Little Last Love Song

14 14 - Uma mente perturbada a mais.


A chegada de Rin ao acampamento foi um evento cheio de surpresas, alívio e preocupações.

A confusão começou logo quando o jipe parou no portão de entrada de veículos do quartel.

– Voltou cedo, Kagamine-kun. – O guarda deu uma espiada dentro do carro. –E ainda arranjou uma garota! Que esperto você é, hein?

– Prazer em conhecê-lo – ela curvou a cabeça educadamente. –Sou Kagamine Rin.

O homem olhou para ela, e então para Len, surpreso.

– Espera aí. Você tinha uma irmã?

Len também parecia surpreso com a garota. – Quem te disse que o seu nome é Kagamine Rin?

– ... Você – ela respondeu, incerta.

– Não, eu só te dei o nome. Por que você tá usando meu sobrenome? Ô cara, ela não é minha irmã não, tá?

– Mas vocês são a cara um do outro – ele insistiu.

– Uma ova– Len resmungou, começando a ficar irritado, e pisou no acelerador.

O que o irritava mais, ele logo percebeu, era que não sabia exatamente o porquê de estar tão irritado. A ideia de que era sequer possível eles serem irmãos nunca o incomodou como agora.

Rin olhou para ele, constrangida. – Desculpa, Len. Não vou usar seu sobrenome.

– Sério Rin– ele disse, sem olhá-la. –Quem te falou que seu nome era esse?

– Eu não sei. Não lembro... Sinto muito.

Ela baixou a cabeça, e Len imediatamente se sentiu culpado por fazê-la se preocupar com algo tão bobo. E que no fim das contas, nem era culpa dela.

– Relaxa – disse, pondo a mão de leve sobre o ombro dela. –Vem, vamos conhecer o pessoal.

Todos ficaram surpresos em ver aquela garota tão parecida com Len, mas que pelo jeito não tinha nenhum parentesco com ele. Rin também era uma garota bonita, alguém em quem os homens exaustos da guerra gostariam de descansar os olhos. Sua presença pareceu irradiar um ânimo novo no batalhão. Ela foi gentil com todos que a receberam, e Len ficou satisfeito em ver que sua parceira não estranharia o novo ambiente.

Contudo, o que assombrou todos foi a carga que Len trouxe no banco de trás do jipe. A foice gigantesca de Mayu era tão pesada que rebaixava os pneus traseiros do veículo.

Luka chegou acompanhada de Piko. A garota pulou no pescoço dele assim que o viu, provocando um rubor leve no rosto do albino.

– Que saudade! – Ela se afastou um pouco para vê-lo. –Você ficou grande, Piko-kun!

– V-você também– ele limpou a garganta e então sorriu, recompondo-se da surpresa. – É bom te ver de novo, Rin. Sentimos sua falta.

– Eu também. – Ela olhou para o rapaz, e então para Len. – Só sobramos nós, mesmo?

– Não temos noticias de Kaito-senpai e Meiko-senpai– Len confirmou. – E uns meses atrás, o sensei também partiu sem deixar rastro. Eu estava indo atrás dele, quando te encontrei.

– Então... – Ela baixou o olhar, um profundo pesar tomando seu rosto. – As meninas... Miku-chan e Gumi-chan...E a sua irmã, Piko-kun...

Nesse momento Luka reparou na carga do jipe. – Kagamine-san, aquilo é o que eu penso que é?

Dois soldados retiraram a arma do veículo com certo esforço e a depositaram no chão, provocando um grande estrondo. Todos se aproximaram para vê-la, curiosos.

– Estava certo, Utatane– Len sorriu para o amigo. –Uma garota usava essa coisa como se fosse de brinquedo. E era um pouco mais velha que a Rin, mas se movia leve como uma criança.

– Vocês a encontraram? – Luka indagou.

– O nome dela era Mayu – Rin disse, de cabeça baixa. – Eu... Eu a matei.

Um grande silêncio tomou conta da multidão.

– Você o quê? – a capitã sibilou.

Começava a achar que aquilo era alguma brincadeira, e Len percebeu. Não podia culpar Luka, afinal aquilo era bizarro demais. Apenas uma garota era a usuária daquela foice? E ela sozinha conseguiu matá-la?

– Rin– ele sussurrou. – Pegue a foice.

Ela olhou para o rapaz, seus grandes olhos azuis amedrontados, e então abaixou-se e estendeu a mão até o cabo da arma.

– Meu Deus – um dos soldados se benzeu na mesma hora, enquanto todos se afastavam.

Rin olhou ao redor, temerosa ao ver todos saindo de perto dela.

– Eu não vou machucar ninguém– tentou explicar, aflita.

Mas era difícil conciliar sua aflição com a imagem dela, erguendo a foice sem o menor esforço.

– A pessoa chamada Mayu usou essa arma para acabar com vários de nossos inimigos– Luka disse. – E você conseguiu matá-la. Também consegue usar essa foice?

