Little Last Love Song
9 9 - Onde os caminhos nos levam.
Mayu estava viva, disso Kaito estava certo. Mas ela já não era mais da conta dele.
Por cinco anos aprendeu tudo o que pôde com ela. Adquiriu força, agilidade e conhecimento de combate, além do manejo de diferentes armas. Mayu também cresceu, tornando-se uma linda e meiga adolescente, que se tornava uma psicopata com um simples canivete nas mãos. Não apenas ensinou todas aquelas coisas a Kaito, como demonstrou cada uma, várias vezes, com um sorriso doce no rosto, enquanto deixavam um rastro de cadáveres por onde passavam.
Nesse tempo também aprenderam um sobre o outro. Mayu soube do orfanato perdido e da determinação de Kaito em encontrar sua amada, provavelmente a única que sobreviveu além dele. De Mayu, ele soube que ela também era órfã. O homem que a recolheu era um milionário excêntrico que usava crianças em pequenos projetos. A guerra o havia inspirado a tentar criar assassinos natos, com força sobre humana e habilidades insuperáveis. Assim, Mayu recebeu injeções de um líquido doloroso quando ainda aprendia a dar seus primeiros passos. Conforme crescia, ia sendo iniciada e treinada na arte de matar.
– Ele foi gentil comigo, enquanto fui útil para ele– ela contou. – Mas eu não era o único projeto ao qual ele se dedicava. E eu estava com ciúmes, porque era só uma criança e a única atenção que eu tinha era a dele. Quando viu que além de substituível, eu era perigosa, ele se livrou de mim na primeira oportunidade.
– Mas agora ele sabe que você está viva.
– Provavelmente ele esperava isso. Deve estar achando ótimo. Agora pode mandar um de seus brinquedinhos atrás de mim e ficar assistindo de longe, enquanto a gente arranca a carne um do outro.
– E se você conseguir convencer o outro projeto a se voltar contra o criador de vocês? Se você e ele forem atrás de seu ‘pai’, ele não vai ter como se defender, vai?
– Até onde eu sei, ele não tinha um exército. Na verdade, era só outra menina além de mim. Ele nos criou separadas uma da outra e até hoje não sei o que houve com ela. Mas se vier atrás de mim, dificilmente vou conseguir convencê-la de alguma coisa. Nossas mentes são controladas por ele.
– Mas a sua não é mais.
– Ele me libertou, porque queria que eu sentisse dor caso morresse. Enquanto somos controlados, não sentimos nada.
– E como ele te libertou?
– Não consigo lembrar. Foi há muito tempo.
Depois dessa conversa, Mayu se tornou mais calada, como se estivesse planejando algo. Talvez tentando lembrar como a mente dela foi libertada. Talvez planejando matar seu ‘pai’. Ele jamais soube o que se passava na mente doentia dela. Por mais que houvesse se libertado, Mayu ainda se divertia matando e dilacerando vidas, e Kaito não sabia se aquilo era da natureza dela ou se devia às injeções que tomou quando era ainda um bebê.
Só o que sabia era que seus caminhos iam se separar. O templo de Meiko parecia ter sumido do mapa, e estranhos começaram a seguir o caminho deles. Mayu naturalmente acabava com eles, mas parecia que era exatamente isso o que a pessoa que os mandou queria. Nada melhor para marcar um rastro do que alguns litros de sangue humano.
– Não desista– ela disse no dia em que partiu. Tinha por volta dos treze anos, mas já mostrava que se tornaria uma bela mulher, caso sobrevivesse. Carregava junto consigo um machado gigantesco, pelo menos três vezes maior que ela, como se fosse uma simples vassoura.
– Você vai chamar atenção com essa coisa– Kaito riu.
– Não se as pessoas que me virem não tiverem mais língua para dar nos dentes.
Sorria como um anjo, mas era uma maldita psicopata. Kaito sabia que uma parte dele ficaria mais tranquila quando ele fosse dormir, dali em diante. Não que não confiasse em sua pequena mestra. Mas sabia que ela era completamente louca.
– Quanto a você, acha que isso vai bastar? –apontou com o queixo para a wakizashi dele, as duas alianças brilhantes penduradas no cabo como um amuleto.
– Depois de tudo o que aprendi, é mais que suficiente– ele sorriu. –Não sei como te agradecer por tudo que me ensinou, Mayu-sensei.
Ela franziu a testa, pensando por um momento, e então se decidiu. –Eu não quero morrer sem nunca ter beijado um homem.
Kaito a encarou confuso, e então seu rosto ficou vermelho. – Você... É uma criança, Mayu-sensei.
– Ah, não é errado se os dois querem– ela dizia decidida, puxando-o pelo cachecol azul.
– Eu não disse que queria...
Foi um selinho de leve, embora demorado. Mayu obviamente não gostava de Kaito daquele jeito. Além do mais, em algum ponto ela tinha que ser inocente como uma criança, ele pensou desolado.
