Little Last Love Song
6 6 - Tudo o que nos restou.
Kaito corria apressado pela neve, ansioso em encontrar seu destino desconhecido. Ansioso em encontrar Meiko.
Ao descer as colinas dos bosques que delimitavam a cidade, pôde ouvir os tiros e as explosões, e viu a fumaça negra empestear o céu. Uma aflição terrível tomou conta do seu peito e ele parou, a mão trêmula sobre o cabo da wakizashi, enquanto seu coração hesitava.
Fique vivo, custe o que custar. Mas e se ficar vivo custasse a vida de Kyoteru e seus irmãos do orfanato? E o que ele poderia fazer lá, carregando uma espada curta que mal sabia manejar? Sequer foi capaz de proteger Meiko. O máximo que poderia fazer era levar um tiro antes mesmo de alcançar a porta do orfanato em chamas, e tudo teria sido em vão.
Ele deu as costas e voltou a correr, deixando o vento secar suas lágrimas. Jurou a si mesmo que nada seria em vão. Ia encontrar Meiko, e eles fariam aquela vida valer a pena.
Kyoteru se recusou a ver os corpos das meninas. Reconheceu os cabelos verdes, os azuis e os castanhos, e então orientou aos coveiros quanto aos nomes que seriam colocados nas lápides.
Por um longo tempo ele fitou as pedras mortuárias no cemitério, sozinho e em silêncio. Desde que soube tudo o que aconteceu por Luka, ele não derramou uma lágrima.
Na enfermaria encontrou Piko ainda sedado. Ele estava em choque e não conseguia dormir sem ter pesadelos. Ao seu lado, recostado na almofada da maca, Len fitava o vazio demoradamente. Sua expressão mudou ao ver Kyoteru entrar.
– Vou levar flores pra elas, sensei– disse. –Assim que me deixarem sair daqui.
– Claro– ele pegou uma cadeira e sentou ao seu lado, observando pesaroso o garoto de cabelos brancos ressonar pesadamente.
– Ele vai ficar louco? Ou vai precisar dormir assim pra sempre? Pra... Não precisar lembrar?
– Acho que o que ele passou é o bastante pra deixar qualquer um louco– Kyoteru assentiu. – Mas o Utatane é forte. Vamos acreditar nele, e apoiá-lo.
– Sim!
Parecia tão enérgico como sempre, mas Kyoteru reconhecia o brilho vazio nos olhos azuis do garoto. Era o vazio que ele enxergava, toda vez que se olhava no espelho.
O olhar de quem viu mais coisas do que podia suportar.
– Vamos sobreviver, Len-kun– prometeu ele, pondo a mão sobre seus cabelos louros. – Pelas pessoas que perdemos. Vamos viver por elas, certo?
Ele assentiu hesitante, e baixou a cabeça.
– O que foi?
– Sensei, eles vão voltar, não vão?
O homem suspirou fundo.
– Vão – admitiu. – Essa guerra parece não ter fim. Só que dessa vez, não seremos os moradores indefesos de um orfanato. Vamos nos defender. E se pudermos, vamos atacar também.
Len então sorriu. – Eu quero ajudar, sensei. Prometa que vai me deixar ajudar. Me ensine o que eu tenho que fazer.
– Você vai ter que matar, Len-kun.
– Eu vi a Rin fazer isso. É nojento, mas não é tão difícil.
À menção do nome da garota, Kyoteru suspirou ainda mais fundo.
– Você não vai fazer do jeito dela– explicou. – Vai usar armas de fogo, são mais rápidas, limpas e precisas. E seguras. Prometo que vou lhe ensinar quando você sair daqui, e assim que o Piko melhorar, se ele também quiser lutar, vou ensinar aos dois.
Encontrou com Luka ao deixar a tenda da enfermaria.
– Nenhum sinal da garota– ela contou. –Reviramos os escombros e encontramos os corpos dos quatro invasores, mas nada dela.
– O Len ainda não sabe– Kiyoteru murmurou. –Pensa que ela morreu com as outras.
– Ele está aguentando bem isso, não é?
