“O que vai ser de nós?”

Naquele inverno, a pergunta atormentou Kiyoteru diversas vezes. Abrigados do frio, encolhidos junto a uma grande lareira, seis crianças ressonavam. Havia cobertores para todos, e comida para alguns dias a mais. Mas e dali em diante, quando a neve subisse e os recursos escasseassem de vez, como ele poderia sustentar aquelas pequenas vidas?

Kaito, o sobrevivente. Meiko, a filha de uma sacerdotisa fugitiva. Os gêmeos Piko e Miki, filhos de refugiados do outro lado da fronteira. Gumi, resgatada por um soldado no meio da guerra. E Miku, largada pela mãe apenas com a roupa do corpo. Crianças inocentes, de passados curtos e violentos e um futuro incerto. Um futuro que estava nas mãos de Kiyoteru.

Ele dera entrada nos papeis que lhe garantiam uma pequena quantia em dinheiro vinda do exército, mas a guerra estava atrasando o andamento de um processo já bastante trabalhoso. Enquanto isso, Kiyoteru não comia. Preferia alimentar seus novos filhos, abrigá-los e protege-los, enquanto se debatia quanto a resposta daquela questão.

A resposta estava no coldre de sua pistola. Em suas balas, sua habilidade como soldado. E na frieza e instinto assassino que se obrigou a despertar.

No meio da noite, muito longe, na estrada abandonada, ele se enfiou entre rochedos, escombros e arbustos. Havia pessoas como ele, famintas e desesperadas, com gente a espera deles em casa. Pessoas para proteger e alimentar. Sem piedade, Kiyoteru matou-as e roubou delas tudo o que conseguiu. Dinheiro, alimentos, roupas. Atirava em quem via, sem nem mesmo perguntar. E quando as balas acabaram, ele empunhou a katana, pela primeira vez em muitos anos.

As crianças estavam bem. O sangue derramado para isso não pesava na consciência de Kiyoteru. Era uma guerra, e se ele queria se manter são para cuidar dos filhos, precisava abdicar até mesmo de seu espírito.

Quanto mais longe da casa ele ia, mais Kiyoteru sentia-se distante de si mesmo. Era um assassino, um homem sem alma. Avançava por campos distantes, encontrava homens desconhecidos, matava a todos. Feria-se constantemente. Estava fraco, o corpo marcado por cortes e hematomas. Mas as crianças sorriam. E ele empunhava a espada, e seguia em frente.

E foi assim que ele encontrou a garota loura.

Veio do meio do nada, numa névoa branca em meio ao deserto gelado. Ela não devia ter mais de dezoito anos. Uma capa de inverno cobria o vestido negro, e o capuz descido revelava olhos azuis e cabelos louros. Era bela como um anjo. Numa das mãos havia um embrulho cheio de cobertas, e na outra, uma pistola. Apontada para Kiyoteru.

– Não creio que uma bala possa ser rendida por sua espada– disse num tom monocórdio, e um leve sotaque estrangeiro. – E eu posso atirar em você oito vezes, antes que chegue perto.

– Eu não mato crianças– Kiyoteru respondeu.

– Não sou uma criança. Deixei de ser, há muito tempo. – Ela apertou o embrulho junto ao corpo. – Mas este bebê tem três meses de vida. Se continuar aqui fora nesse frio, vai morrer. Portanto, decida o que vai fazer logo.

– E o que devo decidir? – ele murmurou, cansado e confuso.

– Proteja seus filhos, ou os entregue à própria sorte. Vi como você se move com a espada. Você não é realmente um samurai. E mesmo assim, vem matando essas pessoas para o bem de suas crianças, como a pouca habilidade que possui.

Ela jogou a arma na neve. – Se não mata crianças, não matará esta. Leve-a consigo.

– Quem é você?

– Isso não importa, Hiyama Kiyoteru. O dinheiro do exército está em sua conta, deve bastar para que você guarde sua espada. Seus filhos não precisam de um homem fraco e doente que arrisca a vida por eles, todos os dias. Precisam de um pai que esteja sempre com elas.

A garota caminhou resoluta na direção dele, passando-lhe o embrulho. O rosto da criança estava coberto, mas Kiyoteru podia senti-la quente e respirando.

– Ele tem um nome?

A garota lhe dava as costas, prestes a sumir no horizonte de neve.

– Os papeis de sua identificação estão nos embrulhos. Seu nome é Kagamine Len.

Anos se passaram. Anos felizes, interrompidos de forma brutal.

Kiyoteru manteve seus filhos o mais longe que pôde da guerra e da morte, até que elas os atingissem em cheio. Três cadáveres. Três desaparecidos. E dois meninos apavorados, perdendo tudo o que amavam. Só tinham o seu pai, e novamente, Kiyoteru só tinha seus filhos.

