Little Last Love Song

5 5 - Lâminas nas mãos de crianças.


Kaito parecia ter sentido que algo errado estava prestes a acontecer. Foi assim que, naquela manhã, acordou e não encontrou Meiko ao seu lado.

Ao invés disso, havia apenas uma carta.

Nos outros cômodos do orfanato a movimentação de todos os dias começava. As crianças corriam de um lado para o outro, ajudando Kyoteru com o café da manhã. Rin, que passava com uma cestinha de pão nas mãos, parou de repente.

– Cadê a Meiko-chan?

Os outros olharam ao redor, e então deram pela falta dela. Percorreram a casa de cima a baixo, quarto a quarto. E então notaram que Kaito também havia sumido.

Kyoteru resolveu então ir para fora de casa. Precisou caminhar muito para encontrar o rapazinho sentado numa calçada, várias quadras adiante, todo encolhido debaixo do casaco azul.

– O que faz aqui, rapaz? –Indagou, agachando-se diante dele. –Estava procurando a Meiko-chan?

– Eu sei onde ela está– a voz dele saiu abafada pelo cachecol; seu rosto estava escondido sobre os braços.

– E pode me dizer onde é?

Ele sacudiu a cabeça, recusando-se a encarar o tutor. Mesmo assim, o mais gentilmente que pôde, Kyoteru segurou os cabelos escuros dele e o fez erguer o rosto. Seus olhos azuis estavam intumescidos, mas ele não chorava. Havia apenas algo indecifrável naquele rosto jovem, algo que preocupou muito o tutor.

– Cuidei de vocês dois desde que eram menores, Kaito-kun– disse com seriedade. –Fiz tudo o que pude por vocês e não me arrependo disso. Mas isso significa que eu mereço saber se ao menos vocês estão bem. Se a Meiko-chan está correndo algum tipo de perigo, é sua obrigação me pedir ajuda, a ajuda de uma adulto. Afinal, você é o noivo dela, não é?

O garoto engoliu em seco. – Não tive tempo. Ela partiu antes... Ela foi encontrar os sacerdotes, sensei. Vieram a cavalo esta manhã e levaram ela embora. Ela é a última herdeira do templo, e por isso não pode abandoná-lo, ou uma desgraça vai cair sobre eles. Disseram que sabiam a localização do orfanato e iam contar ao inimigo. Se ela não fosse com eles, iam ajudar a destruir esse lugar e matar a todos nós.

Falou tudo num fôlego só, e então voltou a baixar a cabeça. Então, entregou o pedaço de papel que Meiko lhe deixou.

– É como você diz– ele falou pesaroso, lendo as palavras de despedida da garota. – Ela ama muito você, Kaito. Ela fez isso para o seu bem, o nosso bem. mas o coração dela está completamente partido.

Kaito levantou-se de repente, ficando de costas para o homem, e então Kyoteru percebeu que aquele garoto já era quase tão alto como um homem.

– Estou partindo, sensei– disse determinado. – Sei que o senhor precisará de ajuda com as crianças, mas não posso fazer isso.

– Você vai atrás dela? –Kyoteru exclamou. –Sequer sabe para onde a levaram?

Kaito voltou-se para ele. – Não vou passar o resto da minha vida sem saber. Prefiro me arriscar e morrer no caminho, mas não vou aguentar ficar longe dela. Sem saber como ela está. Sem poder vê-la nunca mais. O senhor entende isso, sensei?

Ele sabia da família perdida de Kyoteru. E o homem conhecia muito bem a impotência de ter as pessoas que amava sendo arrancadas dele. Respirou fundo e pôs a mão no ombro do rapaz, pedindo para que ele esperasse ali alguns minutos. Quando voltou, trazia um embrulho longo consigo.

– Chama-se wakizashi– ele explicava enquanto Kaito tirava do embrulho uma espécie de espada curta, mais longa que um punhal, de lâmina curva e afiada. – É a parceira da katana, a espada longa dos samurais. Recebi as duas de meus antepassados, mas como você não possui treinamento algum, essa lâmina será o bastante para que se defenda de ladrões e outros malfeitores.

– Obrigado– ele murmurou, fitando o brilho no fio da arma.

– Claro que isso não vai lhe proteger de tiros e explosões, então por favor, evite as áreas de conflito o máximo que puder. O templo da Meiko-chan já estaria em ruínas se estivesse num desses lugares, então, procure pelas florestas. Andes pelos bosques. Esconda-se e proteja-se. – Kyoteru segurou em seus ombros, os olhos castanhos ligeiramente embaçados por trás dos óculos. – Você é um filho para mim Kaito-kun, e me dói vê-lo correr para o perigo sem que eu possa impedir. Mas se posso lhe pedir uma última coisa, eu lhe peço que fique vivo. Custe o que custar.

