Little Last Love Song
12 12 - O despertar de uma criança.
O vento zunia de leve em seus ouvidos, enquanto os últimos raios do sol aqueciam seu corpo. Apenas as faixas da sarashi escondiam o busto, enquanto a cintura, ombros e costas recebiam o calor.
Ela sentiu uma presença a mais no local. Mas podia cuidar daquilo depois. Seu objetivo principal estava bem diante de seus olhos.
– Então você era o outro projeto? –a moça indagou.
Estava bem mais coberta em seu vestido negro de babados, ajustado ao busto por um corselete escuro. Os cabelos brancos e longos ondulavam ao vento, e um pequenino chapéu negro adornava sua cabeça. Parecia adorável, mas seus olhos eram os de uma assassina, e uma assassina sempre reconhecia outra quando a via. Sequer precisaria daquela foice gigantesca para que ela soubesse.
– Mayu– disse impassível. – É o seu nome, certo?
– Não é justo– ela sorriu. – Você sabe meu nome, mas nem se apresentou ainda.
– Kagamine Rin.
Os olhos dourados dela se estreitaram, e então ela sorriu. – “A garota da tempestade”... Entendo agora. Nosso pai é mesmo um homem muito engenhoso, não é?
– Não ouse mencionar o pai– ela ameaçou. – Você o traiu.
– E você veio me punir, certo?
– Não. Vim eliminá-la.
Ela revirou os olhos. – Céus, você está mesmo decidida. Então vamos logo acabar com isso.
De onde estava, Len assistia o confronto, mal podendo acreditar que aquilo fosse real.
A moça da foice de fato não era uma criança como Piko supôs, mas seus movimentos eram leves demais, ainda que manejasse uma arma com o dobro do seu tamanho. E como manejava. Atacava em círculos, movimentos giratórios e rápidos que terminavam num golpe certeiro, do qual Rin desviava por segundos.
Ela também era ágil e leve no manejo de sua espada, mas havia algo diferente nela. O poder da outra era óbvio, mas Rin apenas desviava de seus ataques, defendendo-se da foice com a lâmina de sua espada. Parecia estar sempre prestes a perder. E ao mesmo tempo, parecia estar só brincando.
Tudo aquilo ocorria em menos de segundos. Len mal podia acompanhar quando elas mudavam de posição e se lançavam uma contra a outra. Apenas o ressoar do choque dos metais guiava sua mente para o que estava acontecendo. Quanto às lutadoras, eram tão rápidas que ele só percebia vislumbres delas.
– Lembrei de uma coisa, Rin-kouhai– Mayu disse a certa altura. –Algo que você realmente precisa ouvir.
– Não tenho nada a ouvir de você.
Estava apenas cansando sua inimiga. Mas Mayu parecia estar aceitando bem o jogo. A tentar acertá-la por vários minutos, enquanto o sol terminava de morrer no horizonte. Rin adivinhou que ela já sabia de seu destino, mas não queria partir sem uma boa luta antes.
Mas agora Mayu estava cansada. Tantos golpes inúteis com uma arma gigantesca, contra alguém que era mais rápida que ela. Mais jovem, leve e bem treinada. Então, Rin decidiu que estava na hora de terminar o jogo. Ela saltou na direção da foice, pousando sobre a lâmina, ficando cara a cara com Mayu. E então, pulou de volta ao solo.
Havia atravessado a katana no coração dela.
Mayu deixou a foice cair com força no chão e se apoiou nela, observando Rin lhe dar as costas e sacudir o sangue da lâmina. Havia recebido um golpe fatal e sabia disso. Mas talvez Rin tivesse sido criada como ela. Talvez fosse uma garota má também, e quisesse se divertir um pouco antes de eliminá-la de vez. Nesse caso, aquela era sua única chance.
If you ever go astray and despair because you’re lost
Close your eyes and you can always feel my heartbeat there
Rin parou, rígida, seus olhos azuis crescendo de espanto.
Even in the morning cold, even when past noon is slow
We are connected by the sound that the two of us share
A voz de Mayu entoava os versos lentamente, enquanto a vida dela se esvaía em sangue. Rin caiu de joelhos, toda a sua mente um redemoinho de memórias. Seu pai. A espada. O orfanato. Kiyoteru-sensei. Kaito e Meiko. As crianças.
Len.
