Little Last Love Song
13 13 - O compromisso deles.
Uma sensação confortável o envolvia completamente. Kaito respirou fundo, e o ar morno e úmido adentrou seus pulmões.
Abriu os olhos. Havia água à sua frente, ao seu redor, até alguns metros adiante. Seu corpo estava apoiado em algumas pedras lisas sob a água, que estava morna e subia até seus ombros. Uma fonte termal.
Ele piscou devagar. Como parou ali? Ainda estava sonhando? Ele pousou os pés no solo pedregoso, e o nível da água desceu até seu peito. Olhou ao redor, confuso. Não sabia que lugar era aquele. Ao redor da fonte, árvores e rochas, uma pequena trilha de terra. Então notou que aquele local era apenas uma reentrância da montanha onde esteve antes. Árvores se erguiam terreno acima e abaixo. Ele ainda estava na montanha, só não sabia em que parte dela.
Ou se ela era mesmo real.
Kaito voltou-se rapidamente, um barulho vindo de uma das rochas adiante. Uma mulher de cabelos curtos e castanhos, envolta apenas num kimono branco e simples, acabava de deixar algumas roupas dobradas ali e vinha na direção da fonte. Kaito ainda não conseguia acreditar que fosse Meiko. Sabia que era ela, mas ela era uma mulher adulta agora. Exuberante. Ela lhe sorriu e deixou o kimono escorregar até o chão, revelando um corpo esbelto e cheio de curvas. Apoiou-se nas pedras da margem e entrou devagar na água.
– Você ficou pesado– ouviu a voz dela, grave e madura. – Não pude te levar ao templo, então te trouxe a um lugar onde você pudesse se recuperar mais rápido.
Ele a ouvia e a fitava, parado, enquanto ela vinha em sua direção, os seios fartos e redondos pousando de leve sobre a água e sendo cobertos por ela à medida que se aproximava.
– Kaito –ela tomou sua mão entre as dela. –Estamos juntos agora.
Ele inclinou o rosto na direção do dela, e então beijou seus lábios.
A brisa fresca soprava no templo, fazendo tilintar os sinos do vento.
O quarto das bênçãos não existia mais. Depois de expurgar o templo, Meiko derrubou as paredes do recinto, fazendo dali uma longa varanda coberta, de onde podia se ver o pátio, a entrada e as terras além da montanha.
Ela nem lembrava mais que aquele quarto já foi parte do templo. Estava sentada na varanda, acariciando os cabelos azulados de seu amado, que cochilava com a cabeça repousada em seu colo.
Sonharam um com o outro, por muito tempo. E agora que se encontraram, estavam encantados demais um com o outro, com a presença que tanto ansiaram.
Meiko observava as feições másculas de Kaito, as cicatrizes em seu corpo rijo e forte. Absorvia cada detalhe lentamente, imaginando as coisas pelas quais ele teve de passar até chegar ali. Desde o dia anterior, desde a fonte termal, não houve muita conversa entre eles. Havia uma saudade bruta, severa, que apenas seus corpos podiam matar. Mas olhando aquelas cicatrizes, Meiko imaginava se Kaito lhe contaria tudo algum dia. Com certeza ele passou por maus bocados, e devia haver coisas que talvez ele achasse melhor que ela não soubesse.
Então, ela pensou em seus próprios segredos. Partilharia com Kaito o terror de ter sido violentada por anos seguidos? Contaria a ele que foi salva graças aos espíritos de três das crianças do orfanato?
Ela pensou se aquilo não o faria se sentir culpado. Pensou se poderia carregar aquele fardo sozinha. E ao vê-lo despertar lentamente, suas íris azul-escuras abrindo-se para ela, decidiu que ela podia. Ele não precisava saber de tudo aquilo.
Só havia uma coisa que não poderia esconder.
– No que está pensando? –ele indagou, a voz ainda sonolenta.
– Aconteceu algo comigo, Kaito– ela murmurou, fitando-o seriamente. – Pessoas más tiraram algo precioso de mim. Eu as puni por isso, mas o que perdi, não posso mais recuperar.
Ele sentou-se voltado para ela, todo o seu rosto uma interrogação.
– Não vou poder gerar um filho, nunca mais.
Pôde ver uma veia saltar de leve no pescoço dele. Estava plenamente desperto, o semblante sombrio.
– Quem fez isso com você?
