Little Last Love Song

15 15 - A sombra que trouxe a luz.


A explosão fez a terra estremecer, escombros voando por todos os lados. Kiyoteru xingou enquanto fazia a caminhonete dar a ré e pegar um caminho mais afastado.

Não sabia bem o que o fazia prosseguir. Sua cidade estava sendo bombardeada. A casa que construiu, a esposa que conheceu quando eram colegiais, os dois filhos que já estavam aprendendo a falar, tudo sumiu debaixo dos mísseis. Ele devia ter ficado também. Foi um pai ausente, um marido ausente, até mesmo na hora em que perdeu sua família para sempre.

Mas não conseguiu ficar. Algo o impulsionava a preservar a própria vida. Como se aquela ainda não fosse a sua hora, e no fundo, ele soubesse disso. Dirigiu a noite toda até se afastar o bastante da cidade, até ela se tornar uma mancha crepitante no meio da noite tempestuosa.

Perdeu tudo, de uma só vez. Não pôde sequer se despedir. Aquilo era tão repentino, tão absurdo e cruel, que ele não sabia como reagir. Estava estático. Não conseguia chorar. Sequer lembrava os rostos de seus entes queridos. A esposa e os filhos que amava... Quem eram eles? Eles existiram mesmo... Ou foi alguma alucinação de guerra?

Foi despertado de seus pensamentos por um trovão no céu, e logo depois ouviu um choro baixo e cortante. Ele acendeu os faróis, e então viu uma criança andando na direção do veículo, coberta de lama e fuligem, esfregando os olhos enquanto chorava. Kiyoteru abriu a porta e foi até a criança. Era pequena, não aparentava mais de cinco anos. Ele agachou-se e tirou o casaco, pondo ao redor dos ombros dela.

– Tudo bem– disse, examinando seu corpo para ver se não havia ferimentos. – Aqui é seguro. Não precisa ter medo.

A criança o abraçou e Kiyoteru o levou para dentro do carro, apagando os faróis. Ela continuou chorando, e ao sentir seu corpo trêmulo, sacudido pelos soluços, algo se soltou no coração de Kiyoteru.

Lembrou do calor dos filhos em seus braços, e do rosto de sua esposa. Lembrou deles. Lembrou de tudo. A chuva fustigava com força as vidraças do carro, e as lágrimas desceram pelo rosto antes mesmo que se desse conta do quão arrasado se sentia.

Quando acordou no dia seguinte, a primeira coisa que sentiu foi o vazio em seu peito. Um buraco profundo, uma tristeza impossível de ser remediada. Ele fechou os olhos novamente, desejando nunca mais abri-los de novo. Só queria chorar e desaparecer.

Então, percebeu que a porta do carro estava aberta, e ele estava sozinho.

A criança estava do lado de fora, sentada nas pedras enquanto observava a fumaça negra se elevar da cidade ao longe. Ainda tinha o casaco de Kiyoteru sobre os ombros. Seus olhos eram de um azul escuro e profundo, e estavam intumescidos de tanto chorar. Havia olheiras debaixo deles. Kiyoteru imaginou que ele mesmo não estava muito diferente.

– Você morava lá?

Recebeu um aceno positivo em resposta. – Eu também. Preciso voltar lá pra ver o que sobrou. Quer vir comigo?

Quando se pôs de pé, Kiyoteru percebeu que era um garoto. Crianças naquela idade sempre pareciam ser de um gênero único, não importava as roupas que vestissem. Os cabelos eram curtos e lisos e o rosto sujo tinha feições delicadas, mas ele conseguiu se reconhecer naqueles olhos. Era o olhar de quem carregava uma responsabilidade, e agora que a havia perdido, não sabia o que fazer.

Em silêncio passaram pelas ruas arrasadas, algumas com casas ainda em brasas. Kiyoteru indagou ao garoto se ele queria ver onde ficava a casa dele, mas ele respondeu que o local foi um dos primeiros a serem bombardeados. Só devia haver cinzas ali.

– Vamos até a minha casa então– ele suspirou, temeroso.

Imaginou que não haveria nada, também. Os escombros viravam pó à medida que pisava sobre eles. Tudo o que possuía de valor havia sido perdido. De sua família, cujo valor era imensurável, não havia o menor sinal. Mas havia algo que poderia ter se salvado debaixo dos blocos de pedra e pedaços de madeira. Ele começou a erguê-los, e o garoto se aproximou para ajudá-lo. Continuaram por alguns minutos, até que finalmente encontrou. Era um estojo em metal e madeira, escuro e muito longo. Kiyoteru puxou-o para fora e o abriu, observando seu conteúdo. Lá dentro havia uma katana e uma wakizashi, posicionadas lado a lado sobre o forro de veludo escuro. Ele vedou as trancas do estojo e o entregou ao garoto.

