopro suave do ultimo suspiro desse pobre homem, a vibração do ultimo pulsar daquele coração desesperado. Eu podia sentir o fluxo continuo e doentio de seus pensamentos alucinados fluindo ao meu redor. Eu podia sentir a morte daquele homem cuja existência eu ignorava até poucos minutos, e a compreendia como nunca antes havia compreendido qualquer outra coisa. Suas palavras ficarão para sempre marcadas em sangue, em seu leito de morte, no subsolo de uma loja de conveniência de um posto de gasolina vagabundo de beira de estrada. Mas, ficarão também marcadas em minha consciência, como fantasmas dessa sensação indescritível que eu tive, dentro daquele cômodo maldito.
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