Little Last Love Song
7 7 - O mal como guia.
Seus olhos se abriram devagar, para um teto branco e desconhecido. A última coisa de que lembrava foi do sangue, do peso da espada em suas mãos, o calor, a fumaça, o fogo. E então, o silêncio.
Ela sentou-se na cama, esfregou os olhos e tentou se localizar. Um quarto branco como o teto, porta branca, lençol branco, uma mesinha ao lado da cama com um jarro de flores brancas. Não havia janelas.
Quando ele abriu a porta, finalmente o quarto pareceu ganhar alguma cor. Era um homem muito alto, de cabelos muito longos, roxos como o sobretudo que usava. Tinha um rosto jovem, bonito e alongado, e olhos lilases que fitavam-na intensamente.
– Kagamine Rin – sua voz era cheia, ressonante e musical. – Que bom que finalmente acordou.
Ela queria que ele falasse mais, por isso ficou em silêncio. A voz dele era muito agradável e, de alguma forma, a deixava mais calma.
– Estive preocupado. Desde que a perdemos, tem sido muito solitário aqui. Que bom que chegamos a tempo de recuperá-la...
Rin piscou lentamente. Conhecia aquele homem de voz bonita.
Era a única coisa de que tinha certeza agora.
Todo o resto de sua memória havia se apagado.
Havia realmente uma garota dentro do quarto. Jogada no chão, olhos vendados, boca amordaçada, mãos e pés amarrados.
Kaito a observou tenso, a luz amarela da lamparina iluminando longos cabelos brancos que se espalhavam pelo chão. Ela usava um vestido longo e escuro cheio de babados, e um pequenino chapéu negro adornava a cabeça. Pelo jeito era mesmo uma nobre, mas Kaito não entendia o porquê de quererem a garota morta. Naqueles casos não se costumava pedir uma recompensa ou algo do tipo? Além do mais, que modo horrendo de acabar com a vida de alguém. Desde que segurou aquele punhal, ele sabia que preferia morrer a obedecer àqueles homens.
Agachou-se ao lado dela. A garota moveu a cabeça na direção dele, provavelmente escutando-o. Devia estar apavorada. Não havia mais sinais de violência nela, o que o levava a pensar que realmente esperavam que ele maltratasse a menina. Com cuidado ele desfez o nó atrás da cabeça que a amordaçava, e depois, retirou a venda de seus olhos.
Tinha um rosto angelical, de olhos dourados. Parecia também estar na idade de Piko ou Miyu. Kaito estava ansioso para lhe dizer que não lhe faria nenhum mal, para tranquilizá-la de qualquer maneira, mas ficou surpreso ao ver o ar sereno dela.
– Você não é do bando– observou ela numa vozinha estridente, enquanto estudava-o de cima a baixo. – É muito jovem também. Estão querendo iniciar você?
Ele hesitou, confuso.
– Acho que sim– disse.
– Idiotas. Você nunca vai fazer isso. – Ela moveu o corpo até conseguir ficar sentada diante dele. – Ainda faltam minhas mãos e pés, menino.
– Meu nome é Kaito – ele falou, sem muita certeza do porquê.
– E eu me chamo Mayu. Muito prazer. – Ela balançou os braços atrás dela. –Pode me soltar agora, por favor?
– Por que prenderam você, Mayu-chan? E por que mandaram a mim, que nunca fiz mal a ninguém, matar você?
– Eu já disse– ela balançou o corpo para frente e para trás, devagar. – Eles são idiotas e acham que você faria qualquer coisa pra se salvar. Quanto a mim... Eles me prenderam porque meu pai mandou.
Ela deu um risinho diante do olhar chocado de Kaito. – Não é isso que os pais fazem, não é? Acontece que meu pai é um homem muito mau. Ele foi mau comigo muitas vezes, por muito tempo. Ele me ensinou a ser má também. Mas um dia ele decidiu que eu tinha ficado muito má, e isso podia prejudicar a ele. Então, mandou que me eliminassem.
– O seu próprio pai?! – Ele continuava sem acreditar.
– Bom, ele não é realmente meu pai. Enfim, agora que eu contei tudo, você vai me desamarrar ou quer que eu o faça eu mesma?
Diante dos olhos dele, Mayu forçou os braços por dentro das cordas que os uniam junto ao corpo. Afastou as pernas e pôs os braços entre elas, levando as cordas das mãos até a ponta das sapatilhas. Ela tocou as solas e lâminas afiadas saltaram para fora, cortando as cordas. Em menos de segundos estava completamente livre.
– Como eu disse– ela se pôs de pé e ajeitou o vestido no corpo. –Sou uma garota má. Agora, a questão é: o que você consegue fazer com essa faca em suas mãos?
Kaito a viu bater as pontas dos pés no chão, fazendo as lâminas esconderem-se sob as sapatilhas dela. Aquele objeto em sua mão lhe parecia tão inútil quanto um galho de árvore.
