Ellie p.o.v

Agora estamos acampados na porcaria de uma loja de conveniência, em um posto de gasolina, no meio do nada, onde não da para se ver nada.
Que beleza, além disso parece que todo mundo esta surtando aos poucos, eu não suporto mais isso, suicídio até seria uma opção me eu não fosse tão paranoica no requisito "tirar a própria vida quando tu tem outros meios mais fáceis de morrer, no caso zumbis". Mas como sempre tenho que me manter firme e forte, e não transparecer abatida, para ajudar os outros a se reerguer.

Acordo com a cara numa banqueta na loja de conveniência, estava relendo alguns dos diários que trago comigo, e acabei por dormir. Deve ser tipo, uma da manhã, a neblina predomina toda a paisagem.
Me vejo sozinha no reflexo da maquina de salgadinhos, tal visão desnutrida, suja e psicologicamente cansada.

Eu encosto a testa de novo na banqueta quente (e meio babada, sendo sincera) e fico ali, tentando ouvir algo além das respirações profundas dos outros dormindo, no meio daquele silêncio ensurdecedor e aquela escuridão absurda, como se o ar estivesse manchado de tinta preta. Em algum momento eu cochilei novamente e acordei sobressaltada com Jess ao meu lado, me chamando.
Ela fala dobre como tem algo errado, que a gente tem que sair logo e sei lá. Eu digo que vou avisar os outros e ela sobe falar com Mabel.

Eu observo ela subir as escadas e então arrumo os diários e minhas outras coisas dentro da minha mochila.

— Hey, já está acordada... é... — sussurra aquele tal de Brian.

—Ellie, meu nome é Ellie.

— Ah, claro, Ellie. Burrice minha esquecer.

— Tu ta com a gente a um tempão e nem consegue se lembrar do meu nome? Preferia ficar sozinha.

— Ok madame, desejas ficar sozinha?

—Eu até preferia na verdade, porém não pretendo ficar muito nesse lugar, vamos procurar algo lá fora. Vamos avisar os outros.

— Está todo mundo dormindo, tirando a Jess e a Mabel que estão no segundo andar de vigia. Mas não é perigoso irmos sozinhos?

—Calma, eu não vou te abusar nem nada. Aliás, é só acordar um dos meninos e falar com eles que eles se viram. Enfim, vou colocar um casaco e pegar uma arma, dai nós saímos.

Vasculho em uma das malas e acho um casaco velho de fazendeiro xadrez, coloco por cima da minha camiseta, pego uma faca e uma lanterna, fecho a mochila e olho em volta. Em outros momentos penso em como aquele lugar poderia ser aconchegante para uma família que esta de viagem, mas agora não passa de um lugar fedorento, velho e destruído. Brian está no canto observando a janela, ele é ridiculamente perfeitinho, uma espécie de Ken, tenho um pé atrás quando o assunto é ele.

Saímos da loja e começamos a dar a volta em torno da velha construção de concreto. Na lateral direita(que tem vista principal para a estrada) encontram-se alguns banners antigos, de shows e produtos aleatórios, mas a maior parte está coberto por artigos governamentais sobre a infestação, o com a data mais recente dizia:

05/01/2016

Governo do Estado do Arizona adverte:

A partir desda data não funcionarão mais os órgãos públicos, aeroportos, ferroviárias e rodoviárias. Todas as atividades comemorativas respectivos ao Natal, Ano Novo e próximas estão suspensas indefinidamente. As seguintes medidas devem ser tomadas por toda a população:

1. Estoquem o máximo de suprimentos gerais possíveis;

2. Abriguem-se em suas residencias até segunda ordem;

3. Queimem seus mortos;

4. Ao primeiro sinal que atividade estranha por meio de um familiar...

O resto esta manchado de sangue e rasgado, essa data... não chora... não chora

— Ellie tá tudo bem? Você parece abatida.

— Abatida tua cabeça Brian, apenas estou observando os últimos avisos governamentais.

Continuo o caminho da parede com a lanterna até algumas marcas na parede e na janela de um dos quartos. Continuando a abaixo bem próximo a fundação tem uma janela de um possível porão, está toda tapada com pedaços de madeira e sai um cheiro agonizante de lá. Continuando um pouco mais encontramos os fundos, tem uma grade alta em volta, e infelizmente o portão esta com um cadeado.

