Little Last Love Song

10 10 - A teimosia de um homem.


A capitã Megurine ouviu o relatório com atenção. Depois pediu que todos se retirassem da tenda de comando, deixando apenas Piko e Len ali.

– Aquela garota– indagou. – A que salvou vocês no orfanato. Não encontramos o corpo dela nos escombros. Vocês acham...

– Pensamos nisso – Len murmurou, surpreso com a perspicácia da mulher. – Mas o Piko diz que tanto faz ser ela como outra pessoa.

– Como assim?

– A questão é saber o porquê ele atacou o nosso inimigo– o albino tomou a palavra. – Não sabemos se uma força descomunal como essa está ao nosso lado ou apenas se divertindo no campo de batalha.

– E o que você acha?

– Eu apostaria na segunda opção. Mas também há a possibilidade de ele estar resolvendo seus próprios negócios. Nesse caso, não sei se é seguro ficar no caminho dele.

– Agora essa– Luka levantou-se da cadeira e andou de um lado para o outro, irritada. –Como se tudo o que passamos já não fosse o suficiente.

Eles assentiram. Sabiam exatamente do que ela estava falando.

– Capitã– Len manifestou-se. –Meu pedido continua de pé.

Ela lhe lançou um olhar hostil.

– Minha resposta também – disse, fazendo sinal para que se retirassem.

– Dá pra acreditar? – o Kagamine resmungava furioso. – Ela não vai mover um dedo pra procurar por ele. Nem vai me deixar fazer isso.

Piko o ouvia em silêncio. Qualquer palavra que dissesse atiçaria a ira ou a determinação de Len, ou dos dois. E ele já parecia estar no limite de ambos.

Não era para menos. Afinal, fazia meses que Hiyama Kiyoteru havia desaparecido.

Ninguém sabia ao certo o motivo. Num belo dia o batalhão acordou e descobriu que seu capitão havia ido embora. Sem deixar avisos, orientações, muito menos explicações. E Megurine Luka simplesmente tomou o lugar dele e continuou seu trabalho.

Len não se conformava enquanto não soubesse o que havia acontecido. Mesmo Piko não foi capaz de deduzir os motivos que levaram o capitão a desaparecer. Com poucas pessoas no batalhão, Luka vetou a possibilidade de saírem em busca de Kiyoteru. Deviam por ora se concentrar em continuar vivos e defender seu território.

Mas se a ordem da capitã foi enérgica e determinada, Len estava mais enérgico e determinado ainda. Vendo que não conseguiria a autorização necessária para deixar o acampamento e fazer a busca, decidiu que ia fazer a coisa ilegalmente mesmo. Na calada da noite, assim que ouviu Piko ressonar pesado na cama ao lado, ele pendurou o fuzil nas costas, calçou as botas e se esgueirou para fora da barraca.

Havia guardas patrulhando, mas ele conhecia o quartel muito bem para saber que caminho seguir. Minutos depois já havia deixado o acampamento e agora se aventurava em campo aberto, no meio da escuridão. Tinha uma lanterna consigo, mas acendê-la só iria anunciar a todos sua presença.

Ao se acostumar com o escuro, ele vislumbrou copas altas de árvores no horizonte ao leste. Seguiu naquela direção, confiante, quando ouviu um estranho barulho.

Era um rosnado, pensou. De cão, e um dos grandes. O rosnado se tornou um latido forte e poderoso, que moveu todo o acampamento. Do meio da escuridão surgiu um dos guardas, segurando um grande labrador negro que esticava toda a corda, tentando avançar em Len.

O rapaz parou na mesma hora, pegou o fuzil e ergueu as mãos, rendendo-se. Outros guardas apareceram e mais cães começaram a latir ao ouvir o labrador, juntando-se numa barulheira infernal. Um guarda desarmou Len e o pôs de joelhos, enquanto outro o algemava.

Luka não pareceu nada surpresa ao vê-lo, quando os guardas o trouxeram à tenda de comando. Sabia que ele ia tentar algo imprudente e posicionou os guardas com cães excepcionalmente naquela noite. Na verdade, Len também não estava surpreso. Sabia que ela era perspicaz o bastante para saber como detê-lo.

Ele só gostaria de ter pensado melhor nisso antes de por o pé fora da barraca naquela noite.

– Não posso ignorar um ato de desobediência em meu batalhão –a capitã disse friamente. – Você foi homem o bastante para ignorar minha ordem; agora será homem o bastante para suportar as consequências.

Len a encarava de cabeça erguida, sem temor algum. O castigo que recebesse seria merecido. Ele queria mostrar à capitã que, de fato, havia amadurecido o suficiente para entender e aceitar isso.

– Dez chibatadas– sentenciou ela. – Sorte sua termos poucos soldados e não podermos deixar um deles completamente incapacitado. Sua pena será aplicada imediatamente. Você passará o resto da noite no tronco e descerão você de lá ao amanhecer.

Ele assentiu brevemente, engolindo em seco. Não desviou seus olhos dos de Luka um segundo sequer. Ela o dispensou e mandou que executassem a ordem.

O latido dos cães foi substituído pelo estalar do chicote, cortando o silêncio da noite e a carne de Len.

