Little Last Love Song
8 8 - No que o tempo nos transforma.
O interior da carroceria sacudia com os buracos e detritos que passavam por baixo dos pneus. A cada solavanco, Len apertava mais o cabo do fuzil que trazia junto ao peito.
– Sabe o que vamos encontrar lá? – Piko indagou num sussurro, sentado ao seu lado no banco comprido.
– Sei– Len olhou para os outros soldados, sentados a frente deles. Não prestavam atenção nos dois. –Nossos inimigos.
– Vai ter crianças lá também.
– É, salve as crianças, Piko. Depois elas enfiam uma bala na sua testa por você ter matado os pais delas.
– Se você se sente bem com isso...
– Quem tá falando de se sentir bem? A gente só obedece as ordens. Mata os inimigos. É pra isso que a gente tá aqui, não pra ficar com peninha deles porque são crianças.
– Alguns devem ter a sua idade.
– Se manca, Utatane! Eu tenho quinze anos. Tem mais sangue nas minhas mãos do que correndo em minhas veias. Onde isso é ser criança? Somos soldados, e eles também. Agora cala a boca. Não consigo dormir com esses solavancos e você aí falando merda.
O albino suspirou. Len se recostou na lona e fechou os olhos, abraçando com mais força a arma.
De fato, a guerra havia amadurecido os dois. Mas de formas diferentes. Piko se tornou ainda mais introspectivo, refletindo sobre as ações que praticava, consciente de que aquela vida era terrível. A perda da irmã e dos outros companheiros e a violência que sofreu não o afetavam tanto quanto a rotina que levavam. Seus olhos de cores diferentes estavam sempre cansados, e quando lembravam a ele que agora era um soldado de verdade, ele apenas suspirava.
Len, ao contrário, balançava a cabeça afirmativamente. Sim, eram soldados. Haviam sido bem treinados e eram letais, com ou sem armas nas mãos. Não tinha paciência para pensar no que fazia, embora quisesse, assim como Piko, que aquela guerra acabasse de uma vez. Mas enquanto não, ele tratava de fazer sua parte sem demonstrar piedade ou remorso. Piko desconfiava que talvez ele reservasse todo o sofrimento para dentro de si, mas não tinha certeza. Os olhos azuis de Len estavam sempre focados num único objetivo: mirar no inimigo.
A aldeia onde o caminhão parou estava em ruínas e aparentemente vazia. Eles desceram da carroceria um a um, enfiados em casacos verde-escuro que se camuflavam com o musgo que cobria o chão e os destroços de casas. Iam de armas em punho, cautelosamente, escondidos sob os escombros e as poucas paredes que restavam de pé.
Minutos depois, as armas permaneciam sem disparar. Apenas ouvia-se o vento cortante que soprava sobre a aldeia fantasma.
O batalhão cercava, estarrecido, aquilo que deveria ter sido a praça central. Ali estavam reunidos corpos brutalmente mutilados, dilacerados em todas as maneiras possíveis. Dos prédios próximos, cadáveres dependuravam suas entranhas. O ar estava nefasto e repleto do cheiro de sangue e corpos apodrecidos.
– Quem no mundo faria isso? –indagou um dos soldados. –Poupou nossas balas, mas ainda assim...
– Será que ainda está por perto? –outro indagou, sem disfarçar o temor na voz.
Piko agachou-se perto de um dos corpos, onde a parte superior do corpo havia sido cortada fora. – Uma lâmina grande fez isso. Longa e afiada.
– Uma katana? –Len lhe lançou um olhar intrigado.
– Não, não. Uma lâmina mais pesada. Nenhum deles tem perfurações de uma espada, o que seria mais rápido pra eliminá-los. Além do mais, tem marca de corte feito por um instrumento pesado no chão, ao lado de onde ficava o braço daquele cara ali.
– O que você acha que é? – o líder do batalhão indagou.
Ao longo dos anos Piko havia mostrado uma ótima intuição e pensamento rápido, o que ajudou o exército muitas vezes em planejamentos e decisões. Mesmo ele tendo apenas dezessete anos, sua opinião era bastante respeitada e frequentemente consultada pelo alto escalão.
– Uma foice– ele concluiu, erguendo-se. – Lâmina dupla, aproximadamente um metro e meio de raio. O cabo é longo e bem reforçado pra aguentar o peso. Você pode ver os corpos formando esse círculo amplo. A foice mantinha todos a uma boa distância do assassino.
– E as armas de fogo? –disse alguém. – Por que não abateram o cara?
– Provavelmente não era só um cara– Piko pôs a mão no queixo, pensativo.
– Mais de um?