– Consegue segurar?

– O que é isso? – Ele titubeou ao sentir o peso do estojo, mas conseguiu erguê-lo.

– Um daishou– respondeu, sem disposição para explicar muito. – Herança dos antepassados de meus pais. Leve para dentro do carro, e não abra, de jeito nenhum.

O menino assentiu e voltou para a caminhonete, carregando o estojo com certa dificuldade. Kiyoteru andou mais um pouco pelos escombros, até ver algo reluzir entre eles. Agachou-se e afastou os detritos, e então recuou.

A luz fraca do sol cintilava na aliança de casamento, num dos dedos da mão de sua esposa.

Trêmulo, ele retirou o anel do dedo rijo e levantou-se. O garoto já vinha voltando, mas Kiyoteru disse que estavam de partida. Guardou o anel no bolso e foi para o mais longe possível daquela rua.

O bombardeio havia focado no centro da cidade, de modo que a zona próxima das florestas e colinas estava menos destruída. Encontraram uma casa onde ainda havia água e lenha, e comida na despensa. Kiyoteru ferveu água e o garoto não se importou de tomar banho junto com o homem. Ele lhe lavou os cabelos, revelando fios negros azulados. Embora não pudesse dizer o mesmo de seu estado mental, ao menos o corpo dele parecia intacto.

– Que bom que não se feriu– ele comentou, passando a esponja nas costas pequeninas.

– Eu corri– contou ele. – Corri até não aguentar mais.

– Você fez bem.

– Mas eles estão mortos agora.

– Às vezes, só o que dá pra fazer é correr.

O menino assentiu cabisbaixo, e Kiyoteru sentiu uma pena muito grande dele. Era um homem com vários anos de vida, e certamente viveu alguns anos felizes. Mas aquela criança mal tinha começado a viver e já tinha perdido tudo.

Decidiu que cuidaria dele, como se fosse seu filho. E embora não houvessem sequer conversado a respeito, o garoto também decidiu que ele seria seu pai.

Continuaram a vigiar os arredores da cidade, em busca de mantimentos e outros sobreviventes. Os primeiros eram escassos, os segundos, inexistentes. Mesmo as casas que restaram de pé estavam desabitadas, com a aparência de que haviam sido abandonadas às pressas.

Kiyoteru tomou a estrada que permeava os limites da cidade. Ali encontrou uma mulher toda encurvada, segurando uma criança nos braços. Ao ver a caminhonete ela caiu na estrada, o corpo por cima da criança, como se tentasse protegê-la.

– Está tudo bem– Kiyoteru exclamou ao sair do carro, acompanhado do garoto. –Não vamos machucar vocês.

A criança engatinhou por baixo do corpo da mulher, revelando grandes olhos castanhos para Kiyoteru e o garoto. Devia ter mais ou menos a idade dele. Ela se ajoelhou ao lado da mulher, que continuava imóvel, e tentou fazer com que levantasse.

– Ajudem a kaa–san – pediu. –Ela tá fraca. Não come há dias.

Kiyoteru se aproximou. A mulher tinha as mesmas feições da filha, cabelos longos e castanhos. A menina tinha os seus curtos, pouco acima dos ombros. Mas parecia um pouco melhor nutrida que a mãe, que estava pálida e fria.

– Vamos levar vocês a um lugar seguro– disse, apanhando a mulher nos braços.

A menina tinha modos extremamente delicados para que se duvidasse de seu gênero. Talvez fosse natural, ou algo que houvesse herdado da mãe, ou aprendido com ela. Era uma criança graciosa, e mesmo o garoto não ignorava isso. Kiyoteru o pegava vez ou outra fitando-a, meio admirado, a qualquer gesto bobo que ela fizesse. Ao menos ela havia feito o garoto despertar de sua apatia, e finalmente o homem o viu sorrir e falar um pouco mais.

A mãe dela acordou horas depois que Kiyoteru lhe injetou um pouco de soro que encontrou nos escombros do hospital. Parecia fraca demais para estranhar o local onde estavam – uma casa ampla, com uma lareira bem quente e acesa. Seus olhos procuraram imediatamente pela filha, e a encontraram brincando com um garoto desconhecido.

