Living
8 Capítulo 7
Notas iniciais
CAPÍTULO 7
Um som alto e irritante ecoou pelo quarto, acordando-me num sobressalto. Demorei alguns segundos para perceber que era meu celular tocando. Com um suspiro cansado, levantei lentamente da cama e me encaminhei para o banheiro, onde havia o deixado carregando a bateria durante a noite, esperando que a pessoa que me ligava desligasse por conta da demora e o celular parasse de tocar, para que eu pudesse voltar a dormir. Enquanto postergava um pouco, notei que havia deixado a janela do quarto aberta e que, pela posição do sol, já se passava do meio dia. Porém mal me importei, estava de férias de qualquer forma; e acordar tarde, era o que as pessoas que estavam de férias faziam, até onde eu sabia.
Para a minha decepção, mesmo tendo demorado o máximo possível para chegar até ele, meu celular continuava tocando alto e irritantemente. Sem vontade alguma, estendi a mão e peguei o aparelho, apertando o ícone indicado para atender, já sabendo quem me ligava sem nem olhar o número.
– Já estou com papel e caneta, pode falar. – disse a voz do outro lado da linha.
– Tem certeza disso, Josh? – perguntei, torcendo para que ele disse não e ao mesmo tempo sabendo que ele nunca o faria. – Eu também estou com saudades, mas...
– O endereço, Sarah. – disse ele entre dentes, claramente perdendo a paciência.
– Ok, então. – revirei os olhos e ditei o endereço já decorado para ele, citando contra a vontade alguns pontos de referencias. – Quando você vem?
– Chego aí amanhã mesmo.
– O que? – quase gritei. – Já?
– Claro, já está tudo pronto, só precisava do endereço.
– Meu tio por acaso não sabe que você...
– Inventei uma desculpa qualquer para viajar, fique tranquila. Eu só não entendo essa sua fixação em se afastar de tudo e de todos. Se quisesse ficar longe só do Nathan eu entenderia, mas...
– Tudo me faz lembrar dele. – esclareci. Ele certamente não sabia que eu amava Nathan tanto assim.
– Mas você não esqueceu nem um pouquinho? – perguntou ele parecendo sentir-se culpado por algum motivo oculto.
– Mentiria para você se dissesse que ainda é exatamente como antes. Há outras coisas que eu prezo bastante agora, como minha sanidade; mas não faz tanto tempo assim que vim para cá e não é possível esquecer alguém tão rápido, Josh. Eu ainda o amo.
Ele suspirou.
– Bom, eu sinto muito. Queria poder ajudar com isso...
– Mas não pode. – interrompi-o. Era inútil se lamentar quando não se podia fazer nada.
– Eu sei. – ele ficou em silencio por um momento. – Mas você está bem, não está?
Eu sorri. Pensei no emprego que havia conseguido – algo que eu gostava: luta. Pensei também em Elliot, que de certa forma era um amigo... ou quase. Então conclui: sim, eu estava bem. Havia a dor, às vezes, a dor de um amor não correspondido; mas fora isso, eu estava bem. Sentia até que não me afetaria tanto assim ver Nathan com Lorena. Mas, é claro, eu não queria passar por isso por enquanto.
– Vai ver amanhã. Já que insiste em vir aqui... Terá de esperar para saber.
Ele riu.
– Só você mesmo. – então me juntei a ele, ambos rimos durante alguns minutos; foram minutos tão bons que cheguei a pensar que realmente seria bom quando ele viesse. Ter um amigo de verdade por perto, alguém que eu conheço há algum tempo.
– Mas, não vá pensando que vai se livrar da conta, viu? Você não vai dormir no mesmo quarto que eu nem pensar. Não tenho paciência para aguentar seus roncos. Terá de alugar seu próprio quarto, então trate de trazer dinheiro, ou terá de conseguir um emprego assim que colocar os pés na cidade.
– Eu levo dinheiro. Não tenho vocação para trabalhar. – revirei os olhos.
– Tudo bem, até amanhã.
– Não quer mais falar comigo?
– Você me acordou, sabia? Eu estava dormindo e você atrapalhou! – brinquei.
Ele riu novamente.
– Ok, dorminhoca. É melhor mesmo eu desligar. Preciso ajeitar as coisas para usar um jatinho...