– Não... Quero dizer, o padrão dos golpes é o mesmo. Uma pessoa só fez isso. Essa pessoa tinha força de sobra pra erguer e manejar uma foice dessas como ele fez. Também foi sorrateiro, pegou todos desprevenidos. Mas tem algo mais. Algo que impediu que rebeldes treinados atirassem nele, ou os deixou tão nervosos que não conseguiram fazer direito. Vejam as marcas e as cápsulas de bala. Todas foram perdidas.
Len esperou a conclusão final, ansioso.
– A pessoa que fez isso deixou os homens apavorados– Piko afirmou. –Os que ainda têm rosto, possuem a mesma expressão de terror. Essa... ‘pessoa’... Chegou de surpresa, destruiu a todos que encontrou, por algum motivo que não sei explicar. Só o que posso dizer é que ele se divertiu fazendo isso. Muitos corpos estão dilacerados para além de suas zonas vitais. Não são marcas de tortura. Foi como se estivesse afiando a lâmina neles.
Um silêncio pesado reinou por alguns segundos. O líder chamou Piko e alguns soldados à parte. Deliberaram por um momento, enquanto Len e os outros iam analisando os corpos, confirmando todos os pontos que o albino havia apontado.
– A coisa não é adulta– ouviram o líder dizer. – Teríamos visto seus rastros se fosse. Mas também, possui uma força e agilidade que a maioria dos adultos não tem. Que diabos seria isso?
– Um monstro– disse um soldado, convicto, e a maioria concordou.
O caminhão partiu depois que os corpos foram incinerados. A dúvida sobre o autor do massacre ainda pairava, embora a maioria simplesmente aceitasse que a criatura não podia ser humana.
– É o que você acha? –Len indagou a Piko, dentro da carroceria.
Dessa vez teve que falar ainda mais baixo, porque agora os soldados prestavam atenção neles.
– Não acredito no sobrenatural– ele confessou. – Mas diante das circunstâncias, não posso dizer mais nada, ou vou soar como um louco e perder minha credibilidade.
– Impossível– Len assegurou. –Até a Megurine-san reconhece seu valor. Você repara no que ninguém mais presta atenção. Todos sabem disso, e todos confiam em você.
Ele baixou a cabeça, os cabelos brancos escondendo o rosto– É, Kagamine-kun... Mas não sei o que eles diriam, se eu explicasse que aquilo tudo podia ser obra de uma criança.
Len ficou em silêncio por alguns segundos. Depois suspirou, exasperado, e recostou-se na lona do caminhão.
– Tá achando que foi ela?
– Não sei. Mas não parece um deja vu pra você? Naquele dia– a voz dele estremeceu um pouco. – Naquele dia, ela fez algo bem parecido com isso.
– Mas ela tá morta, assim como as outras meninas. Choramos as mortes delas. Tem uma lápide com o nome dela.
– Mas não um corpo.
Ele sacudiu a cabeça loira. – Quer dizer que ela tá viva, andando por aí como se fosse a ceifadora da morte?
– Eu falei que era loucura demais – Piko sorriu. –Por isso, deixei que pensassem o que quisessem... Mas sabe...
– O quê?
– Pode ter sido obra de uma criança. Mas se a Rin realmente está morta, então só podemos supor que existe mais alguém como ela.
Ele se abaixou para encarar o rosto do outro. – E o que outra criança demoníaca tá fazendo no meio dessa guerra?
– Sei lá. É uma guerra, se elas matam pessoas, também são parte dela. O que me preocupa é... Como a Rin aprendeu a fazer aquilo. Como ela sabia fazer.
– Crianças fazem qualquer coisa que lhe mandem, se tiverem um bom motivo– Len resmungou. – Olhe pra nós dois.
– A diferença é que tivemos o Kiyoteru-sensei desde sempre. Eu queria saber quem a Rin teve, antes dele. Seja quem for, ele é o verdadeiro monstro.
Voltaram a ficar em silêncio, e Len jogou a cabeça na lona. Estava cansado e queria dormir, e seria capaz de pegar no sono ali no banco, mesmo com a estrada precária sacudindo o veículo.
Mas aquela visita à aldeia ia tirar seu sono pelo resto do dia.
Havia trilha de pneus pela entrada, e várias pegadas de botas. Um batalhão pequeno devia ter passado por ali.
Ela entrou no vilarejo, seus olhos azuis fitando tudo ao redor. Escombros, marcas de sangue. O vento frio soprava nos cabelos loiros e curtos, trazendo-lhe o cheiro de carne podre queimada.
Avistou os restos dos corpos na praça, mas não se aproximou. Por um breve segundo, a mão voou à cintura e alcançou o cabo da katana. Então, soltou-o devagar.
Dali de onde estava, sabia que não havia alma viva naquele lugar. Nenhuma ameaça concreta. Apenas a mensagem deixada para ela. Uma mensagem formada pelos corpos enegrecidos e pedaços deles, de modo que ela pudesse olhá-los naquele ângulo ao longe e ler as palavras no chão.
“MAYU VIVE”
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