– Eu vou viver, sensei– Kaito embainhou a wakizashi e a prendeu na cintura. – Vou viver pra encontrá-la. Ela está me esperando, eu sei disso. Também sei que sou fraco e não sei nada do mundo, mas vou aprender. Vou ficar forte. E quando eu encontrar a Meiko, ninguém mais vai tirar ela de mim.

Kyoteru assentiu com firmeza, diante da determinação no olhar daquele garoto. Quando ele se tornou tão adulto? E assim ele o viu caminhar decidido entre as ruas e escombros, sem olhar para trás, até sumir de vista.

Levando consigo apenas a wakizashi e as duas alianças de casamento.

Ele se demorou por poucos minutos ali, até ouvir um grito fininho e assustado. Miki, com certeza. Ele correu de volta para o orfanato, mas ao passar pelas casas próximas ao local, a fumaça preta começava a subir pelo céu. Mais gritos se ouviram, mas foram os tiros que elevaram o pânico de Kyoteru. Quando chegou ao local, as chamas escapavam pelas janelas superiores. Havia pesadas trancas de madeira bloqueando as portas. Desnorteado, ele caminhou direto para a porta da frente, gritando pelas crianças, quando um tiro atingiu seu peito e o derrubou no chão.

O céu estava cinza. Kyoteru sentia o frio da neve em suas mãos. Podia movê-las, mas não tinha forças para se levantar. Seu coração se desesperava ao pensar nas crianças presas ali dentro, enquanto sua mente trabalhava furiosamente. Os sacerdotes mentiram, deram a localização do orfanato e os entregaram aos saqueadores. E ainda se diziam pessoas santas.

Só esperava que Kaito estivesse longe o bastante dali. Ele o mandou para as florestas, e o garoto estava determinado a seguir em frente. De jeito nenhum ele devia voltar atrás, ou seria mais uma morte a pesar na mente de Kyoteru.

Quando sentiu a consciência começar a se perder, ou viu um som conhecido no meio da balbúrdia que ecoava do orfanato em chamas. O jipe de Megurine Luka estacionou bem ao seu lado, e alguns soldados o carregaram com cuidado para os bancos de trás, sob as ordens dela.

– Foram os milicianos– ela exclamou enraivecida. – Alguém deu a eles a nossa localização. Agora toda essa área está desprotegida. Perdemos vinte e dois homens tentando defender o pouco que restou da nossa base.

– As crianças– Kyoteru balbuciou, engasgando-se com o próprio sangue.

– Fiz o que pude– ela respondeu seca. Tirou o casaco e o embolou por trás da cabeça dele, para mantê-la erguida. Enquanto éramos atacados, um dos nossos que patrulhava a cidade viu os milicianos se aproximarem daqui. Ele demorou a nos avisar porque tomou alguns tiros, e morreu para nos dar a informação.

– ... Crianças– ele repetia, sem entender nada do que Luka falava.

– Você precisa descansar, Hiyama-san. Tem uma bala enfiada no seu coração e–

– As CRIANÇAS!!! – ele berrou, antes de desmaiar.

Ele se amaldiçoaria para sempre, até o fim de sua vida. Além dela, se houvesse alguma. E esperava que houvesse, para que todo o sofrimento que ele merecia lhe fosse devidamente aplicado.

Só assim haveria alguma justiça naquele mundo.

Quando acordou na base improvisada do exército, a vários quilômetros da anterior, já fazia dois dias desde que a bala foi retirada do seu peito. Luka quis poupá-lo dos detalhes, mas ao ser lembrada que um dia ela já fora subordinada de Kyoteru, foi obrigada a contar a verdade que destruiu sua alma.

Naquela manhã, foi ele quem deixou a porta do orfanato aberta. Ao sair atrás de Kaito, num lapso por ter perdido o garoto e Meiko de vista, simplesmente esqueceu da tranca. E foi assim que os milicianos entraram no orfanato pela porta da frente.

O que mais impressionou Kyoteru foi o modo como as crianças reagiram rápido, como estabeleceram suas prioridades. E como decidiram quem deveria viver ou morrer. Ele sempre lhes ensinou que os mais velhos cuidavam dos mais novos, e foi assim que Piko arrastou Len e Rin para os fundos da casa, enquanto Miku, Gumi e Miki ficaram para deter os milicianos. Eram quatro homens armados e munidos de coquetéis molotov. Enquanto um deles destruía a casa, os outros três se encarregavam das meninas.

