Little Last Love Song

11 11 - A coragem de uma mulher.


Meiko não tinha lembranças do templo onde nasceu. Sua mãe pediu a Kiyoteru que cuidasse dela, quando tinha quase cinco anos. Disse apenas que era sacerdotisa de um templo, e Meiko era sua sucessora, mas não devia ser descoberta. Então ela foi embora e sumiu na guerra.

De modo que, naquela manhã em que os cavalos a aguardavam do lado de fora da cidade, e os homens encapuzados a conduziram durante dias por trilhas e mais trilhas na floresta, Meiko não tinha ideia do que a esperava quando chegasse ao templo.

Mas ela não demorou a descobrir.

Escondido numa montanha, num canto remoto do mundo, aquele templo havia sido tomado por uma seita obscura, que eliminou todos os sacerdotes antigos. Agora eles trabalhavam servindo a homens ricos e poderosos, dando-lhe a proteção dos deuses do submundo através da sacerdotisa. Ela havia engravidado e fugido, mas os seguidores da seita não demoraram a encontrar o paradeiro de sua filha. Esperaram que ela tivesse a idade certa para começar a servir, e então foram atrás dela.

Meiko foi recebida pelo alto sacerdote da seita, cuja função era iniciá-la. Ela logo descobriu que a tal iniciação não passava de um estupro, que ela sofreu a duras penas. O sacerdote percebeu que ela já não era mais virgem, e decidiu que ela precisava ser ‘purificada’ para poder servir adequadamente.

Aquilo foi a pior parte para a jovem. Ela suportaria todas as vezes que aquele velho usasse seu corpo, mas ele fez algo pior. Mandou que os curandeiros do templo lhe retirassem o útero, e assim o filho que ela carregava não veio ao mundo com vida. E nenhum outro seria gerado em seu ventre, nunca mais. A cirurgia grosseira a deixou doente por dias, mas nada a deprimiu mais do que a perda do filho e da possibilidade de ser mãe outra vez. Tudo o que ela queria era morrer.

Mas ainda era cedo, e sua vida como sacerdotisa da seita estava apenas começando.

Quando suas feridas se tornaram cicatrizes, ela foi levada ao quarto das bênçãos. Foi ali onde passou os anos seguintes. Recebia ricos comerciantes, políticos influentes e criminosos de grande poder. Todos vinham em busca da bênção sagrada do submundo, que só podia ser obtida por meio do corpo da sacerdotisa.

Para todos os efeitos, Meiko se sentia como uma prostituta, sendo usada enquanto seus clientes pagavam aos seus donos. Sem esperanças nem perspectivas, deixava-se estar nua no futon enquanto os homens faziam o que queriam com ela. Já não sentia dor e esqueceu o que era o prazer, e até mesmo a vida. Suas memórias de Kaito e do orfanato pareciam distantes, como se outra pessoa tivesse vivido tudo aquilo. E enquanto seu corpo era usado, o dinheiro entrava aos montes no baú sagrado dos homens da seita.

Quatro anos passaram como uma eternidade. Seus cabelos cresceram, seu corpo ganhou curvas voluptuosas. Seu olhar jamais mudou, no entanto. Continuava mortiço, fitando o vazio, o pensamento ausente. Apenas deitada encarando o vazio, ou fazendo suas refeições, ou sendo duramente violada pelos clientes da seita, a expressão em seu rosto era sempre a mesma.

Sua alma estava morrendo aos poucos.

Às vezes ela olhava para uma mesinha perto do futon, num canto do quarto. Havia algo dentro da gaveta. Algo que ela ganhara recentemente de um de seus clientes. Ela não sabia se deveria usar aquilo ou não, por mais miserável que sua existência tivesse se tornado. Então apenas olhava, sem coragem de se erguer do futon, abrir a gaveta e olhar aquele objeto outra vez.

– Quem te deu aquilo? – uma voz indagou.

Meiko não sabia de onde vinha. Talvez de sua própria cabeça. Talvez, finalmente, tivesse enlouquecido.

– Um homem estranho– ela respondeu devagar.

– Estranho?

– Ele não me usou como os outros. Passou a noite olhando para a lua e as estrelas. Disse que gostava das constelações. Gostava de estar vivo para ver as coisas belas do mundo. Mas também, odiava estar vivo, pois tinha que ver as coisas feias também.

– Devia ser um homem interessante– uma voz diferente indagou. – O que mais ele te disse?

– Perguntou se eu passava por esse mesmo dilema. Não respondi nem falei nada, a noite inteira. Ele apenas sorriu, deitou-se ao meu lado e adormeceu. Quando acordei no dia seguinte, ele havia deixado algo para mim.

Meiko levantou-se finalmente, o robe de cetim fino escorregando pelo corpo nu. Foi até a gaveta e retirou o que havia ali.

Uma adaga.