Ela apertou a cabeça entre as mãos, lágrimas descendo pelo rosto. Como pôde esquecer? Como pôde deixá-los para trás?
Então ouviu o som do corpo de Mayu desabar. Levantou-se e correu até ela.
– Mayu... Mayu-senpai– exclamou aterrorizada.
– Funcionou... Não foi? –ela sorriu um sorriso ensanguentado. – Quando ouvi seu nome, finalmente lembrei desses versos. Foi com eles que o pai libertou minha mente.
– Mayu-senpai – ela se ajoelhou ao seu lado desesperada, vendo a terra dragar o sangue que fluía das costas dela. – Mayu-senpai, eu sinto muito...
– Você fez o que o pai mandou... Mas não o obedeça mais. Você agora é livre. Vá encontrar as pessoas que realmente te amam. Acredite... Elas ficarão felizes em vê-la viva.
– Sinto muito...
– Não sinta. Somos assassinas, é o que fazemos. Você me deu uma morte rápida e honrosa, e fico feliz por isso. Apenas... Apenas fique ao meu lado agora. Eu nunca quis morrer sozinha, sabe?
Rin abraçou-a aos prantos. Ficou ao seu lado, segurando a mão dela. Repetiu os versos que ela havia entoado, e a viu partir serenamente. Ela fechou os olhos sem vida da moça, e limpou o sangue de seus lábios.
A noite caía, e a única luz iluminando o local era a da lua e das várias estrelas preenchendo o céu escuro. Rin permaneceu por horas ao lado do corpo de Mayu, a cabeça escondida entre os joelhos, chorando inconsolavelmente.
Então, lembrou-se de que havia alguém mais ali. Precisava acabar com aquela pessoa. Mas a simples ideia de ter que machucar mais alguém a apavorava. Ela se ergueu trêmula, sentindo frio e dor. Fazia anos que não sentia dor. Olhou ao seu redor, desolada. Quem quer que fosse, iria encontrá-la tão frágil e inofensiva que nem teria trabalho em matá-la.
Ela suspirou cansada e fechou os olhos, os ombros caídos de tristeza, o frio assolando seu corpo. Estava pronta para receber qualquer coisa. Um soco, um tiro, uma punhalada. Garrotes lhe sufocando o pescoço por trás. Qualquer coisa rápida e letal.
Mas não um abraço.
Ela abriu os olhos, assustada.
O calor repentino dele e o cheiro lhe despertaram todas as memórias ao mesmo tempo – “quer se chamar Rin?”; os bonecos de neve, as noites dormindo juntos, as brincadeiras. O tempo passou e ele havia crescido, era pouco mais alto que ela agora, e seus ombros largos a abarcavam por completo, numa sensação protetora e calorosa.
– É você mesma... Não é, Rin?
A voz era a mesma, ainda que estivesse um pouco mais grossa que o normal. Ela estremeceu e voltou a chorar, segurando as costas dele.
– Sim... Sou eu, Len...
– Que bom. É bom te ver de novo, Rin.
Sentiu a mão dele afagar seus cabelos. Deixou-se estar ali por vários minutos, insuficientes para matar toda a saudade, mas o bastante para que se acalmasse.
– Você tá gelada– ele tirou a jaqueta grossa que vestia, pondo sobre os ombros dela.
A garota segurou a jaqueta sobre si, fitando o rapaz. Tinha os cabelos presos no costumeiro rabo de cavalo curto, os olhos de menino num rosto familiar, acolhedor, mesmo que seus traços já não fossem infantis. Era o mesmo Len para ela, e tudo nele trazia lembranças de sua antiga vida, seu antigo lar. Era como se estivesse em casa, finalmente.
– A gente pode passar a noite aqui– disse ele. – De manhã eu vou voltar pro quartel... Você vem comigo, não vem?
Ela fitou-o docemente. – Eu vou pra qualquer lugar com você, Len.
O rapaz abraçou-a outra vez.. Então pegou-a pela mão, indo levá-la ao jipe. Rin olhou para trás e parou.
– O que foi?
– Espera um pouco.
Ela foi até o corpo de Mayu e o cobriu com a jaqueta de Len.
– É só até amanhã– explicou. –Quando amanhecer, quero enterrar o corpo dela.
– Tudo bem– ele respondeu.
Quase disse que era inútil cobrir o cadáver da pessoa que tentou matá-la, mas lembrou-se do quanto Rin chorou por ela, e resolveu respeitar sua dor.