Quando terminaram, tudo o que elas queriam era morrer. Mas ao menos Piko havia levado os menores para um lugar seguro, ou pelo menos, acharam que sim.

Estavam no porão, escondidos atrás das toras de madeira para lenha. Piko sabia que seriam descobertos ali, por isso seu único plano era se sacrificar pelos mais novos. Pediu para que fechassem os olhos e tapassem os ouvidos. E então, ficou na porta esperando.

Rin estava inquieta. Len queria que ela parasse de se mover, mas a tora de madeira na qual ela se apoiou era diferente das outras. Nesse momento a porta se abriu num solavanco. Os dois se encolheram novamente, e Piko fez de tudo para que o miliciano acreditasse que era o único naquele recinto.

Tudo mesmo.

Rin não conseguiu tapar os ouvidos, diante dos gritos de dor do seu amigo. Não pôde fechar os olhos ao ver aquele monstro jogá-lo sobre as escadas, abaixar as calças e atacá-lo. Também percebeu que Len não conseguiu. Estava horrorizado, amedrontado, mas acima de tudo furioso. Sua mão se fechava contra uma lasca de madeira e ele estava prestes a cometer um ato bastante imprudente, quando sentiu a mãozinha de Rin sobre a sua.

Ela fez que não com a cabeça, e se ergueu silenciosamente. Em suas mãos pequenas, o grande e estranho objeto no qual havia se apoiado antes. Ela sabia que aquilo era uma bainha. Sabia que ali dentro havia uma espada. E embora sentisse o grande peso dela, algo queimava em seu corpo e lhe dava forças. Deixou seus olhos azuis vítreos, pupilas dilatadas, respiração pausada.

Ela desembainhou a espada lentamente enquanto ia na direção do homem, que se concentrava em prensar Piko nos degraus com os quadris, enquanto o garoto já não tinha mais forças para espernear ou sequer gritar. Os passos de Rin eram sorrateiros, e assombrado, Len a viu empunhar a grande e afiada lâmina, e enterrá-la entre as nádegas do homem num golpe certeiro e profundo.

Ele sequer gritou. Grunhiu e escorregou de cima do corpo de Piko, que estava imóvel e ensanguentado.

Então, Len viu o que lhe realmente assustou. Rin arrancou a espada do corpo do homem e a enterrou em suas costas, por toda sua espinha. Mesmo sendo três vezes menor que ele, deu-lhe um chute que o fez virar de frente, e então continuou a golpeá-lo. Abriu sua barriga e espalhou suas vísceras pelo assoalho. Dilacerou seu rosto, e só quando decepou sua cabeça, ouviu a voz fraca de Piko, pedindo para que ela parasse.

Rin então largou a espada e caiu de joelhos, os olhos arregalados de terror com o que acabara de fazer. Era como se houvesse acabado de sair de um transe. Nesse momento o barulho das explosões chegou até o porão, que tinha lenha o bastante para queimar a casa por dias. Len ajudou Piko a se levantar e pegou Rin pela mão. Ela soltou, pisando nas vísceras do homem, e saiu andando sozinha na frente deles. Len então apanhou a espada e a seguiu junto com Piko.

Quando atravessavam o corredor envolto em chamas e fumaça, Len gritou pela garota. Rin não parecia se dar conta deles. Seguia em frente, sem se importar com o fogo que lambia a madeira das paredes e do assoalho. Piko conseguiu abrir a porta dos fundos, mas quando tentaram ir atrás de Rin, uma pesada viga em chamas desabou e bloqueou o caminho. A casa inteira estava prestes a desmoronar.

Quando Luka e os soldados chegaram, apenas Len e Piko estavam caídos na neve. Os milicianos haviam saqueado, violado e matado todas as crianças em que puseram as mãos e destruíram a casa. Por algum milagre aqueles dois garotos estavam vivos.

– Esse milagre se chama Rin – disse Luka, a um Kyoteru desolado com tudo o que acabara de ouvir. – Encontramos os corpos das meninas em meio aos escombros. Mas a Rin... Ela não estava lá.

Notas finais
Retornando dos mortos, é. Pra quem acabou de ler, muito obrigada pela atenção. Um comentário em forma de review, com sua opinião, dúvida ou sugestão, me faria muito feliz. Té maisinho :****