– Ela se chama tantou –disse a primeira voz. – É uma espada curta, usada em rituais de suicídio. Quando os samurais dos tempos antigos eram manchados pela desonra, enterravam essa lâmina em suas próprias entranhas. Se tivessem sido guerreiros valorosos, alguém lhes decepava a cabeça e eles morriam rapidamente. Se não, agonizavam por vários minutos até a morte.

Meiko retirou a tantou da bainha. Então, olhou para trás. A figura de um lobo negro, rajado de azul claro, observava-a atentamente.

– Você pretende usar? – A voz vinha dele. Dela. Era feminina e, por algum motivo, soou conhecida aos ouvidos de Meiko.

– Não sei– ela murmurou, levemente surpresa.

– Você é uma filha de sacerdotes. Não fique surpresa em poder nos ver. – A segunda voz era de uma raposa de pelo alaranjado e olhos muito verdes. E Meiko também conhecia aquela voz.

– Afinal, você sempre foi nossa irmã mais velha, Meiko-senpai– a terceira voz vinha de um lince de pelagem ruiva, cuja cauda parecia formar uma pequena foice.

Ela conhecia aquelas vozes, claro que sim. Jamais esqueceria, não importava quanto tempo passasse. De alguma forma, aqueles três belos animais alinhados diante dela eram suas pequenas amigas de infância.

–Miki...? – o lince balançou a cauda, animado. – Gumi...? – a raposa assentiu com a cabeça. – E... Miku?

A loba aproximou-se dela.

– Viemos por você– disse. – Os mais fortes cuidam dos mais fracos. Foi como Kiyoteru-sensei nos ensinou. Agora você é apenas uma mulher, sem forças e que está desistindo de viver. E nós somos espíritos de pessoas que te amam e querem que você volte a ser livre.

– Como eu poderia...? –Meiko chorou. – Não pude nem proteger vocês. Aqueles cafajestes me prometeram...

– Está tudo bem– Gumi empurrou o focinho contra o colo dela. – Nós estamos bem. Você é quem não está.

– Você não usou a tantou– disse Miki. – Podia cortar os pulsos ou algo assim, mas até hoje, deixou essa arma guardada. Por quê?

Meiko fitou a lâmina curta em suas mãos. – Por uma esperança tola. Que nunca vai se realizar.

As três se entreolharam, e voltaram a encarar Meiko.

– Passamos por um longo caminho até chegar aqui– contou Miku. –Nesse tempo, nenhum de nossos irmãos se juntou a nós. Das garotas, só a Rin sobreviveu. E todos os garotos estão vivos. Piko, Len, o sensei... E o Kaito-senpai.

– Todos estão crescidos agora– Gumi acrescentou. – Os meninos são soldados e lutam ao lado do sensei e da Megurine Luka-san. E Kaito-senpai também se tornou um homem. Ele saiu pelo mundo à sua procura, e ficou forte durante esse tempo.

Meiko escutava em silêncio, os olhos banhados em lágrimas.

– Todos vocês... –murmurou.

– De uma forma ou de outra, todos seguimos em frente. Mas nós não podemos deixar você para trás. – Miki apontou para a adaga com o focinho. – Sua esperança tola é a de, um dia, se livrar das pessoas que te aprisionaram, certo?

– Sim– ela balançou a cabeça, enxugou as lágrimas. – Mas é inútil. Eu sou inútil. Não sei usar essa coisa, e não tenho coragem de matar ninguém.

– Você precisa de coragem pra continuar vivendo– disse Gumi. – Pra matar, basta ter motivos. E essas pessoas não lhe deram motivos o bastante, esses anos todos?

Ela assentiu novamente. Havia parado de chorar, e começava a escutar os espíritos com ainda mais atenção.

– Vamos te ajudar– contou Miki. –Somos só uma sombra do que fomos, mas agora sabemos de muitas coisas. Te ensinaremos a se defender e a atacar. Quando for preciso, manifestaremos nosso poder àqueles homens. Cuidaremos de você até chegar a hora certa.

– Que hora?

– Aquela em que você e Kaito partirão juntos.

– Então... – ela murmurou ansiosa. – Devo matar meus carcereiros e ir ao encontro dele...

– Não – Miku exclamou. – Não podemos sair do templo. Você não sobreviveria um dia sozinha lá fora. Além do mais, é o Kaito quem vem até aqui. Ele é muito bom, e muito habilidoso, e está quase te alcançando. Você só tem que esperar e se preparar.

Ela suspirou fundo. – Tudo bem. Vou esperar então.