– Considerando que ele perdeu o orfanato, os cinco irmãos de criação, viu um amigo ser violentado e a Rin se transformar numa assassina demoníaca, não sei se posso dizer que ele está bem... Mas ele quer lutar. Ao menos, não quer que o que houve se repita. Parece que a cabeça dele ainda está no lugar.
– Diferente do cara que encontramos no porão– Luka disse. – A Rin fez um serviço de primeira nele. Como uma menina daquele tamanho... Com uma espada daquele tamanho...?
– Eu não sei, Megurine-san – ele passou a mão pelo rosto, cansado. – Não sei como ela fez aquilo, nem onde está agora. Nem onde estão dois de meus filhos. Os outros dois passaram por um verdadeiro inferno, e agora a pouco estive diante do túmulo de minhas três filhas.
Eles pararam diante da tenda de reuniões da unidade de resistência. Luka encarou-o com um pesar sincero.
– Você não merecia nada disso– afirmou.
Ele observou o movimento de militares entrando e saindo da tenda. – Os filhos que me restaram deveriam ser apenas crianças. Mas agora, vou ter que transformá-los em soldados.
– Não vou dizer que eu não gostaria de tê-lo de volta na corporação... Mas de jeito nenhum eu queria que fosse dessa maneira.
Kiyoteru então fitou-a, um sorriso triste em seu rosto.
– Estou de volta, Megurine-san.
Ela sorriu de volta, apertando os olhos para reprimir as lágrimas, e então bateu continência.
– Seja bem vindo, Capitão.
Desde que Kaito começou a se aventurar sozinho pelos bosques e florestas, não demorou muito a perceber que não estava sozinho ali. Conseguiu esconder a wakizashi por todo o caminho, mas ladrões lhe levaram dinheiro e os abrigos de inverno. Em poucos dias estava doente de frio e fome, e a perspectiva de ser atacado por algum animal faminto era mais do que provável.
Então, Kaito se deu conta de que ele também era um animal faminto. E como um lobo ou urso, também possuía garras. Ele desenterrou a wakizashi de um dos arbustos onde costumava escondê-la, jogou-se contra uma árvore e ficou à espreita.
O primeiro lobo a aparecer estava tão magro que não se podia culpá-lo por ser tão imprudente. Jogou-se em cima de Kaito e foi recebido com uma punhalada direto no coração. O garoto nunca havia aberto um animal na vida, mas saber que estava por conta própria num mundo hostil como aquele lhe deu coragem o bastante. Precisava da pele do animal para se aquecer. Obrigou-se a engolir o sangue e a carne crua, ou jamais teria forças para seguir em frente.
Nos dias seguintes aprendeu a caçar, a dormir em locais seguros, a cobrir seus rastros com neve para que outros animais não o perseguissem. Acostumou-se ao frio, assim que acumulou peles de lobo o bastante para se aquecer, e carne crua já não era mais um alimento tão repelente. Em pouco mais de três meses, havia atravessado boa parte da floresta sem muitos problemas
Mas ele não contava que predadores muito mais perigosos estavam à espreita.
Kaito tinha uma noção bem vaga de que o templo de Meiko ficava próximo da região dos portos, um local que ainda não estava em guerra, mas que também ficava a quilômetros dali. Não se importava. Conseguiu sobreviver até ali, e a wakizashi de Kyoteru foi uma preciosa companheira. Poderia ir ainda mais longe com ela.
Kyoteru, ele pensava desolado. Seus irmãos. Àquela altura ele não tinha esperanças de que alguém no orfanato houvesse sobrevivido, e a culpa por não ter voltado atrás naquele dia o consumia constantemente. Tudo o que ele podia fazer era seguir o último pedido de seu tutor, mas fazê-lo era torturante.
Pensar em Meiko, em vê-la outra vez, lembrar dos anos em que cresceram juntos, era tudo o que lhe dava forças para seguir em frente agora.
E foi com a imagem dela na mente que ele sentiu uma breve picada no pescoço, e então perdeu os sentidos.
Os dias eram agitados na base militar de resistência. Sob as ordens do capitão Hiyama e da Subcomandante Megurine, novos soldados eram recrutados e treinados, armamentos eram trazidos, testados e estocados, suprimentos chegavam de zonas aliadas. O ataque recente havia dado um ânimo novo àqueles guerreiros, que trabalhavam como nunca.