– Você vai usar um jatinho do exército? Meu tio vai descobrir tudo...
– Não vai, fique tranquila.
– Humpf.
– Então... até amanhã. Me espere acordada.
– Vai chegar à noite?
– Quem é que sabe? Isso depende de muitas coisas.
Bufei.
– Ok, Josh. Até.
E eu desliguei, voltando para a cama quase imediatamente e pegando no sono.
***
Acordei pela segunda vez com uma luz intensa em meus olhos, abri-os piscando enquanto se acostumavam com a claridade. Assim que o fizeram, notei que a luz vinha de uma lanterna. Irritada, bati na mão que a segurava, afim de derruba-la, porém a mão da pessoa que a segurava em meu rosto, segurou meu pulso, me impedindo-me. Rapidamente entrei em alerta. Eu tinha uma mão e as duas pernas livres, enquanto meu oponente tinha apenas as duas pernas, pois uma de suas mãos segurava meu pulso e a outra a lanterna. Traduzindo, eu tinha vantagem.
Antes que ele percebesse o que eu faria, movi meu punho livre acertando seu rosto ao mesmo tempo que dobrava meu joelho para que acertasse sua barriga. Porém apenas um dos meus golpes obteve sucesso. O oponente imobilizou minhas pernas enquanto suportava o soco na mandíbula. Agora eu podia sentir que estava em desvantagem. Seu peso estava sobre mim, pressionando-me enquanto a cama, impossibilitando-me de me mover.
Mas eu ainda tinha uma mão livre e a usei para empurrá-lo com toda a minha força. O adversário recuou um pouco, o suficiente para que eu conseguisse mover meu peso em sua direção, derrubando nós dois da cama – eu por cima do meu oponente. E ele derrubou a lanterna no processo, deixando-me enxergar quem era.
– Elliot! – gritei. – O que pensa que está fazendo?
– Você me atacou primeiro. – ele se defendeu.
– Não estou falando disso. — Falei irritada. – O que está fazendo em meu quarto?
– Eu... fiquei preocupado. Você sumiu o dia todo, não apareceu para a aula. Vim ver se ainda estava viva.
– Muito engraçado. Não tinha que ter entrado aqui. E ainda me acordado com aquela luz horrível!
– Tudo bem. Da próxima vez eu trago um rádio com a sinfonia número 9 de Beethoven – ele riu.
Bufei e fiz menção de me levantar. Eu havia caído em cima dele e essa não era lá uma posição muito confortável.
– Não precisa levantar se não quiser. – caçoou.
– Cale a boca. – falei e me levantei sentando-me na cama. Elliot por sua vez se sentou, mas permaneceu no chão. – Você não devia ter entrado, mesmo se eu tivesse morrido! Você está louco...
– Shhh. – silenciou-me. – Acho que chega de piti, certo? Já expliquei meus motivos.
– Está mandando eu ficar quieta no meu próprio quarto? – eu estava indignada.
–Qual é, Sarah! Pare de frescuras, por favor. – ele ficou de pé na minha frente. – Posso sentar? – dei de ombros e ele se sentou ao meu lado. – Tenho que admitir, você tem um soco certeiro.
Eu quase ri.
– Ninguém mandou invadir meu território.
Ele sorriu de lado, lançando-me um olhar estranho; seus olhos ficando ligeiramente mais escuros.
– Então, perdoe-me leoa.
– Ah, por favor. – eu revirei os olhos mais acabei rindo um pouco.
Foi então que, pela visão periférica, percebi que o céu já estava escuro.
– Que horas são? –perguntei em voz alta, mas sem esperar uma resposta, levantei-me e fui até o banheiro, pegando meu celular e ligando a tela. Oito e vinte da noite. – Eu dormi tudo isso? Droga. – coloquei o celular novamente na pia, e virei-me no intuito de voltar para o quarto, porém, dei de cara com Elliot atrás de mim. – Ei! Você me assustou.
– Por que veio para cá? – ele perguntou, um pouco próximo demais.
– O quê?
– Você não é daqui.
– Na verdade sou sim. – falei,um pouco desconcertada com sua proximidade, devo admitir. – Nasci aqui.
– Mas não morou aqui à vida toda, não é? – Elliot deu um meio passo em minha direção, fazendo com que nossos corpos se encostassem levemente. – Qual é a sua história?
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