Mas não havia mais orfanato, nem onde se esconder. Tudo o que havia a se fazer era lutar.

Sob sua orientação, Kiyoteru viu Piko se tornar um rapazinho atento, de pensamento e ações rápidas. Continuava gentil como sempre, mas no mais era silencioso e sorria muito pouco. E nunca mencionava o orfanato ou os irmãos perdidos.

Assim como Len.

Este sim, preocupou Kiyoteru desde o instante em que pôs as mãos numa arma de verdade. Foi quando ele se deu conta do quão estranha era a existência daquele menino. Len, trazido por uma garota misteriosa no meio do nada... E que, quando tomou um revólver nas mãos, meio que já sabia o que fazer. Aprendia só de observar os outros praticando tiros, luta e táticas de emboscada. Com o tempo, sua ótima mira e visão fizeram dele o melhor franco atirador da companhia.

Mas era sua obstinação que preocupava Kiyoteru. Ele demorou a entender que os alvos em que mirava eram pessoas de verdade. Encarava aquela guerra como uma realidade para a qual ele estava pronto desde que nasceu, desde sempre. Violência era algo inevitável para ele.

Como foi para Rin.

Tão parecida com ele. Porém, com poderes assassinos que nenhuma criança normal devia possuir.

Kiyoteru então decidiu que estava na hora de deixar os dois rapazes por conta de Luka. Porque havia algo mais unindo Rin e Len além da aparência, do modo misterioso como chegaram ao orfanato e de sua naturalidade com a violência. Algo que poderia explicar aquele poder de Rin e, talvez, indicar onde ela poderia estar. Quem ela realmente era. E por que ela e Len entraram em sua vida.

E o único jeito de saber o que unia aqueles dois, era indo até o país vizinho, onde Len foi registrado logo depois de nascer.

Como oficial do exército, Kiyoteru passou pela fronteira sem muitos problemas. O país vizinho era grande em território, e procurava não se envolver em nenhum dos lados da guerra. Kiyoteru dirigiu-se ao cartório da cidade onde Kagamine Len havia sido registrado, apenas para descobrir que o lugar era um prédio abandonado. Nunca houve cartório algum ali.

Aquilo o intrigou. Com certeza o documento de Len era verdadeiro; ele conseguiu salva-lo junto dos registros das outras crianças, na noite anterior ao incêndio no orfanato. Resolveu ir até a capital e procurar a casa nacional de registros, onde talvez lhe indicassem como aquela certidão havia sido feita.

O que lhe indicaram lá, no entanto, foi o caminho de uma viatura da polícia federal. Por algum motivo, Hiyama Kiyoteru estava sendo preso. Como não obteve informação alguma, e ainda por cima era apenas um estrangeiro de um país em guerra, ele resolveu que era mais sensato cooperar.

E descobrir o porquê de o nome Kagamine ter feito o atendente da casa de registros chamar a polícia.

Dias se passaram dentro do cárcere. Kiyoteru pensava que completaria a semana ali, sem ver a luz do sol, alimentando-se parcamente e sem a menor ideia do porquê de estar cativo ali. Finalmente um soldado local chegou, com ordens de conduzi-lo ao palácio imperial. Kiyoteru tomou banho, arrumou-se e vestiu novamente sua farda, limpa e engomada.

Ao que parecia, ele seria levado à presença da Imperatriz.

O palácio era gigantesco e suntuoso, com séculos de tradição em sua arquitetura harmoniosa, que erguia-se como uma coroa dourada em direção aos céus.

No salão imperial, fortemente guardado por soldados nas entradas, não havia mobília, quadros ou adereços. Todas as janelas abriam-se para os jardins. Pétalas de flores flutuavam na brisa, cantos de pássaros ressoavam alegremente. O teto era tão alto que Kiyoteru mal lembrou-se de que havia um, de tão longas que eram as janelas e esplêndidos os jardins. O assoalho era feito de pedras lisas e coloridas, que brilhavam cristalinas sob o sol.

Debaixo da mais alta das janelas havia um degrau circular, forrado de veludo vermelho. Nele sentava-se a Imperatriz, embora seu corpo estivesse apoiado no batente da janela. Um canarinho estava pousado em sua mão delicada, cantando para ela. A moça estava de costas quando Kiyoteru foi levado à presença dela. Cabelos dourados caiam em cascatas pelas costas do hanbok de um laranja vivo que a vestia. Ao ouvir as portas do salão fecharem-se, ela estendeu gentilmente a mão, deixando o canarinho voar. Então voltou-se e ficou de pé diante de seu convidado.