– Pessoas más. Pessoas que eu já puni. Não há mais nada a ser feito, Kaito.
Meiko pensou no filho deles, o filho que carregava quando fugiu do orfanato. Nem daquilo ele deveria saber, decidiu. Era uma dor que podia carregar sozinha, em compensação pela dor que causou a ele por todos aqueles anos.
Ele suspirou fundo e se encostou na pilastra de madeira próxima a ele, a lapela da yukata deslizando solta pelo ombro. – Eu não sei as coisas pelas quais você passou, Meiko. Se você não se sente bem falando delas, não precisa me contar mais nada. Mas se houver qualquer coisa, por favor, me diga.
A moça baixou a cabeça. – Eu ia lhe dizer o mesmo, Kaito.
– Bom, eu passei por algumas coisas– ele respondeu, num tom mais ameno. – Uma pessoa me ensinou a fazer coisas ruins. Eu machuquei e matei muitas pessoas más. Acho que não há muito mais além disso.
– Interessante– ela sorriu. – Comigo foi quase a mesma coisa. Mas não foi uma pessoa que me ensinou a machucar e matar.
– E como você aprendeu?
– Com espíritos.
Meiko riu diante do olhar surpreso dele. –Ué, eu sou uma sacerdotisa, não sou?
– Pode vê-los mesmo?
– Mais ou menos– ela decidiu dar o mínimo possível de detalhes sobre as garotas. – Aparecem de vez em quando, e são bem prestativos.
– Eles estão aqui agora?
Ela olhou para o pátio, onde as meninas brincavam de perseguir umas às outras em sua forma animal.
– Não. Preferem me ver quando estou sozinha.
Fazia muito tempo que Kaito não lembrava como era se sentir em casa.
Sua vida de andarilho havia ficado para trás. Até que para ele, um homem que passou a infância e adolescência morando sob um teto, e Mayu, uma filha da nobreza, os dois se saíram bem dormindo ao relento, em hospedarias baratas, tavernas sujas e toda sorte de locais perigosos. Permanecer no mesmo local por vários dias era algo que quase tinha esquecido, e quando se deu conta de que um mês se passara desde sua chegada ao templo, se viu aliviado por ter encontrado um lugar seguro onde ficar.
Ajudava Meiko nas tarefas do templo, a limpá-lo, a cumprir os rituais, a cultivar a horta que produzia os alimentos de que precisavam. Em suas andanças pela floresta a procura de caça, encontrou vários guardiões da sacerdotisa. Mas agora eles não o ameaçavam, pois Kaito usava uma manta que trazia estampadas as figuras de um lobo, um lince e uma raposa gigantes. Meiko não lhe deu muitas explicações, apenas disse que aquilo faria os guardiões entenderem que ele não era uma ameaça.
À noite, amando Meiko sob as estrelas ou perto de uma lareira, ele encontrava o seu verdadeiro lar. Sem reservas nem perigos, com a intimidade que partilharam quando mais jovens, agora intensificada com o desejo que a saudade despertou. Ouvindo-a gemer seu nome, estremecendo em seus braços enquanto o interior dela se tensionava, úmido e quente. Sendo sua, apenas sua. Nem lembrava como aguentou tanto tempo longe dela.
O tempo tornou aquele ato ainda mais prazeroso. Eles eram um homem e uma mulher, conscientes do que era a vida, e de que eram capazes de acabar com ela. Cheios de dores e arrependimentos, de segredos e tristezas. Quando suas peles nuas se encontravam, se pressionavam e se acariciavam, quando seus sexos se encontravam e se chocavam continuamente, quando seus lábios e línguas se misturavam, era quando finalmente eles podiam ser apenas eles mesmos.
Apenas duas pessoas que se amavam profundamente.
A conversa surgiu num dia em que eles estavam usando bokken para treinar luta com espadas. Meiko era especialmente letal no ataque, enquanto sua guarda estava quase sempre baixa. Já Kaito se saía razoavelmente bem atacando, mas ao se defender era quase inatingível.
– Formamos uma boa dupla– ele concluiu. Ela deu de ombros e sorriu, concordando.
Enquanto descansavam na varanda, Kaito contou sobre as regiões em guerra que havia deixado para trás. Ali era um território pacífico, mas era preocupante saber que pessoas estavam se matando a apenas algumas milhas dali.