Quando a décima penalidade foi dada ele estava prostrado, seguro no tronco apenas pelas mãos algemadas, o sangue escorrendo pelas costas. Piko quis ir até ele, mas a ordem era de que a área ao redor do tronco devia permanecer vazia até o dia raiar. Qualquer um que desobedecesse a ordem estava convidado a tomar o lugar de Len no tronco.

Ele já nem sentia mais a dor. Parecia que ela era parte dele agora, entranhada em suas costas. O vento frio arrepiava os braços nus, que agora estavam dormentes pela posição. De joelhos na terra, ele pendia a cabeça para o lado, fechando os olhos, o pensamento vazio.

– Beba isso.

Algo morno encostou em seus lábios. Ele os entreabriu e tomou o que devia ser uma mistura de leite com mel. Estava quente, e seu corpo aqueceu aos poucos conforme o líquido descia pela garganta.

– Você devia ter previsto isso. Mas mesmo que previsse, acho que ainda tomaria a mesma decisão.

– Claro que sim – Len murmurou, sem abrir os olhos. – Por que está tentando ser gentil comigo agora?

– Porque Kiyoteru-san não gostaria de ter visto isso– Luka suspirou, cansada. – Ele criou bem vocês. Antigamente eu via as crianças do orfanato como um estorvo, algo que o impedia de se juntar a nós na batalha. Mas vendo como ele cuidou de vocês... Vendo a inteligência de Piko, a sua habilidade e determinação, a boa índole de vocês dois... Kiyoteru-san desenvolveu em vocês o que tinham de melhor. Foi um bom tutor, um bom pai. Eu me arrependo de como encarava vocês antigamente, e gostaria de ter conhecido todas as outras crianças.

Len continuava em silêncio. Ela estendeu a tigela aos lábios dele e o fez beber um pouco mais.

– Ele falou sobre você. Sobre como sua perseverança pode ser encarada como simples teimosia. Pediu que eu não fosse rude demais com você por causa disso.

– Você é a capitã– ele murmurou. Não posso ser tratado diferente dos outros.

– De fato– disse ela. –Por isso, Kiyoteru-san disse que, na primeira vez em que você tentasse ir atrás dele, eu deveria permitir.

Ele abriu os olhos. – Eu lhe pedi diversas vezes, capitã.

– Mas nunca tentou por si mesmo. E agora que o fez, devo cumprir minha palavra.

Terminou de dar o leite ao rapaz, que se sentiu um pouco mais revigorado. Devia haver algo além de mel ali dentro.

– Megurine-san– indagou– ele lhe disse o que ia fazer?

– Não– ela suspirou novamente. – Disse apenas que estava preocupado com alguns acontecimentos. Com o sumiço da Rin. Com Kaito e Meiko perdidos pelo mundo. Ele acreditava que havia algo mais por trás disso tudo, e decidiu partir para descobrir o que era. Me fez prometer não contar nada a ninguém, e não mandar ninguém atrás dele. Mas também me avisou sobre a sua teimosia, então eu deveria abrir uma exceção para você.

Ele a encarou sem entender.

– Ao amanhecer suas feridas serão tratadas – disse ela, erguendo-se do solo e ficando diante dele, os longos cabelos rosados soltos sobre o uniforme. – Assim que eu considerá-lo apto, vou lhe entregar as chaves do meu jipe. Você irá em busca de seu sensei, mas deve me prometer que, com ou sem ele, voltará vivo. E de preferência, com o meu veículo inteiro.

Dias depois Len estava na estrada. Havia percorrido todo o perímetro do acampamento e achava que já era hora de avançar por terrenos desconhecidos. Consigo levava o fuzil e mais algumas armas de fogo, e a esperança feroz de não voltar para casa de mãos vazias.

Ainda estava a milhas do território inimigo quando o sol começou a se pôr. Ele procurou algum lugar onde pudesse estacionar e passar a noite. Avistou escombros de uma cidade numa colina adiante e já se preparava para rumar até lá, quando um pressentimento o fez pisar no freio.

Ele respirou fundo, o peito acelerado. Estava sozinho, ninguém para lhe dar cobertura. Mas era um homem agora, um soldado de verdade, e um soldado não abandonava sua missão. Ele apanhou o fuzil, trancou o carro e subiu a colina.

Algo estava errado, ele sentia. Terrivelmente errado. Porque, justo naquele momento, as cenas do vilarejo massacrado de dias atrás estavam vindo à sua mente?

Ele se esgueirou pelas ruas desertas e chegou a uma estrada vazia, de onde se via o pôr do sol. Escondido entre as rochas, ele observou assombrado aquilo que havia feito seu coração disparar em alerta.

No horizonte sob o pôr do sol, não havia nada além da estrada vazia. Apenas uma moça de vestido negro e cabelos brancos, segurando uma foice gigantesca.

E parada alguns metros diante dela, uma garota mais jovem, de calça escura e botas e uma sarashi ao redor do peito. Seus cabelos eram curtos e loiros. E em suas mãos havia uma longa katana, reluzindo sob a luz do sol poente.

Notas finais
Vai ter sangue *-* A você que leu, muito obrigada! Se puder deixar um sinal de atenção em forma de review, com algum comentário, dúvida, opinião, spoiler de Game of Thrones (não) enfim, agradecerei mais ainda. Té maisinho :***