– Foi a melhor casa que encontrei até agora– Kiyoteru disse a ela. Ofereceu-lhe sopa numa colher e ela tomou aos poucos, com dificuldade. – Não parece que vai desabar a qualquer momento. Tem uma boa cozinha, vários quartos e essa lareira. Acho que gente rica morava aqui. Mas até os ricos saem correndo quando ouvem as primeiras explosões perto de suas casas.

Ela tomou mais um pouco de sopa, e então voltou a dormir. A garotinha segurou a mão dela, e um sorriso iluminou seu rosto. – Está quente.

– O garoto é seu filho?

– Sim.

– Vocês não se parecem muito.

– Bem, ele não é filho do meu sangue. Eu... Tive filhos, mas os perdi no bombardeio.

– Sinto muito.

Ela observava a menina brincar de esconder com o garoto, nas ruínas diante da casa que eles ocupavam. Já fazia três dias desde que chegaram ali, e ela parecia ter melhorado bastante.

– Você é uma sacerdotisa, não é? –Kiyoteru indagou. – O amuleto no seu pescoço, é o mesmo da sua filha.

– Ela é minha sucessora– disse a mulher. – Nosso templo fica muito distante daqui. Mas não devemos voltar para lá. Se possível, ela nunca deve ir lá.

– Então, está fugindo com ela?

– Não posso deixar que a levem. Mas como vê, sou fraca demais... Foi um milagre termos chegado tão longe a salvo. Mas vendo o estado dessa cidade, acho que não posso mais proteger a Meiko-chan. O caminho à frente é perigoso demais pra que eu a leve comigo.

– Não leve então– disse Kiyoteru. –Fique aqui com ela.

A mulher sorriu. Muito da graça de Meiko havia sido herdado da beleza de sua mãe.

– Você é um homem bom– disse tristemente. – Eles estão atrás de mim. Se eu ficar, todos vocês estão condenados.

Kiyoteru olhou para os dois, que riam e brincavam como se nenhum mal houvesse acontecido a eles.

– Entendo –murmurou.

– Sinto muito– a mulher parecia constrangida. –Não quero pressioná-lo a isso.

– Tudo bem– ele sorriu. – Fico feliz que confie em mim, embora eu ainda ache que você está mesmo é desesperada.

– Em parte sim – ela admitiu, um pouco mais à vontade. – Mas ainda sou uma sacerdotisa. Reconheço uma boa índole quando estou diante de uma.

– Quando quer partir?

– Na verdade, eu nem deveria estar aqui agora.

Ele fitou-a seriamente, e então suspirou fundo. – Farei tudo ao meu alcance para cuidar bem da Meiko-chan. Mas você deve se despedir antes de deixá-la.

A mulher assentiu, engolindo em seco. Chamou a filha para perto dela, e as duas crianças vieram juntas.

– Meiko-chan– ela se abaixou e segurou seus ombros. – A kaa-san está indo embora agora.

– Tudo bem– a menina aprumou-se, e olhou para o garoto como se fosse despedir-se dele.

– Não. Dessa vez, eu vou sozinha.

Meiko fitou-a com seus grandes olhos, sem entender.

– A kaa-san é fraca demais pra te proteger, querida– ela murmurou numa voz embargada. Desfez o nó que prendia o amuleto ao pescoço da filha, guardando-o consigo. –E você é muito pequena pra ficar sozinha. Os mais fortes protegem os mais fracos. Os grandes ficam com os pequenos. Por isso você vai ficar aqui a partir de hoje, certo?

– Você não vai voltar, kaa-san?

Ela sacudiu a cabeça. – Meiko-chan, essas pessoas vão cuidar de você.

Olhou para o homem, de quem ela se deu conta de que ainda não sabia o nome.

– Hiyama Kiyoteru– ele apresentou-se. –E este é...

Então, Kiyoteru percebeu que estava com aquele menino há quase um mês, sem sequer saber como ele se chamava.

– Kaito– ele respondeu. – Você vai ficar bem, Meiko-chan. A sua kaa-san vai ficar também.

Ela olhou para a mãe mais uma vez, os olhos lacrimosos. A mulher lhe deu as costas e foi embora apressadamente.

Pensando naquela noite, Kiyoteru percebeu que também não havia perguntado o nome dela. Mesmo Meiko não sabia. Veio como uma sombra, deixando uma pequena luz na forma de uma criança. E nos anos seguintes, várias outras sombras passaram por aquela casa, até que ela finalmente se tornasse o orfanato.