Kyoteru já não era mais o tutor que Len e Piko conheciam. Com a farda e o quepe militar, sua expressão era rígida e fria como a de Luka. Embora não maltratasse os garotos, evitava tratá-los com seus filhos. Afinal ele não era mais seu tutor. Eles agora não eram mais órfãos, eram soldados. E o orfanato sequer existia mais.
Os garotos entenderam perfeitamente as novas regras e as aceitaram sem a menor lamentação. Viram e viveram por si mesmos a situação que enfrentavam, e agora sabiam que se continuassem a ser crianças indefesas, seriam apenas um fardo. Por isso faziam o que podiam para ajudar. E acima de tudo, respeitavam a autoridade de seu antigo tutor e até o admiravam, em sua postura imponente e autoritária. Tinham orgulho em dizer que ele era o capitão ‘deles’.
– Até que não são inúteis– Luka observou em voz baixa, enquanto observava Len e Piko aprendendo com um grupo de crianças mais velhas a desmontar e limpar armas. – Aceitaram bem que o pai deles agora é um chefe do exército.
– Eu os criei bem– ele replicou, sem nenhum orgulho. – Além do mais, eles sabem o que é preciso para ajudar uns aos outros. Não são egoístas. Jamais matariam milhares de pessoas apenas para conseguir conquistar um maldito território para o país deles.
– Pois é... Pena que os adultos não pensam como eles. Mas de qualquer jeito, essas crianças vão se tornar assassinos. Soldados a serviço de pessoas que não pensam como eles. Então, de que adianta tanto altruísmo e boa índole? Por que valorizar tanto isso?
Ele fitou as crianças rindo e brincando de sujar umas às outras de graxa. Perceberam que o Capitão os observavam e bateram continência na mesma hora, voltando ao trabalho de cabeça baixa, mas alguns ainda com sorrisos nos rostos.
– Porque isso é tudo que nós temos, Luka-san – murmurou, melancólico.
Kaito estava sob o domínio de um bando de ladrões. Ele já tinha encontrado ladrões antes, mas não do tipo que disparassem dardos envenenados e o largassem amarrado à beira de uma grande lareira. Era a primeira que ele via em meses, e o calor pareceu reavivar todos os seus ossos e fibras acostumados com a neve e a carne crua dos animais.
Um homem também lhe deu de comer. Empurrava de tempos em tempos um ensopado entre seus lábios, algo gosmento e cheio de pedaços de carne de algum animal desconhecido. O cheiro era ruim e o gosto, pior, mas a fome o fez engolir tudo de uma vez.
Depois outro deles, aparentemente o chefe, explicou que eram um bando de saqueadores. Que estavam com falta de membros no grupo, e desejavam recrutá-lo. O preço dele já estava pago – a wakizashi não estava mais em sua cintura, foi a primeira coisa que Kaito notou ao despertar. A única coisa que ele precisava fazer para se provar capaz de entrar no bando era mostrar sua crueldade, o que poderia fazer além de roubar.
– Ali tem uma garota– ele apontou para um quarto do outro lado da cabana onde estavam. – Filha de nobres, a vadia. Raptamos hoje mesmo. Vá até lá com uma faca, estupre, mate e me traga as orelhas e a língua. Se sair daquele quarto com uma orelha faltando, você perde as suas duas.
Kaito engoliu em seco, enquanto um punhal afiado era entregue em suas mãos. Tremia da cabeça aos pés, e nenhuma palavra era capaz de sair de seus lábios. Ele não podia fazer nada daquilo e sabia. Meiko estava em sua mente. Kiyoteru e as crianças. O orfanato.
Como ele foi parar naquela situação?
– Aproveite, rapaz –o chefe empurrou suas costas na direção do quarto. – Não deixei ninguém encostar debaixo das saias dela até encontrar o candidato perfeito. Mas ande logo, não temos a noite toda.
Com os olhos arregalados de terror, ele apertou o cabo do punhal e deu o primeiro passo em frente.
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