– Não – ela respondeu perturbada, e resolveu pôr o objeto de volta ao chão. – Minha arma é uma katana.

– Mas conseguiu matar a Mayu. Tinha ordens de alguém para isso?

– Meu pai... –Ela voltou a baixara a cabeça, hesitante. – Disse que a Mayu era perigosa. Disse que tinha que ser detida.

– Quem é o seu pai?

– Eu... Eu não consigo mais lembrar. Só lembro bem do Kiyoteru-sensei... Onde ele está afinal...?

Luka a segurou pelos ombros, impaciente. – Escute, garota. Você está do nosso lado na guerra?

Ela olhou para Len, trêmula. –Sim.

– Significa que vai lutar ao nosso lado agora, certo?

Rin voltou-se para a mulher, aterrorizada. –Não! – gritou. – Não vou matar de novo! Não posso! Se eu matar... Eu vou me perder de novo... Eu não posso me perder outra vez...

Ela se agachou, escondeu o rosto e tapou os ouvidos, chorando convulsivamente. Luka suspirou fundo e olhou para Len, enquanto se dirigia para sua tenda.

– Você é o responsável por ela– disse, num resmungo cansado. –Trate de fazer com que ela seja útil no acampamento de algum jeito. Já temos mentes perturbadas demais por aqui.

– Capitã– ele insistiu enquanto a seguia. – A Rin vai se recuperar logo...

Ela parou e voltou-se subitamente, fazendo Len estacar na hora.

– Quando mandei você naquele jipe, fiz aquilo cheia de pesar– confessou. –Tinha certeza de que estava mandando você para a morte. E no entanto, no dia seguinte, você volta trazendo algo que pode ser a nossa morte. Se essa menina perder o controle e fizer algo como o que a Mayu fez no vilarejo, do que vai adiantar? Eu não preciso de uma arma que só dispara quando quer. Muito menos se ela quiser disparar contra mim.

– Eu não vou deixar– Len respondeu resoluto. – Cresci ao lado da Rin. Ela salvou a mim e ao Piko. Confiamos nela.

– Nesse caso... Boa sorte para todos nós– ela concluiu desanimada, deixando-o sozinho.

Piko conseguiu acalmar Rin, mas não pôde levá-la para a tenda de planejamentos onde trabalhava, pois os soldados não se sentiam à vontade com ela por ali. Rin imediatamente foi procurar outro lugar para ir, mas onde quer que fosse, as pessoas se afastavam dela com olhares desconfiados. A tarde caiu pesadamente, encontrando a garota solitária num banco da longa mesa de refeições a céu aberto. Pensava se havia sido uma boa ideia ter ido a um lugar onde era um fardo para todo mundo.

Sentiu uma mão quente sobre seu ombro e voltou-se para trás.

– A capitã disse que você precisa trabalhar se quiser ficar– Len falou, sentando-se ao lado dela.

– Eu saí por aí, perguntando se precisavam de ajuda– Rin contou melancólica. – Mas pelo jeito só a minha presença já é um estorvo...

– Besteira– ele empurrou uma pistola sobre a mesa para a garota. –Aqui. Sabe como desmontar e montar isso?

Ela hesitou um pouco, antes de confirmar com um aceno de cabeça.

Len ergueu uma sobrancelha. – Então? Faz aí.

Rin pegou a arma. Olhou-a com cuidado, e em poucos segundos abriu-a completamente.

– Tem um lenço? –pediu a Len.

Ele lhe entregou uma flanela e ela limpou as partes internas com cuidado. – Essa aqui estava precisando de uma limpeza. Acho que o gatilho dela é meio pesado também...

– Oe, Kagamine! – Um dos soldados se aproximou, alarmado. – Não dê essa coisa a ela!

– É? – Len voltou-se para ele com um ar insolente. – Quem te deu ordens pra falar isso?

– Bem... –ele se atrapalhou – Você sabe, ela...

O rapaz se ergueu e foi até uma árvore a alguns metros da mesa. Tirou um canivete do bolso e riscou um grande círculo no tronco, do tamanho aproximado de um disco de vinil.

– Rin– disse ao voltar para o banco. – Monte a pistola e descarregue dentro daquele círculo. Não deixe nenhuma bala de fora.

Ela olhou-o em dúvida, e ele lhe piscou um olho. Por fim a garota montou a arma com a mesma rapidez que desmontou e mirou na árvore, trêmula.

– Sério que você quer atirar sentada?

Rin levantou-se, rubra de vergonha, enquanto Len ria. Ele se aproximou do soldado que os interpelou e disse para que ele prestasse atenção. A garota tremia dos pés à cabeça, e então começou a disparar, um tiro atrás do outro.

– Posição errada– Len comentou com o soldado. – Não sabe receber o coice do disparo. E... Não tem mira nenhuma.