– Seria bom se isso simplesmente acabasse– ele falou. – Por que as pessoas não podem só viver em paz? Por que a ganância estraga tudo sempre?
– É a nossa natureza– Meiko comentou pesarosa. –Somos humanos, e já nascemos falhos. Provocamos catástrofes que nós mesmos não podemos conter.
– Se pudéssemos fazer alguma coisa... Mas pelo jeito, tudo o que se faz nessa guerra é matar ou ser morto. E eu já estou cansado de matar.
Ela o fitou com ternura, acariciando seu rosto.
– Podemos só viver aqui, tranquilamente, não é?
Kaito segurou a mão dela em seu rosto. – Eu gostaria muito.
Meiko olhou para o pátio. As três garotas estavam no meio dele, encarando os dois. Encarando Meiko. Pareciam esperar dela uma decisão, e a sacerdotisa sabia que decisão era.
E o quão difícil seria tomá-la.
– Kaito– ela levantou da varanda, ficando diante dele. – Você disse que, se houvesse qualquer coisa que eu tivesse de lhe contar, eu devia lhe contar.
Ele fitou-a intrigado.
– Das crianças, só a Rin, o Len e o Piko escaparam. O sensei também. Ele está lutando ao lado da Megurine Luka-san. Os espíritos me disseram que os meninos são homens agora. São soldados.
Kaito ficou atordoado. – Eles... Eles escaparam? Estão vivos, de verdade?
Ela não queria pressioná-lo, pois sabia que não era preciso.
Kaito entendia o dever dele, e o dela. O pai deles, e seus irmãos, estavam lutando numa guerra sem fim. Enquanto eles dois estavam ali, escondidos do mundo e de qualquer responsabilidade. Eram felizes, mas continuariam vivendo felizes, sabendo que os companheiros que lhes restaram poderiam morrer a qualquer momento?
– Temos que partir –Kaito disse, convicto. – Não podemos acabar com essa guerra. Mas nossa família está lutando, e temos que cuidar deles. Temos que lutar ao lado deles.
Meiko sorriu, emocionada, observando pelo canto do olho os espíritos acenarem com a cabeça, satisfeitos. Então abraçou Kaito, beijou-o e o puxou pelas mãos, fazendo com que se levantasse da varanda.
– Vamos continuar, então– disse, jogando a outra bokken para ele. – Vão precisar de soldados bem treinados por lá.
Era uma manhã clara quando eles se prepararam para partir. Meiko usava suas vestes tradicionais de sacerdotisa, o quimono branco e vermelho, a tantou presa à cintura. Kaito usava roupas simples, calças, sarashi e uma yukata escuros, e um cachecol azul que Meiko bordou para ele. Tinha a wakizashi na cintura também, mas ela já não continha mais as alianças.
Ambas já estavam nos dedos do casal.
Eles se encaminhavam para a escadaria, de mãos dadas, quando Meiko parou e pediu que ele esperasse. Atravessou o pátio e foi até a varanda, de onde Miku, Gumi e Miki os observavam.
– Obrigada por tudo– murmurou ela.
– Nós é que agradecemos– disse Miki. – Vocês poderiam ter escolhido uma vida mais tranquila e mais fácil permanecendo aqui. Mas decidiram lutar ao lado dos nossos irmãos.
– Kaito e eu já deixamos vocês para trás uma vez. Não vamos fazer isso de novo.
As três assentiram. Gumi se aproximou e empurrou o focinho no colo dela, como costumava fazer.
– Cuidaremos do templo– disse. – Os homens lá embaixo também farão isso, mas vamos ficar aqui e assegurar que ninguém vai tomá-lo outra vez.
– Podem mesmo fazer isso? – Meiko indagou.
– Até o dia em que a sacerdotisa retornar– disse Miku. – Guardaremos o templo para você, ou para quem for capaz de cuidar dele. Mas não se prenda ao templo, nem a mais nada. Você já sofreu tudo o que tinha que sofrer nessa vida, e até um pouco mais. Agora, deve partir sem arrependimentos.
Ela enxugou uma lágrima. – Se conseguirmos, Kaito e eu voltaremos para cá. Obrigada, meninas.
As três repousaram as cabeças no colo dela, e então desapareceram no ar.
– O que foi? –Kaito indagou ao vê-la enxugando o rosto.
– Nada –ela lhe sorriu, voltando a segurar sua mão. – Apenas os espíritos nos desejando boa sorte.
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