– Meiko-chan não deve saber disso– ela disse muito séria.
– Claro – ele concordou num sorriso. – Se cuide, Mayu-chan.
– Você também, Kaito-kun.
Fazia quatro anos agora, desde aquele dia.
Kaito observava a orla da floresta, num ponto que só podia chamar de fim de mundo. Mesmo ali encontrou vagabundos e ladrões, mas no momento ele era o melhor assassino em toda a região, e eles não tiveram a menor chance. A wakizashi brilhava pelo polimento constante, depois de se banhar no sangue deles.
Vinha se virando muito bem sozinho. Esgueirava-se ao redor de bandos de malfeitores, cortava suas gargantas e os roubava. Jamais atacava gente indefesa, roubava dos pobres ou matava sem motivo, muito menos por diversão. Mayu disse que ele podia escolher se queria ser mau ou não, e ele havia feito a escolha mais óbvia do mundo para ele. Afinal, Kiyoteru não o criou para ser um homem mau. Meiko não amou um garoto mau. E ele se odiaria se o fosse. Mesmo que tivesse que morrer por isso, permaneceria como ele mesmo até o fim.
A floresta rodeava uma montanha muito alta, provavelmente a maior dali. Era um dos poucos locais para onde ele nunca havia viajado. Ali o frio era constante e a névoa se condensava em chuva todas as noites. Agora era outono, e a coloração dourada dominava as copas das árvores. Apenas o cantar dos pássaros podia se ouvir no silêncio da tarde. Não havia tiros nem explosões nem fumaça subindo pelo céu. A guerra ficara a muitas milhas atrás dele.
Começou a subir a montanha. Sabia que não estava sozinho, então preparou a wakizashi. Alguns quilômetros de caminhada e ele encontrou o primeiro adversário. Um homem de quimono branco, roupas de sacerdote. Atacou-o com uma espada, mas Kaito usou a inclinação do terreno ao seu favor para desviar e apunhalar seu estômago. Enquanto o largava estrebuchando no chão, algo passou pela mente dele. Se houvessem mais daqueles sacerdotes ali, eles seriam guardiões. Mas a quem estavam guardando?
– A sacerdotisa– o segundo deles respondeu, antes de Kaito passar a lâmina em seu pescoço.
Então ela estava lá. Seria mesmo ela? Será que estava bem? Àquela altura era uma adulta como ele, será que ele a reconheceria?
Claro, ele pensou num sorriso, quase correndo em direção ao topo. Onde no mundo não reconheceria a mulher que amava? Ele torceu para que fosse ela, que os anos de espera não tivessem sido em vão. Mal reparava nos sacerdotes que tentavam barrar seu caminho e ele ia eliminando sem a concentração de antes. Jamais esteve tão perto dela.
Meiko...
O sacerdote que protegia as escadas do templo era jovem e forte, e possuía uma espada em cada mão. Kaito arfava pelo cansaço da subida e das lutas anteriores. A vegetação selvagem havia lhe ferido e rasgado suas roupas, e vários golpes que recebeu ainda lhe doíam.
Seu olhar, porém, era de um brilho feroz.
Ele partiu com tudo para cima do homem, que não esperava um ataque suicida. O segundo de hesitação lhe custou uma mão e uma das espadas. Ele gritou e se jogou contra o primeiro dos degraus da escadaria, um rio de sangue escorrendo do pulso. Kaito se aproximou para o golpe final, mas foi afastado por um chute no lado do joelho, que o fez perder o equilíbrio e bater a cabeça com força na terra.
Sua visão ficou turva. Ele viu o homem se erguer com o braço pingando e vir em sua direção, erguendo a espada para descer sobre seu peito.
Então, uma mancha vermelha cresceu no peito do quimono branco, e uma longa lâmina brotou dali. Ela sumiu num golpe e o homem caiu para frente. Morto.
Kaito respirou fundo, com dificuldade. O golpe na cabeça provocou uma pequena dor na têmpora, que foi aumentando vertiginosamente de intensidade.
– Consegue andar?
Aquela voz.
– A escadaria é comprida, mas eu vou te ajudar.
Ele se ergueu sobre os braços, sentindo a mão dela sobre seu rosto, e a visão voltou ao normal.
Em seu foco, ali estava Meiko. Sua presença, seu cheiro, ele jamais esqueceria. Os cabelos curtos, os olhos castanhos. Seu rosto era o de uma mulher agora. A mulher mais linda que ele já tinha visto.
– Isso... é um sonho, Meiko?
Ele a fitava desamparado, sentindo a cabeça prestes a explodir. A moça sorriu de lado e encostou sua testa na dele.
– Você acredita em sonhos, Kaito?
Não obteve resposta. Ele havia desmaiado.
– Pois eu acredito.
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