Ele fechou as portas e vidros do jipe, para conservar o calor ali dentro. A lâmpada só ficaria acesa por alguns minutos, tempo bastante para ajeitar tudo que houvesse a ser ajeitado, antes de voltarem a se camuflar no escuro.
– Tenho outra camisa aqui– ele procurou na mochila. –Luka-san insistiu que eu trouxesse roupas. Ela não sabia quanto tempo eu ficaria fora, então...
Ele percebeu o olhar dela sobre si, e então, olhou também para ela. Ainda era a Rin, pensou. Mesmo crescida, com o sangue manchando seu peito e seu rosto. Ainda parecia uma pessoa bem diferente, e perigosa. Mas ainda era a Rin. Aquilo era tão estranho.
– Acho que não somos mais tão parecidos agora, não é? –ele sorriu, meio sem graça.
– Não – ela sorriu de volta.
Len pegou um lenço e molhou na água do cantil. Limpou o sangue já seco do rosto dela, do pescoço e da região abaixo dele.
– Você a conhecia? A garota da foice?
– Só hoje eu a encontrei pessoalmente.
– E quem ela era?
– Um projeto, como eu. Fomos criadas para ser assassinas e tínhamos nossas mentes controladas. Mas ela conseguiu se libertar, e antes de morrer, me libertou também.
– Como ela fez isso?
– Ela cantou uma música.
Havia muitas outras perguntas, mas Rin estava cansada e eles haviam acabado de se reencontrar depois de anos. Teriam tempo para conversar mais depois.
Rin lhe deu as costas para que Len desatasse as faixas ensanguentadas da sarashi. Ele lhe entregou uma camisa escura, de mangas compridas, que ficava um tanto grande nela. Comeram biscoitos e beberam água como jantar. Depois, Len limpou o banco de passageiros e estendeu um lençol a Rin.
– Eu durmo aqui na frente– explicou. – Aí tem mais espaço pra você.
Ela olhou para o banco longo e vazio. – Len, dorme comigo?
– Hein?
– Como a gente fazia antes. No orfanato, lembra?
Sim, ele pensou. Dormiam na mesma cama. Mas eram só crianças naquela época.
– Acho que não cabemos nós dois, Rin.
– Eu fico em cima de você então. Não sou pesada.
O rosto dele ficou vermelho na hora. Aquilo era ao mesmo tempo uma ótima e péssima ideia. Havia acabado de reencontrar sua parceira de infância, e descobrir que ela era uma garota bastante atraente... Mas o ar no rostinho dela era de desamparo completo. Ela também havia acabado de recuperar todas as suas memórias e estava atordoada. Não podia passar a noite sozinha.
– Vamos ficar meio espremidos então– ele decidiu, vencido, indo para o banco de trás.
Percebeu Rin tirar as botas, e depois a calça, expondo suas pernas alvas e longas. Tão bem feitas, como todo o corpo dela. E agora ela vinha para cima dele. Apagou a luz do veículo e se posicionou no pouco espaço que sobrou entre Len e o encosto, ficando com metade do corpo por cima do dele, a cabeça em seu peito, uma das pernas passadas sobre a sua. Ele estremeceu ao sentir a mão dela subir pelo pescoço, e quando seu sangue se concentrou numa única parte do seu corpo, percebeu que o inevitável havia acontecido.
Maldita adolescência, ele pensou, respirando fundo enquanto o seu estado ‘alterado’ não passava, rezando para que Rin não percebesse. Sentia todo o calor do corpinho macio dela sobre ele, os seios pressionando seu peito. Suspirou novamente e passou o braço sobre os ombros dela, e Rin se aconchegou mais junto a ele.
– Que bom que a gente se encontrou– murmurou, fechando os olhos. – Eu queria tanto te ver, Len... Não sabia o quanto, até agora.
Ele engoliu em seco. – Promete que não vai sumir de novo, Rin?
– Prometo.
Ela fechou os olhos e ressonou imediatamente, como uma criança.
Len sentiu seu corpo voltar ao normal. Acariciou o rosto dela, tão delicado e bonito. Com os cabelos fininhos e dourados caindo sobre a testa, ela parecia até um anjo. Então ele a abraçou com carinho, sentindo realmente que sua companheira estava de volta, o peito dele inundado de felicidade por isso.
E de mais alguma coisa que, naquele momento, ele não soube o que era.
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