– Nada– disse, respirando fundo. – Não posso lhe ajudar a sair daqui, nem me defender daqueles caras lá fora. Não sou capaz de proteger nada nem ninguém... Você pode usar este punhal pra me matar agora mesmo, se quiser.
Ela deu outro risinho enquanto ajeitava o pequeno chapéu na cabeça.
– Eu disse que era má, não burra. Faz três dias que não como nem bebo direito. Não posso gastar o pouco de energia que me resta matando alguém que sequer pode me fazer mal.
– Então – ele recuou um tanto assustado, quando ela se aproximou e lhe estendeu a mão – o que pretende fazer?
– Fugir, é claro. Vou precisar dessa faca.
Minutos depois eles estavam fora da cabana. Kaito não conseguia acreditar em como aquela menininha frágil podia ser tão letal. Em segundos saiu pelo esconderijo, correndo numa velocidade quase impossível e rasgando todas as gargantas que encontrou pelo caminho. Kaito, que estava bem atrás dela, levou todo o banho de sangue.
– Você é um garoto tão gentil– ela fitava-o penalizada, limpando o sangue do rosto dele com suas mãozinhas. – Sinto muito por ter feito você ver tudo isso.
– Você é incrível, Mayu-chan – ele murmurou assombrado.
– Nem um pouco– a menina riu e lhe entregou o punhal de volta. –Prefiro machados, mas uma faca também me serve bem.
Ele nem quis imaginar aquela garota usando um machado para decepar as cabeças de seus inimigos. – Como eles conseguiram te pegar?
– Eu te disse, foi o meu pai. Ele contratou o bando pra me levar embora. Um daqueles homens sabia como usar tranquilizantes.
Kaito lembrou do dardo em seu pescoço, o modo como foi capturado. – Mas se podia fugir a qualquer momento, por que ficou lá?
– Fiquei curiosa– ela contou, enquanto seguiam pelos arbustos e se afastavam mais e mais da cabana. – Eles falaram que capturaram um cara novo e queriam ver do que ele era capaz. Então, eu quis também.
– E você viu– Kaito admitiu, frustrado. – Sou um completo inútil.
– Com uma faca nas mãos, com certeza é. Você pode até matar outros animais, mas humanos são uma espécie diferente pra você. Acredite, um assassino de verdade reconhece outro quando o vê. E você não é um.
– Eu sei disso– ele admitiu. – Mas nesse mundo, só o que as pessoas fazem é matar umas às outras. Por isso eu sou um inútil. Não posso proteger nem matar ninguém.
A garota voltou-se para ele com interesse. – Tenho que concordar com você. Mas sabe, você não precisa ser assim. Eu posso te ajudar.
– Pode? –ele fitou-a incrédulo.
– Bom, não posso ensinar você a ser mau. Isso é você quem escolhe se vai ser ou não. Mas como fazer coisas más... isso eu posso te ensinar.
Ela mexeu entre as dobras do vestido, tirando um objeto longo dali. A wakizashi de Kaito. Amarradas ao cabo dela, ele tinha prendido as duas alianças.
– Obrigado– ele jogou o punhal no mato e apanhou a wakizashi. – Isso é importante pra mim, Mayu-chan.
A garota lhe deu as costas e foi caminhando aos pulinhos. – Sabe, eu agora estou livre. De meu pai e de tudo que ele me obrigava a fazer. Ensinar você seria uma boa distração para começar.
– Tudo bem.
Ela voltou-se. – Você aceita?
– Por favor – Kaito ajoelhou-se na terra e curvou a cabeça, decidido. – Me ensine, Mayu-chan.
A garota sorriu. – Daqui em diante, é Mayu-sensei para você.
Kagamine Rin lembrava o seu próprio nome. Alguém o deu a ela, mas ela não sabia quem.
Olhava para os belos jardins que se estendiam diante da janela. Havia cansado da brancura excessiva do seu quarto e foi permitida a sair pela mansão. Ela observava os cômodos amplos, as tapeçarias e quadros, os móveis e estátuas, tentando ligar aqueles locais e objetos a qualquer coisa em sua memória. Sem o menor sucesso. Estava tudo tão em branco como o seu quarto.
– Rin-chan?
O homem de voz bonita estava atrás dela. Sorriu-lhe gentilmente e se abaixou até seus olhos lilases estarem no mesmo nível dos azuis de Rin.
– Trouxe isso para você. Acho que lembra como usar, não lembra?
Em suas mãos, uma longa e grande katana desembainhada. A luz do dia clareava a ondulação na liga do metal e brilhava no corte afiado. Rin estendeu a pequena mão para o cabo, que tinha o comprimento do bracinho dela, e ergueu com facilidade a espada. Apontou-a para o lado num golpe que fez zunir o ar, e a recolheu junto à cintura, como se a pusesse dentro de uma bainha invisível.
Seu olhar, antes perdido, agora brilhava como o fio da lâmina.
– Sim– respondeu. – Eu lembro, pai.
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