Nos meses que se seguiram, a coragem de viver de Meiko reanimou-se. As meninas a ensinaram a usar a tantou como uma pequena espada, treinando-a a atacar e defender-se e atingir os pontos vitais de um ser humano. Ela aprendeu a mover-se com leveza e agilidade, ali mesmo, dentro do quarto das bênçãos, quando não havia ninguém por perto. Continuou a receber clientes e se deixar estar debaixo deles como sempre. Mas agora, conseguia imaginar o que faria se a tantou estivesse em suas mãos. Rasgaria a garganta daqueles homens. Enfiaria a lâmina em seu estômago e o deixaria estrebuchar até a morte. Cortaria fora o membro que tanto prezavam. Ela sorria por dentro. Preparava-se. E aguardava.

Um ano se passou desde que viu os espíritos pela primeira vez. Era noite de trabalho, e Meiko estava pronta.

O cliente entrou já tirando as calças, sem perceber que Meiko estava encostada à porta, a arma em posição. Acertou uma punhalada na nuca do homem, e o segurou enquanto cortava sua garganta. Em passos sorrateiros ela saiu do quarto e foi emboscando todos os homens que encontrou, imobilizando e eliminando a maioria deles. Os que ficavam fugiam para chamar reforços, mas ela esperava por isso. As meninas lhe forneceram a planta completa do templo. Depois de se livrar dos homens próximos de seu quarto, devia ir direto ao pátio aberto.

Lá encontrou exatamente o que esperava. O alto sacerdote, rodeado por uma multidão de seguidores da sua seita obscena. Todos tinham armas apontadas para a mulher nua, de longos cabelos castanhos, coberta de sangue e que tinha apenas uma adaga como arma.

– Você não vai fugir– disse o homem. – Pare de se comportar como um animal e volte a fazer o seu trabalho.

Meiko deixou escapar uma risada alucinada, que fez alguns dos homens estremecerem. – Eu, um animal? Posso até ser tratada como um, seu velho nojento. Mas os animais aqui são vocês. Aliás, nem disso devo chamá-los. Seria uma ofensa aos animais de verdade. Vocês são só monstros, e monstros não devem pisar o solo sagrado do meu templo.

Antes que o sacerdote desse a ordem de imobilizá-la, o chão do pátio estremeceu sob seus pés. Então todos viram surgir, por trás de Meiko, três figuras gigantescas envoltas em halos de luz. Um lobo, uma raposa e um lince gigantes. Eles olharam para o sacerdote e os homens, que gritaram apavorados. Então pularam sobre Meiko e foram na direção deles. Gumi rugiu para eles, lançando fogo de sua garganta e incendiando parte dos homens. Da boca de Miku saiu uma rajada de gelo que petrificou outra parte deles. Miki lançou neles raios elétricos, e no final, apenas alguns homens aparvalhados restavam de pé. Dentre eles, o sacerdote.

Meiko veio em sua direção, fazendo o homem se afastar. Ela ergueu a mão, mandando que ele parasse.

– Isso é uma tantou– ela lhe estendeu a adaga. – Homens sem honra usam essa lâmina enfiando-a em suas próprias entranhas.

Sem escolhas, o velho apanhou a arma e cometeu o suicídio ritual, agonizando até a morte. Meiko assistiu-o até que ele parasse de se mover. Então recolheu a lâmina e voltou-se para os homens restantes.

– Eu sou a Alta Sacerdotisa– declarou imperiosa. –É a mim que devem servir. Desçam a montanha e livrem-se de qualquer um que tente se aproximar daqui. E nunca mais pisem seus pés imundos em meu templo, ou os espíritos trarão uma desgraça muito maior a vocês. Entenderam?

Eles curvaram-se em respeito, lançando-lhe reverências desajeitadas, e então correram montanha abaixo.

– Alguns irão fugir – disse Miku, voltando com as companheiras ao tamanho normal. –Mas a maioria deles vai servi-la, exatamente como mandou. O que viram hoje foi mais real do que qualquer coisa que a seita nojenta deles tenha mostrado.

– Kaito será capaz de vencê-los– Gumi falou, rodeando Meiko. – Não se preocupe. Ele está cada dia mais forte.

Os anos se passaram em paz. Ninguém ousou invadir o templo. Meiko tinha a companhia constante das garotas, e mal podia esperar pela chegada de seu amado.

Certa noite ela despertou de um sonho, no qual Kaito aparecia. Era a primeira vez em anos que tinha um sonho bom, um sonho com ele. Ela levantou-se e se olhou no espelho, indagando-se se ele a reconheceria quando a visse.

– Não enquanto eu estiver assim– sorriu, passando as mãos pelos cabelos crescidos, e então apanhou a adaga afiada para cortá-los.

Notas finais
Obrigada a você que leu! Se puder deixar um comentário com toda a sua indignação, emoção, frustração ou desprezo pela minha pessoa... ou só quiser dizer o que achou do capítulo, fique à vontade! Acredite, apenas um "continue pfv" já me dá ânimo de continuar postando, mas se você quiser conversar um pouco mais, terei ainda mais prazer em responder. Té maisinho! :***