Era digna de seu título, Kiyoteru pensou. Tinha o ar de uma jovem doce e a altivez que o sangue real lhe conferia. Ela fez um gesto aos soldados, que foram se postar do lado de fora dos portões. Então voltou a sentar-se, fitando Kiyoteru atentamente.

– Aqui não existem assentos para os convidados– ela explicou, depois que ele curvou-se numa reverência respeitosa. – O Conselho Nacional decide tudo o que há de ser feito. Quando alguém é trazido diretamente a mim, costuma ser para uma reunião breve. Quando devo dar uma ordem de execução, por exemplo.

Seu tom era neutro, de modo que Kiyoteru manteve a cabeça baixa. Se ele havia cometido algum crime, a Imperatriz com certeza diria, mesmo que o mandasse para a guilhotina em seguida.

– No entanto, meu assunto com você talvez não seja tão simples e rápido. Espero que não se incomode de permanecer sobre o chão por muito tempo.

Ele sentou-se sobre os joelhos, ainda de cabeça baixa. –Posso permanecer assim pelo tempo que desejar, Majestade.

Um sorriso breve curvou os lábios rosados. – Porque sou a Imperatriz?

– Porque desejo saber a verdade sobre o nome Kagamine.

Ele finalmente olhou-a nos olhos, e então a Imperatriz Seeu entendeu que, diante dela, estava um homem que não tinha medo de arriscar a própria vida por aquilo que buscava. Seu sorriso surgiu novamente, permanecendo um pouco mais.

Enfim, uma visita interessante, ela pensou.

– Meu país não precisa de mais territórios, por isso, não nos envolvemos em sua guerra– disse. – Mas estamos bem informados sobre o que acontece. Se o seu lado perder, serão engolidos por uma nação maior. E talvez essa nação queira fazer o mesmo com a nossa. Meus conselheiros dizem que o sensato seria ajudá-los, enviar tropas e acabar com o conflito de uma vez.

– Seria de grande ajuda– Kiyoteru concordou, cauteloso. –Mas posso entender que a Imperatriz também prefira manter-se longe da guerra.

– Não – ela o interrompeu bruscamente. – Você não entende. Eu quero ajudar. Quero que continuem em seu país como sempre estiveram. Mas não posso dar a ordem do envio de tropas, não sem a aprovação de uma certa pessoa.

– Uma pessoa...? –ele murmurou confuso. – Há alguém nesse país que é mais poderoso que Vossa Majestade?

Seeu balançou a cabeça, frustrada. – Ele é o herdeiro de importantes segredos da nação. Um homem muito rico, muito inteligente. E totalmente degenerado.

Kiyoteru engoliu em seco.

– Esse homem... Ele tem a ver com Kagamine?

– Tem. Kagamine é o nome de um projeto particular dele. Anos atrás nós recebemos ordens de não investigar do que se tratava o tal projeto, e de prender qualquer pessoa que viesse a esse país perguntando por esse nome.

E você fez exatamente o que ele disse, Kiyoteru pensou, imaginando quais segredos o tal homem deveria guardar, a ponto de dominar até mesmo a Imperatriz Seeu.

– Enquanto você esteve preso, o homem me concedeu permissão de enviar as tropas até o seu país. Mas para isso, você deve ser entregue a ele. O homem exige que você se entregue a ele, como cobaia para uma certa experiência.

– Esse homem também é um cientista, então?

– Eu disse que ele era muito inteligente.

E totalmente degenerado.

Kiyoteru pôs-se de pé. – Assim que desejar, pode me entregar a esse homem.

Seeu o encarou surpresa. – Mal pensou na proposta! Está mesmo disposto a se sujeitar a qualquer coisa...

– ...se me ajudar a descobrir mais sobre Kagamine, sim, Majestade– ele curvou-se novamente.

– Achei que essa seria a primeira reunião longa que eu teria aqui... Mas você é bastante determinado. De fato, um homem interessante.

Kiyoteru suspirou, cansado.

– Sou apenas um pai preocupado com seus filhos, Majestade.

Notas finais
Então, mals a demora!? *pisca* Mals mesmo, sério. Mas de agora pra frente, tá tudo de boas. Ah, e as postagens vão mudar pros domingos, contando de hoje. Se possível, almas bondosas, deixem uma review! Tudo bem se é a primeira vez que você lê todos os capítulos e só quer deixar uma review nesse, o que me importa é saber o que passa na sua cabecinha linda ao ler essa fic. Isso me faz refletir sobre a história, me motiva a escrever mais, me faz vomitar arco-íris e todas aquelas coisinhas brilhantes que uma review provoca num autor. Podem me dar esse prazer? *pisca de novo* Té maisinho :***