O diagnóstico dele se provou certo, quando Rin finalmente abriu os olhos. Os ouvidos zuniam, os ombros doíam e apenas uma bala acertou o tronco, vários metros acima do círculo.

– A arma da Rin é uma katana, caso você não tenha ouvido mais cedo– Len retirou a pistola das mãos trêmulas dela. – Agora, vê se faz alguma coisa de útil. Conte aos seus amigos que eles estão se borrando de medo de uma garota que tenta atirar sentada e de olhos fechados.

Depois que ele se afastou, Rin se aproximou de Len, confusa.

– Não sei se isso foi bom ou ruim– confessou.

– Você foi ótima– ele lhe abriu um grande sorriso. – Esses panacas acham que você vai sair matando todo mundo a qualquer momento. Mostra pra eles o quanto você é inofensiva e pronto. Você entende como as armas funcionam, mas não faz ideia de como manejar uma. Isso é perfeito! Quanto mais incompetente, melhor.

– Eu... Também não sei se isso é bom– ela murmurou, sentindo-se um pouco ofendida.

– Vai, relaxa– Len riu. –É seu primeiro dia aqui. Logo vai acabar se acostumando.

O relato sobre a falta de habilidade de Rin com armas de fogo correu por todo o acampamento, de modo que, à mesa do jantar, o clima já estava mais ameno e alguns soldados conversavam descontraidamente com Rin.

– Mas você sabe a diferença entre um revólver e uma pistola, certo? –um deles indagou zombeteiro.

– Sei – ela respondeu inocente. – Só não sei usar nenhum dos dois.

A resposta fez a mesa explodir em gargalhadas. Ela sorriu tímida, e Len ficou feliz por vê-la mais à vontade.

Aliás, apenas a presença dela o deixava feliz. Era tão bom tê-la de volta! E ela estava tão bonita agora... Len acabou lembrando da noite anterior, quando dormiram juntos no carro, e sentiu o rosto esquentar. Agora entendia o porquê de não querer os outros pensando que Rin era sua irmã. Afinal, aquela teria sido uma situação meio bizarra...

De qualquer forma, não era assim que ele a enxergava. Rin sempre foi a irmãzinha de todos no orfanato, não só dele. E agora era uma garota crescida, incrivelmente linda e potencialmente perigosa, apesar de ser tão inocente. Len não sabia como seriam as coisas dali em diante, mas só de ver o sorriso dela, sentia que valia a pena confiar na garota. Valia a pena correr qualquer risco.

Só para que ela continuasse ao seu lado.

Quando chegou o toque de recolher, a garota já se dirigia para a barraca de Len e Piko, quando Luka chamou-a.

– Onde pensa que vai?

– Vou... Dormir com o Len– ela murmurou, arrependida antes mesmo de ter falado.

Luka estreitou o olhar. –Sei que faz algum tempo e você tem saudades dele, mas isso aqui não é o orfanato, Rin. Somos as únicas mulheres no quartel, por isso, dormimos juntas.

Sem escolha, Rin marchou para a tenda da capitã. Havia uma cama à sua espera ao lado da de Luka. A mulher despiu o uniforme, reparando no olhar de Rin sobre seus seios.

– Um dia os meus vão ficar assim? – ela indagou.

Luka achou divertida a curiosidade da menina. – Se você viver o bastante, talvez.

– Os homens olham muito pra eles.

– Por isso quer que os seus cresçam logo?

– Não, só acho bonito. Os seus são muito bonitos, Megurine-san.

Luka vestiu um pijama. Acendeu um cigarro e sentou-se na cama, diante de Rin.

– Não faça um elogio tão íntimo a alguém que só conheceu por um dia– disse com o cigarro entre os lábios.

– Me desculpe...

– E pare de se desculpar. Tenha mais confiança em si mesma.

– Certo.

Rin se encolheu na cama, hipnotizada pela fumaça que subia da ponta do cigarro. Ainda vestia a camisa grande de Len, e como não tinha outra roupa de dormir, resolveu apenas tirar a calça.

– Você disse que a sua arma era uma katana. Mas não vi nenhuma com você até agora.

Ela baixou o olhar. – Eu enterrei junto com o corpo da Mayu. Prometi que não ia mais usar.

Luka olhou-a demoradamente. Então mandou que ela fosse dormir e Rin obedeceu, encolhendo os joelhos junto ao corpo e adormecendo pouco depois. A capitão jogou a ponta do cigarro fora e fechou a tenda.

Antes de dormir deu uma última olhada em Rin, que ressonava como uma criança. Ela pôs um cobertor sobre a garota e voltou para a cama.

Notas finais
Yay! Voltando a postar aos sábados. Pelo menos, assim pretendo. Enviem pensamento positivo pra me ajudar! Ah, e reviews também. Com suas opiniões, dúvidas, sugestões, desabafos sentimentais, enfim. Estarei aqui para responder. Té maisinho! :***