— Eu deveria ter trazido as ferramentas. Qual é a lógica de não ter uma porta que vai para os fundos? Acho que vamos ter que pular. — Brian me olha aterrorizado.

— Tu é louca que vamos pular isso dai?

—Prefere fazer o que Sr. Dois Metro e Meio de Ousadia?

—Primeiro, eu só tenho 1,82m — Quando ele tira os saltos da Barbie, talvez — Segundo, nós podemos voltar e pegar ferramentas.

Reviro os olhos escalo a grade, para minha sorte não havia arame farpado, mesmo assim a escuridão piorava tudo. Consigo passar com facilidade, mas quando coloco os pés no chão só vejo os olhos arregalados Brian. Antes de me virar ele tira uma arma de algum lugar e atira no morto ao meus pés (santo seja o silenciador). De onde ele tirou uma arma? Como podem dar uma arma pra essa coisa? E ainda por cima o gênio não erra a mira e atira no ombro do morto, tenho que matar ele com a minha faca.

Depois de uns 15 minutos, Brian consegue pular a dita cerca. Observo os fundos e nada de especial, as paredes estão descascadas, os janelas cobertas com papelão que um dia armazenou produtos Unilever, lixeiras cheias de entulhos e coisas inúteis, no chão alguns jornais apontando como o virus estava afetando a corrida politica para definição de candidatos nos EUA. E na direita perto de o que um dia foi um cão magro, um gerador.

— Parece que esse lugar não é tão ruim quanto pensávamos Brian.

Ele nem presta atenção no que eu falo, fica apenas procurando os machucados que fez no joelho ao pular. Observo e o vejo um galão de combustível que não chegou a ser utilizado (provavelmente por aquele Z), esvazio ele no tanque, aparentemente não vai nos proporcionar mais de uma hora de pouca energia. Passo mais uns 40 min tentando entender o manual daquela coisa. Finalmente consigo ligar e voltamos para a loja, na mesma hora acendem algumas luzes que aparentemente ainda funcionavam.

Quando entro vejo Lindsay e Mabel correndo em minha direção.

—Eu acordei com um tiro, o que aconteceu? — pergunta Lindsay.

—Af, o John não falou contigo? Eu mandei ele acordar vocês e avisar pra vocês se arrumarem... Tá, que seja. Calma Linds, eu só fui checar os fundos e esse bastardo foi junto. Tivemos que matar um zumbi. Mas tá todo mundo bem?

— Sim, eu só acordei assustada com o tiro, Henry e John foram explorar os outros cômodos. Jeff foi lá pra cima com a Jess e a Mabel, que desceu a pouco por causa do barulho. Rachel, Molly, as crianças e a Janice tão dormindo como pedras ainda.

— Tá, eu vou guardar as coisas que a gente tinha pegado, vai juntar suas coisas ou cuidar do moço ali, sei lá. Acho que fui macho demais para o mundinho de arco-iris dele.

Sem ouvir a resposta coloco as coisas em seu devido lugar. No canto da sala acho um notebook, que aparentemente estava na tomada. Sento em uma das mesas, as cadeiras estão tão geladas quanto lá fora. Abro o computador.

Tem varias fotos de família, um cara, uma criança e a mulher que achamos morta de vestido azul, não consigo lidar com isso... abro as pastas, as fotos de viagem, as legendas, acho um vídeo. Abro, nele estão todos na entrada da loja, que parecia novinha em folha, a menininha anda pela primeira vez sozinha com sua bicicleta, ela cai e abraça a mãe, o pai vira a câmera e acena...

— Pareciam uma linda família — Brian senta ao meu lado

— Pareciam mesmo — fungo depois sorrio.

— Você é a pessoa mais falsa que eu já vi.

—O que?

— Tu sempre ta com um sorriso, ou sempre ta mandando em alguém e fingindo ser perfeita..

— Falou a cópia falsificada do Ken.

— Pelo menos eu não finjo que está tudo bem, quanto na verdade eu ando deprimida e mentindo para todo mundo que tenho um coração de gelo.

— OLHA AQUI MOLEQUE TU NÃO SABE EXATAMENTE NADA SOBRE MIM.

—Hey gente, o que tá acontecendo aqui? — Chega a Rachel se aconchegando nele, não olho nem na cara dela apenas fecho o computador e vou para o corredor.

— Precisamos sair daqui, agora. — Sobe o John e Henry correndo do porão.

Eram 6h da manhã, e tudo continuava tão escuro lá foram como se fossem 11h da noite.